Entrevistas feministas

Por Brenda Fucuta  |  Noticias  |  1 Comentário

Screen Shot 2015-11-06 at 1.34.40 PMMulheres Incríveis passa a publicar entrevistas com mulheres que nasceram depois dos 80 (a geração Y). Elas protagonizam um dos mais vibrantes movimentos sociais desta década: o novo feminismo brasileiro. Reportagem de Aline Khouri, Barbara Bretanha, Mariana Sodré e Brenda Fucuta

nov
06
2015

Ju de Faria e o #primeiroassedio

Por Brenda Fucuta  |  Entrevistas, Noticias  |  0 Comentários

Screen Shot 2015-11-06 at 1.34.03 PM  A jornalista Ju de Faria, 30 anos, é uma das mais incríveis representantes  do novo         feminismo brasileiro. Novo feminismo, feminismo de quarta  onda, feminismo   hashtag, feminismo da geração Y. O nome é de menos. O importante, acho, é o enorme barulho que uma campanha liderada por Ju (ou Jules) faz quando aparece nas redes sociais. Chega de Fiu Fiu! contra o assédio em espaços públicos, teve 34 mil likes no Face e adesão suficiente para transformar causa num documentário, viabilizado pelo serviço de crowdfunding Catarse. #primeiroassédio, a segunda campanha de Ju, criada depois da polêmica de comentários pedófilos sobre o Master Chef Jr, teve a hashtag replicada 82 mil vezes em apenas cinco dias.

Ju se transformou numa das mais interessantes vozes (e braços, porque ela é de botar a mão na massa) da geração Y. Em 2015, participou de evento da Onu/UN Women do Dia Internacional da Mulher, da Y20, iniciativa do G20 e palestrou no SXSW, o disputado evento do mundo das novas mídias e tecnologia.

Seu think Olga!, central de conteúdo e produção de engajamento, é referência num feminismo barulhento, que derruba anúncios de youtube, desconcerta machistas, faz um olé nas feministas da geração X – as que nasceram nos anos 60 e que deram duro para chegar às diretorias das empresas mas talvez se perguntem, hoje, se tudo isso vale a pena (não porque não podemos, mas talvez porque não queiramos.)

Sincrético, este feminismo amplia o conceito interseccional (as minorias dentro da minoria, o feminismo negro, o feminismo da periferia, o feminismo trans)”. Feminismo + Darcy Ribeiro, uma das combinações de maior potencial inovador do mundo, não podia acontecer fora do Brasil, né? Também não vai acontecer, na minha opinião, se não incluirmos os meninos, os homens, os caras. Mas essa sou eu falando. Vamos ver o que a Ju fala sobre esse assunto.

Ju de Faria: "A internet nos deixa falar de feminismo de maneira mais acessível e bem humorada"

Ju de Faria: “A internet nos deixa falar de feminismo de maneira mais acessível e bem humorada”

É comum que as mulheres da minha geração enxerguem o feminismo como uma visão de mundo que exclui os homens. Você se considera feminista?

Sim, sou feminista.

Há dois anos e pouco, logo depois de fazer uma formação de moda em Londres, você me contou que ainda estava tentando conciliar a ideia de usar batom, pintar as unhas e casar de papel passado com a de ser feminista. Para você, hoje, o que é ser feminista?

É lutar por igualdade de direitos entre homens e mulheres. Criei uma definição do meu feminismo: lutar para ampliar o leque de opções das mulheres, para que elas possam tomar suas próprias decisões, de maneira informada e com consciência, sem ter que pedir desculpas pelos caminhos que escolhem.

Como é ser feminista e editora de moda e de beleza que, para muitos, impõe modelos repressores à mulher?

Por muito tempo reneguei a credencial de feminista por acreditar que o feminismo me renegava. Na minha ignorância, acreditava que algumas das minhas ações, como me interessar por moda e beleza e ter me casado no papel, já me excluíam do movimento. Foi graças a debates na internet ­–com mulheres comuns, mulheres dispostas a me esclarecer questões – que me aprofundei no assunto, entendendo então que feminismo também significa liberdade e empoderamento.

Quem ou o que te inspirou a ser feminista?

Sempre compartilhei da luta do feminismo se partimos do significado básico do termo, que é a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres. Lembro de ficar bravíssima com o slut shaming que acontecia na escola, durante minha pré-adolescência; entrava em discussões a favor do aborto com coleguinhas, essas coisas. Minha mãe sempre foi uma mulher muito determinada. De família humilde, começou a trabalhar aos 13 anos, fez financiamento estudantil para bancar a faculdade de Medicina. Voltou para a faculdade depois dos 40, se formou em direito e trocou de profissão, provando que nunca é tarde para seguir seus sonhos… Ela, certamente, é uma grande e a mais próxima inspiração da minha vida. Ao longo do meu caminho, fui guardando no coração outras inspirações femininas: Maya Angelou, por exemplo [escritora e poeta americana dos anos 40); não existe líder mais gentil do que ela foi.

Gloria Steinem e Dorothy Pitman Hughes, que criaram o primeiro albergue para vítimas de violência doméstica em Nova York. Tem um frase da Gloria Steinem que me pauta muito: “Na minha juventude, não existia tal coisa como violência doméstica. Isso era chamado de vida.” E o tanto que elas fizeram para reverter essa situação de legitimidade de uma violência de gênero é inspirador. Duas mulheres que têm me inspirado muito nos últimos tempos com os conteúdos que criam são a Djamila Ribeiro e Jarid Arraes, que me ensinam muito sobre o feminismo negro. Nossa, são tantas. Não à toa, faço a lista de mulheres inspiradoras da Olga no fim do ano.

Como você compararia as preocupações das feministas dos anos 60 e 70 com as causas atuais?

Acho curioso esse pedido de comparação, pois as lutas feministas são exatamente as mesmas. O aborto ainda é criminalizado. E mesmo onde é liberado, como nos Estados Unidos, vem sofrendo golpes de reacionários! A violência doméstica, hoje colocada contra a parede pela Lei Maria da Penha, ainda mata mulheres a rodo. Se as sufragistas garantiram nosso direito ao voto, a participação feminina na política ainda é lamentável e essa falta de representatividade atravanca avanços políticas com recorte de gênero. Tudo isso para dizer que ainda lutamos contra as mesmas questões.

Alguma coisa mudou?

A internet, que nos ajudou a popularizar o movimento. Aproximou mulheres diferentes em torno de uma mesma causa. Ela fortalece nossa voz e nos permite gritar mais alto. A internet nos permitiu falar de feminismo sem academicismos, de maneira mais acessível e às vezes até de forma bem humorada.

Quais as causas feministas mais importantes, hoje?

Aborto, aborto, aborto. Sabemos que o aborto é um problema de saúde pública. Um problema de gênero, raça e classe social, que mata mulheres pobres, em sua maioria negras, que não podem arcar com um aborto seguro. As mulheres já fazem aborto. Elas precisam é deixar de serem denunciadas, caçadas, presas pela polícia e, claro, morrerem por causa dele.

Tem também a violência de gênero. Que liberdade temos para sermos nós mesmas, para vivermos nossas vidas, se apanhamos em casa? Se não podemos atravessar uma praça à noite por medo de sofrermos alguma violência sexual?

E, ainda, o pay gap. Como diz a Denise Damiani [consultora de finanças e mulheres], dinheiro é liberdade e independência. Está na hora de as mulheres receberem o mesmo que os homens.

nov
06
2015

“As mulheres precisam assumir cargos de decisão nas empresas”

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  0 Comentários
 Daqui, de São Paulo, eu e a repórter Sarah Uska no Skype. De um quarto de hotel de Cidade da Guatemala, antes de sair para sua primeira reunião, a engenheira civil Margaret Groff, 57 anos. Diretora financeira da binacional Itaipu, funcionária de carreira, Margaret é uma das maiores executivas do país. A Itaipu tem um faturamento de 4 bilhões de dólares e é uma das 500 maiores do país, segundo o ranking da revista Exame. “Lá, sou poderosa mesmo e os homens têm medo de mim”, brinca ela. “Primeiro, porque tenho este jeito afirmativo. Depois, porque a equidade de gênero está no meu DNA. E, terceiro, que diretor financeiro não seria poderoso numa empresa deste tamanho?”

Margaret foi uma das cinco lideranças empresariais e a primeira brasileira a receber o prêmio Oslo Business for Peace Award 2013, considerada a maior forma de reconhecimento de líderes de negócios por seus esforços na promoção da paz nas relações entre empresas e sociedade. Ela também criou o prêmio Weps Brasil, da Itaipu, no ano passado, que se inspira nos princípios para o empoderamento das mulheres da ONU e destaca as empresas brasileiras que trabalham pela equidade de gênero (as inscrições para o prêmio estão abertas, confira em www.premiowepsbrasil.org.). Nessa conversa com Sarah e comigo, ela conta que, como manobra tática para ascender na empresa, chegou a mudar de área.

 

Diretora financeira da Itaipu: Margaret Groff

Diretora financeira da Itaipu: Margaret Groff

Por que você precisou mudar de área para ser promovida?

Eu tinha muitos anos de gerência, estava pronta para crescer, mas não crescia. No momento em que houve a possibilidade de assumir uma superintendência, apesar de ser qualificada, fui preterida por um homem. Estamos falando de uma empresa predominantemente masculina, com muitos engenheiros. Percebi que precisava mudar de estratégia para conseguir ser promovida. Pouco tempo depois, engravidei e, durante a licença maternidade, resolvi que o melhor a fazer era mudar de área, sair da área técnica e ir para finanças. Foi o que eu fiz. Recuei, voltei atrás e fui para a área financeira, começar tudo de novo. Hoje, tenho certeza que foi o movimento correto. As mulheres precisam estar em cargos de decisão e a área financeira é muito importante nas empresas.

 

Mudar de área é uma manobra que você indica?

Talvez, se a mulher se encontra numa situação parecida com a que eu me encontrava. Não gosto de dar conselho, mas acho que quando a gente tem filhos costuma precisar de um pouco de sossego, de mudar o ritmo de trabalho. Não quero dizer parar de trabalhar, isso não. As mulheres precisam saber que dá para fazer carreira numa empresa e ter filhos também. Eu tive o meu primeiro filho aos 35 anos (Margaret tem dois, já na faculdade) e queria muito, achava importante para eu me sentir realizada. Mas não basta mudar de área. Veja, eu mudei para o financeiro e me preparei bastante para o passo seguinte. E uma das coisas que fiz foi me “candidatar” ao cargo que queria na época. Era 2003 e havia a vaga de superintendente do Fundo de Pensão da Itaipu (a previdência privada dos funcionários da empresa). Eu era bem tímida, mas percebi que, se não tomasse providências, se não pedisse para os amigos e aliados que me apoiassem, não iria chegar lá. Então, aprendi a ser cara de pau (rsrs). Deixei muito claro que queria aquela posição específica. Se não tivesse feito isso, é possível que não tivessem me considerado. Valeu a pena, acho que fiz uma boa gestão. Tanto que, três ou quatro anos depois, assumi a diretoria financeira da empresa.

Agora, você está num cargo muito importante na Itaipu. Qual o próximo passo? Tem vontade de ser CEO?
Eu adoro o que faço, adoro trabalhar, sou muito ativa. E não tem por que mentir, claro que todo mundo, em algum momento, pensa em ser CEO. Mas a carreira executiva não deixa tempo para mais nada. Então, quando penso nos próximos passos, fico mais inclinada a me imaginar num Conselho.

Como começou a se interessar pelo assunto equidade de gênero?

Mesmo sem saber o que estava fazendo direito, minha mãe sempre nos criou de maneira igual. Meus irmãos costuravam, cozinhavam, lavavam roupa. Eu e minha irmã tirávamos leite também. A gente morava num sítio e não tinha divisão de tarefas por ser homem ou mulher. Então, acho que, mesmo sem saber, acabei olhando as coisas com esta ótica de equidade. Mas só comecei a militar mesmo (rsrs) quando o atual presidente, Jorge Samek, assumiu e implantou uma gestão inovadora com foco nas minorias e na meritocracia. Foi criado um programa de equidade de gênero e eu me envolvi muito.

O que mudou na empresa?

Com o programa, fizemos um diagnóstico das principais dificuldades das mulheres no trabalho e criamos direcionamentos. Foi quando adotamos o horário móvel e a permissão de acompanhar os filhos em consultas médicas sem que o dia seja descontado. Alguns trabalhos exclusivamente masculinos passaram a ser ocupados também por mulheres, como operador e segurança. Nessas áreas, para você ter uma ideia, nem existia banheiro feminino. Em 2003, apenas 10% delas estavam em cargos de gerência e direção. Hoje, temos 21, 22% e a meta é de 30% em 2020. É ambiciosa, apenas 16% dos funcionários da Itaipu são mulheres. Mas vamos chegar lá.

O que você recomendaria para outras empresas conseguirem dobrar a liderança feminina?

Primeiro, colocar mulheres em alguns cargos de destaque: conselho, diretoria e cargos técnicos também. Devemos estar presentes em todas as áreas, mesmo nas predominantemente masculinas. Depois, investir na capacitação e na formação de todos, homens e mulheres. Toda empresa depende das visões masculina e feminina em todas as áreas para evoluir, senão ela fica estagnada e perde muito do seu potencial. Quando há mulheres nos cargos de liderança, as outras a sua volta se espelham e se empoderam também, uma coisa vai puxando a outra. Outra coisa é o engajamento da direção. Um programa de equidade tem que ter uma estratégia escrita nas diretrizes da empresa, um compromisso da alta administração. Falar de discriminação é difícil, as pessoas não gostam de ouvir, de admitir que existe.

O que você acha que ainda impede as mulheres de chegar ao topo?

Temos que melhorar muito a gestão das empresas na questão do gênero, temos muito discurso e pouca ação. E eu acredito muito que as empresas podem protagonizar este movimento de empoderar mulheres. O principal ponto é a falta de oportunidade. As mulheres são preteridas, isso precisa ser alterado. A gravidez ainda é encarada como um problema em certas empresas. Por isso, acho tão importante que a gente não perca o vínculo com a empresa durante a gravidez. Imagino que as novas gerações vão lidar com isso de forma mais fácil. Os homens mais jovens já estão reconhecendo que têm de assumir mais responsabilidades com a família.

Você se considera feminista?

Não. Não acho que precisamos ser feministas para lutar pela equidade, não somos iguais aos homens, somos diferentes e viva a diversidade! Temos que trazer os homens junto.

Mas ser feminista não significa excluir os homens, significa? Não é só uma forma de lutar pela igualdade de oportunidades?

Sim, tem muitas mulheres que não se dão conta da necessidade de lutar pela equidade. Eu também não me dava conta, mas agora percebo que o fato de estar num cargo financeiro, um cargo influente, significa muito para as outras mulheres. Insisto que as mulheres precisam ocupar cargos de decisão, porque na hora de decidir por um candidato a tendência, quando temos homens, é de chamar só homens para ocupar as vagas. Acabei de voltar de uma reunião da ONU, por exemplo, uma reunião sobre sustentabilidade. À mesa, 2 mulheres e 20 homens. Por quê? Temos que mudar esse modelo.

out
14
2015
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