Mulheres negras são mais vulneráveis

Por Barbara Bretanha  |  Entrevistas, entrevistas feministas, Estudos  |  1 Comentário

Na segunda conversa das série Entrevistas Feministas, a filósofa Djamila Ribeiro fala sobre racismo e feminismo à repórter Barbara Bretanha

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“Em quase todas as discussões sobre racismo, aparece alguém para dizer que já sofreu racismo por ser branco ou que conhece um amigo que sim.

Pessoa, esse texto é para você.

Uma amiga, na infância, uma vez, não deixou que eu e meus irmãos entrássemos na sua festa, apesar de nos ter convidado, porque seu tio não gostava de negros. E nos servia na calçada da casa dela até que, indignados, fomos embora. Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?”

Esse foi um dos últimos artigos da Djamila Ribeiro no Escritório Feminista da Carta Capital.

Filósofa pela Universidade Federal de São Paulo, tem se dedicado a dois temas: racismo e feminismo. Um, luta contra a discriminação das pessoas por ser negras. Os negros, um dos maiores grupos populacionais do país, têm menos de 60% da renda dos brancos (IBGE/Pnad); jovens negros têm 2,5 vezes mais chance de morrer assassinados do que os brancos.

Mas aí vamos a outro dos grupos pelos quais Djamila empresta seu nome, voz e corpo, as mulheres. Só para ficar no campo do trabalho: a renda da mulher é menor do que a dos homens; entre as 1000 maiores empresas do país, não há mais do que 20 mulheres na presidência.

 

Com a amiga Clara Averbuck, Djamila Ribeiro homenageia a dupla feminista americana Gloria Steinem e Dorothy Hughes em foto de Maria Ribeiro

Com a amiga Clara Averbuck, Djamila Ribeiro homenageia a dupla feminista americana Gloria Steinem e Dorothy Hughes em foto de Maria Ribeiro

O feminismo tem sido um assunto cada vez mais quente no país, principalmente entre os mais jovens. Na sua experiência, como as mais jovens entram em contato com o feminismo?
Por meio de blogs e sites. A internet não é a única maneira de estabelecer o contato com o assunto, mas é a que atinge mais pessoas. Tem também a formação de grupos, onde vejo meninas que ainda não estão na universidade e outras que entram em contato com alguns textos feministas e passam a criar coletivos nas faculdades.

Então, você concorda que a internet tem sido a principal porta de entrada?
Existem muitas organizações e militâncias, mas hoje as redes sociais são, sem dúvida, o maior instrumento de disseminação do feminismo, principalmente para meninas mais novas. Mas não dá para ficar só no virtual. Depois do primeiro contato, acho importante criar espaços coletivos, grupos físicos.

Quais as principais pautas desses grupos?

A descriminalização do aborto e a violência doméstica. O aborto é uma bandeira antiga, mas no Brasil, em particular, temos muita dificuldade de chegar a um debate sério sobre o assunto. Vivemos num estado supostamente laico, mas o debate é sempre levado pela religião. Conseguimos alguns avanços, como a lei Maria da Penha, na questão da violência doméstica. Acho que, de certa maneira, nossas pautas são históricas, continuam as mesmas.

Que tipo de impacto que essas ideias têm na mídia, na sua opinião?

Acho que jovens militantes têm trabalhos mais contínuos que a mídia oficial. A mídia tem discursos muito superficiais. Ela é obrigada a acompanhar os assuntos que estão em pauta e por isso alguns programas de TV trataram destes temas. A publicidade, acho, continua a reforçar os papéis estereotipados de gêneros. É a propaganda de cerveja que objetifica a mulher, propaganda de fralda que só tem mulher. Como se toda mulher fosse histérica e o homem não trocasse fralda.

O que acha de celebridades como Beyoncé e Emma Watson se pronunciarem a favor do feminismo?
Acho importante. Ao falar dessas questões, as celebridades ajudam a desmistificar o tema. Acho importante a Beyoncé falar da Chimamanda Ngozi Adichie em um discurso de premiação. Tenho certeza que muitos que assistiam nem sabiam quem era a Chimamanda. O lado ruim é que elas não têm conhecimento do feminismo militante, são pessoas ligadas à indústria cultural que usam isso para se promover, não pelo feminismo em si e por isso, ficam muito na superficialidade. Mas não dá para medir quem é feminista ou não. Acho que as pessoas são feministas na medida que podem, na medida que cabe.

E, na sua opinião, quais os grandes desafios do feminismo hoje?

Acho que conseguimos avançar em algumas coisas mas ainda existem algumas dificuldades. Por exemplo, a diferença entre as questões das mulheres negras de brancas de classe média. É o conceito do que chamamos de interseccionalidade, existem muitas mulheres ocupando lugares diferentes. A maior parte das vítimas de aborto são mulheres negras. Uma mulher branca em geral tem condições de pagar uma clínica para fazer um aborto, uma negra, não. 71% das vítimas de violência doméstica são mulheres negras. Somos mais vulneráveis, somos excluídas de muitos espaços, como as universidades, a TV.

nov
16
2015

As pessoas estão buscando uma nova relação com as marcas

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  0 Comentários

A conversa com a publicitária Mariane Maciel foi tão boa que rendeu um depoimento e um ping pong sobre publicidade e busca de sentido no consumo

Você acha que o modelo de trabalho exaustivo, tão comum nas agências de publicidade e departamentos de marketing das grandes empresas de consumo, vai sobreviver? Ou as empresas serão obrigadas a rever sua relação com os colaboradores, assim como os colaboradores estão revendo sua relação com o trabalho?

Eu acredito que as empresas mais interessantes serão aquelas que reinventarem sua relação com o trabalho – mas é claro que isso não vai acontecer em todos os lugares, com todas as empresas. Mas as mais interessantes serão ou já são assim. Vejo que cada vez mais cedo amigos e conhecidos querem ‘largar o mundo de agências’ – e um amigo me contou recentemente que hoje, ao palestrar em universidades, conversa com os estudantes e percebe que o sonho de ir para uma grande agência está quase em extinção. Os meninos querem colocar suas idéias na rua, fazer projetos, trabalhar com parceiros. Como as grandes máquinas irão atrair jovens talentos? Ao meu ver, possibilitando que haja vida fora da agencia e criando espaço para projetos pessoais dentro do ambiente de trabalho.

A busca de propósito: tem a ver com um movimento de cansaço do excesso de consumo? Com uma geração, a Y, que tem sonhos diferentes dos pais? Com um questionamento das mulheres, especialmente, sobre o que vale a pena sacrificar em nome do trabalho? Ou não tem nada a ver com isso?

Acho que tem a ver com tudo isso e muitas outras coisas, como o despertar de uma nova espiritualidade, mas talvez só consigamos entender o período que vivemos ao olharmos pelo retrovisor daqui a 10 ou 20 anos. Há uns 5 anos, eu desenvolvia um projeto para uma marca de bebidas e falávamos sobre o ‘experimentar’ como muito mais relevante do que o ‘ter’. Nem faz tanto tempo assim, mas hoje, penso que eu vez de experimentar, a gente estaria falando em ativismo, construção coletiva, realização, projetos autorais.

Num dia desses, eu estava falando com um profissional de recrutamento que alertava para um problemão que as empresas temiam encontrar, a consciência de que não é preciso consumir tanto para ser feliz, o que afetaria brutalmente as vendas das empresas…

Eu concordo que chegamos a um momento em que parte da sociedade questiona a importância dos bens materiais e coloca na balança continuamente a pergunta “Será que eu preciso disso?” No meu caso e no caso de tantos freelas, fico me perguntando se vale a pena consumir algo que vai me obrigar a trabalhar mais X horas.

Porém, não acho que podemos pegar a nossa experiência, do nosso mundinho, e achar que é tudo igual. Vivemos em um país complexo e desigual em que temos grupos que vivem experiências muito diferentes de desejo e consumo em um mesmo espaço e tempo. E não podemos julgar essas experiências como melhores ou piores.

Não acredito que vamos voltar no tempo e viver sem a indústria, sem as marcas e sem a publicidade. Porém, a cultura do excesso, do desperdício, da hipocrisia, da construção de identidade via consumo – isso, sim, tende a diminuir. Como também o deslumbramento em relação aos oásis projetados pela publicidade das marcas. Agora, a meu ver, o jogo é outro: ao invés de se sentirem atraídas por marcas e seus campos simbólicos, as pessoas estão cada vez mais críticas e seletivas. “E você, a que veio? Pode fazer o que pela minha vida e por minha cidade? Me prova que é bem-intencionado, esforçado, responsável e cidadão para poder fazer parte da minha vida.” Um novo tipo de conversa está sendo estabelecida. Menos ingênua e mais interessante para quem souber se adaptar a esse mundo mais lúcido.

nov
11
2015

Minha vida é mais simples. E faz mais sentido

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  6 Comentários

Por Mariane Maciel

“Minha mãe teve câncer. Três anos. Oito meses antes dela morrer, parei de trabalhar para poder estar ao seu lado. Era 2008, estávamos juntas em Vitória, no Espírito Santo, onde nasci. ‘O que realmente importa na vida? Será que fiz o que queria fazer?’ Esse era o tipo de conversa que tínhamos.

Quase um ano depois da sua morte, meu namorado faleceu em um acidente aéreo. Na semana anterior havíamos reunido nossas famílias para um almoço e, sem planejar, ficamos noivos. Apesar da falta que minha mãe fazia, a vida era boa de novo. Até que ela mudou mais uma vez.

Tentei continuar a viver onde estava. Na época, era diretora de planejamento da agência CO.R em São Paulo, trabalho que adorava. Difícil encontrar sentido. Me pegava às vezes no meio da reunião olhando para o outro lado. Estava e não estava ali.

Mariane, a publicitária free lancer que doa metade de seu tempo a projetos sociais

Mariane, a publicitária free lancer que doa metade de seu tempo a projetos sociais

Decidi me mudar para perto do sol. Fui para o Rio de Janeiro porque tinha entendido que naquele momento era importante ter metas simples. Andar de bicicleta e parar para olhar o mar, por exemplo. Ter um trabalho que eu soubesse fazer. Conhecer pessoas que não me olhassem com pena. Sobreviver.

Estou no Rio até hoje. Trabalhando de manhã para projetos sociais, à tarde em consultoria para marcas. Ganho a vida com um, dou sentido à vida com o outro.

Meu sonho é deixar as duas coisas mais próximas, o trabalho pago e o doado. É fazer projetos transformadores em parceria com as empresas. Todo dia, peço ao universo que me mande coisas mais afinadas comigo e com este momento. E percebo que isso está começando a acontecer.

Tenho 38 anos. Meu último cargo corporativo, emprego, foi como diretora de planejamento da agência WMcCann no Rio de Janeiro e meu primeiro trabalho com carteira assinada foi na AlmapBBDO de São Paulo, onde cheguei a gerente do núcleo dos mais importantes clientes da agência.

Ganhava bem, tinha carro, clientes legais, projetos estimulantes, orçamentos incríveis.

Três anos depois, imagino ganhar metade do que ganhava. Não paro muito para pensar. Quase não compro roupas, cozinho bastante em casa, ando de bicicleta, ônibus e metrô. Não tenho décimo-terceiro e sinto falta do salário que cai certinho na conta todo mês. Mas não consigo me ver em outro lugar, pelo menos por enquanto.

Não gosto de glamurizar a vida fora das empresas. Depois que você sai do mundo do emprego fixo e passa a viver de maneira autônoma, acaba sendo procurada por muita gente que está cansada do esquema tradicional de trabalho. Eu estou sempre tomando café com alguém, mas evito passar a ideia de que fora das empresas a vida é maravilhosa.

Na verdade, acho que estamos exagerando na criação dessa narrativa do mundo mágico, do sonho de fazer só o que se ama. Nem sempre você vai conseguir viver apenas dos projetos legais e vai acabar, sim, fazendo um monte de coisas que não te agradam até se estabelecer nessa nova vida.

Minha pergunta para quem toma café comigo é: você consegue abrir mão disso ou daquilo? Do sobrenome da empresa? Das férias e do plano de saúde bacana? Eu, por exemplo, pretendo ter um filho e sei que seria muito mais cômodo fazer isso com a licença-maternidade de uma empresa. Mas o que vou fazer se sou feliz de outra maneira? Meu filho vai aprender a economizar com a mãe, rsrs.

Em 2012, quando eu ainda estava na WMcCann, conheci um chefe de cozinha, o David Hertz. Ficamos amigos em 5 minutos. Ele fundou a Gastromotiva, uma ONG que promove transformação social pela cozinha. Eu adorava gastronomia: dei aula de cozinha para amigos em casa, tive blog e coluna em revista, comia em restaurantes da zona sul e também em botecos nas favelas pacificadas. A Gastromotiva já era reconhecida e premiada no universo dos projetos sociais, mas sua visibilidade era ainda tímida fora desse círculo e sua atuação estava restrita a São Paulo. David e eu nos tornamos parceiros de trabalho e grandes amigos. Sua paixão pela gastronomia social trouxe mais propósito a minha vida e, em troca, eu contribui trazendo práticas de construção de marca para a organização (que tem uma equipe incrível).

Hoje já formamos quase 2 mil alunos em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador e temos uma taxa de empregabilidade de mais de 80%. Queremos fazer muito mais: abrir mais vagas, estar em mais cidades, impulsionar os alunos para que eles se tornem multiplicadores em suas comunidades (e levem uma alimentação saudável, principalmente para as crianças), inspirar o nascimento de outros projetos. Para isso, precisamos de mais parceiros que apostem nesse sonho com a gente.

Agora, as horas que dedico como voluntária à Gastromotiva estão sendo divididas com o ‘Vamos Falar sobre o Luto?’, projeto que idealizei e realizo com um grupo de amigas, Amanda Thomaz, Cynthia Almeida, Fernanda Ferraz, Gisela Adissi, Rita Almeida e Sandra Soares.

Nos primeiros meses, anos até depois que perdi minha mãe e o Leo, as pessoas eram muito legais comigo. Tão legais que não me deixavam esquecer que eu estava f*. Ainda assim, me senti sozinha… porque não conhecia muitas pessoas que haviam vivido perdas com as minhas e não encontrava informação sobre o que eu sentia.

A maior parte dos projetos e organizações sociais nasce de uma vivência pessoal e o nosso projeto não é diferente. Somos sete mulheres que passaram por perdas difíceis e queremos contribuir para que o luto seja menos solitário e rodeado de tabus.

O nosso projeto tem uma motivação clara: contribuir positivamente para o luto de amigos e desconhecidos. Ouvimos quase 200 histórias, conversamos com especialistas e convidamos algumas pessoas para participar de um minidocumentário. Por fim, descobrimos que falar é o primeiro passo para transformar uma experiência que infelizmente está sendo sufocada por nossa sociedade apressada e obcecada pela felicidade 24 horas/7 dias na semana. Levantamos recursos para criar uma plataforma digital que ajudasse a romper o tabu e abrisse espaço a acolhimento, informação e inspiração para quem vive o luto ou para quem deseja ajudar. Arrecadamos mais de 40 mil reais com a doação de quase 300 pessoas ao site Benfeitoria. Agora, estamos colocando o projeto de pé.”

 

 MARIANE MACIEL é publicitária free-lancer, voluntária nos projetos Gastromotiva, de empoderamento pela gastronomia, e Vamos Falar sobre o Luto?, para apoiar quem passou por uma perda. Fez Comunicação e Administração, marketing na Universidade de Harvard. Trabalhou na AlmapBBDO, CO.R, NBS e WMcCann

 

nov
11
2015
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