Ela cria cineastas no Xingu e preserva parte da história que estamos perdendo

Por Brenda Fucuta  |  Entrevistas, Estudos  |  0 Comentários

 

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O Parque Indígena do Xingu faz parte de uma fabulosa experiência antropológica em que passado, presente e futuro estão convivendo. Dezesseis povos diferentes habitam o território. Línguas distintas, costumes e comida diversas num pedaço de terra que fica no Mato Grosso, Amazônia Legal. Muitas das aldeias estão a dez horas da cidade mais próxima; outras, a uma, duas horas. De barco.

A cineasta e documentarista Mari Corrêa chegou ao Xingu em 1992. Estava com 29 anos de idade, morava num pequeno apartamento em Paris com o marido, francês, editava filmes e dava aulas no Ateliê Varan, de formação de documentaristas. Tinha, como futuro profissional, uma carreira que deveria passear entre o cinema e a publicidade.

Um simples convite para fazer um filme sobre a relação entre médicos e xamãs transferiu Mari para outra versão do seu próprio destino. Ela continuaria formando cineastas, mas seus alunos do Varan seriam, aos poucos, sendo substituídos por alunos do Xingu. Continuaria morando em Paris, no começo, mas passaria seis meses por ano no Brasil, naquele pedaço do Mato Grosso.

Seu primeiro filme, o documentário Xingu, O Corpo e Os Espíritos, demorou quatro anos para ser finalizado. Nesse período, Mari desenhou uma nova missão de vida: formar cineastas indígenas. Fazer isso com intensidade, com urgência até, para nos poupar de perder uma parte de nossa história. “Queria que eles usassem o audiovisual para contar suas próprias histórias, criar suas próprias narrativas e conservar viva a memória dos seus povos”, afirma ela.

Do primeiro ao último trabalho, o documentário Por onde Andam as Andorinhas, ela produziu, dirigiu e editou por volta de 30 filmes com alunos dos povos ikpeng, kisêdjê, huni kuin, ashaninka, manchineri, panará, maxakali, wamiri-atroari e xavante.

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Por quase 20 anos, Mari teve três endereços: São Paulo, Paris e as aldeias do Xingu, especialmente as do povo Ikpeng, para onde obrigatoriamente leva uma rede para dormir nas casas dos convidados. (As redes são consideradas itens tão pessoais quanto escova de dentes.)

Em São Paulo, onde mora atualmente com o filho Hélio, 21 anos, dirige a ong Instituto Catitu num pequeno e organizado escritório no bairro do Itaim Bibi. Lá, Mari trabalha com sua equipe de 3 assessoras e diversos colaboradores que contrata para as atividades de campo administra todos os projetos relacionados à formação audiovisual e à produção de documentários. O objetivo do instituto é empoderar os povos indígenas por meio das novas tecnologias e hoje ele atua também no Acre, onde desenvolveu, com a participação de crianças e jovens da Terra Indígena do Rio Humaitá, fronteira do Brasil com o Perú, o Manual das Crianças Huni Kui, um diário em livro e vídeo dos seus saberes e fazeres.

De 1999 a 2009, foi co-diretora da ONG Vídeo nas Aldeias. Ganhou prêmios, formou dezenas de cineastas indígenas até decidir criar o Catitu, que dá ênfase ao protagonismo feminino. Mari conta com o apoio institucional da embaixada norueguesa para tirar seu salário (“não é extraordinário, mas cobre meus custos de vida”), o pagamento dos funcionários e os projetos vitais para a ong. Como são muitos, busca o patrocínio das empresas e da cooperação internacional envolvendo as cansativas viagens da equipe aos territórios indígenas.

“As viagens são extremamente caras. O deslocamento envolve avião, barcos, ônibus”, conta ela, que chegou a fazer trajetos de mais de 7 dias carregando dezenas de quilos de equipamento de vídeo, além de filho, pequeno, e a bagagem pessoal.

O filho passou muitas de suas férias no Xingu e freqüentou escolas no Brasil e na França. “Foi uma loucura, não sei como demos conta”, lembra Mari. “Mas acho que sobrevivemos bem”. A principal razão de ter tido apenas um filho talvez tenha sido dificuldade em conciliar a educação de uma criança com tantas viagens. Foi um sacrifício pensar em abrir mão de uma família maior? “Não”, diz ela. “Eu fui arrebatada pelo Xingu na primeira vez que estive lá. Então, se você me pergunta o que perdi por ter esse modelo de vida, posso garantir que não perdi nada. Tive de fazer escolhas, mas não foram sacrifícios”, diz ela.

 

Mari Corrêa: aulas de audiovisual para os povos indígenas

Catitu e as mulheres

Demorou uma década para Mari começar a envolver as mulheres nas suas oficinas. Desde o começo, elas eram convidadas a participar, mas quase nenhuma aparecia.

“A comunicação entre as aldeias é difícil, o trajeto, longo, com muitas horas de barco sob o sol forte e outras tantas de carro em estradas esburacadas. Era preciso muita motivação para enfrentar a reticência de alguns maridos e os obstáculos do percurso, especialmente na hora de trazer os filhos”, conta Mari. “Além disso, as mulheres costumam ter menos contato com o mundo de fora, por isso falam pouco português e sentem falta de repertório para participar das conversas.” Natuyu, uma moça do povo Ikpeng, foi exceção. Aos 13 anos, em vez de casar, Natuyu foi incentivada pelos pais a fazer a oficina audiovisual. Os Ikpeng são grandes parceiros do instituto e de Mari. Suas aldeias abrigam o projeto Mawo, um dos trabalhos mais inovadores que o Catitu desenvolve na região: um centro de documentação digital, uma base de dados em que os Ikpeng documentam e registram a cultura e que pode ser consultada por toda a população.

Em 2009, junto com a cineasta Tata Amaral, Mari finalmente reuniu uma oficina só para as mulheres, 20 delas, de 15 a 70 anos. O exercício resultou no trabalho coletivo A Cutia e o Macaco, curta sobre uma lenda kawaieté. Natuyu foi a professora do grupo.

Quando a equipe do Catitu percebeu que as dificuldades para a participação das mulheres nas oficinas iam além da falta de tempo ou desenvoltura com o português, a ideia foi apoiar a organização das mulheres promovendo rodas de conversa entre as aldeias.

“A pedido delas, começamos a dar apoio ao movimento feminino. Daí, passamos a trabalhar não mais com 20 mas com 300 mulheres. Um salão alugado abrigou o encontro que finalmente reuniu mais de trezentas pessoas, a maioria mulheres. Ali conversaram como defender suas idéias, participar mais, aprender mais, se reunir mais, conversar mais. “Criamos então, em parceria com a Associação Yamurikumã, o projeto Rodas de Conversa das Mulheres Xinguanas para aproximar as mulheres, fortalecer as lideranças femininas e criar pautas.” Desde 2014, 550 mulheres de 14 aldeias já participaram dessas rodas.

Uma das questões que mais vem aparecendo nos debates é bem familiar às outras brasileiras. Trata-se do uso abusivo das imagens dos corpos femininos. “Elas estão bem indignadas com o jeito que os rapazes estão divulgando e compartilhando imagens de seus corpos durante os rituais tradicionais”, afirma a cineasta. Nesses rituais, embora paramentadas com acessórios, as mulheres costumam se apresentar com seios, nádegas e quadris expostos. Os rapazes aproveitam para gravá-las nos seus celulares. Dessa “brincadeira” saem montagens abusivas e compartilhamentos machistas.

“Nas oficinas, falamos bastante do uso ético das imagens, mas com a banalização da tecnologia, qualquer jovem vai e grava pedaços dos corpos das moças, fazem montagens e passam as imagens para os outros ou postam na internet.”

Uma nova geração de mulheres está surgindo no Xingu também. “Elas querem ter acesso ao que era oferecido para os homens: formações, viagens, intercâmbios, trabalhos, profissões. As mulheres indígenas, ao apropriar-se de novas tecnologias, poderiam fazer releituras do mundo em que vivem, do seu lugar na própria cultura, reafirmando-se como mulheres, como indígenas e também como jovens conectadas ao mundo contemporâneo.”


E as andorinhas?

Em 2015, Mari esteve com dois representantes das aldeias xinguanas, Yapatsiama e Tukupé Waurá, num dos painéis da sociedade civil da Cop 21, em Paris, a última grande conferência a discutir como o planeta sobreviverá. Foram apresentar um recente trabalho que o Catitu produziu em parceria com o Instituto Socioambiental, o ISA.

Para onde foram as andorinhas?, o documentário, registra o impacto climático pelos olhos dos moradores mais antigos do Xingu. “Em vez de catástrofes, falamos das pequenas e profundas mudanças que estão acontecendo com a vida dos moradores em função da mudança do clima.”

Em 22 minutos, os entrevistados de Mari mostram como as andorinhas estão deixando de anunciar as chuvas, como as pragas estão afetando os pés de pequis, como o calor que, de tão forte, cozinha os ovos das cigarras. Como a lagoa está vazia quando devia estar seca e como o rio está mais raso quando deveria estar abundante. “Não tem falta de água, mas tem a mudança do comportamento dela”, explica Mari. Os povos indígenas, que marcam suas estações com conceitos diferentes dos “ocidentais” (tempo de chuva, tempo de seca, tempo das cigarras, tempo do peixe gordo, tempo do ritual de furação de orelha…) estão preocupados. Nas roças, contam eles, muito se estraga antes de amadurecer. “Eles se perguntam se estamos comprometendo as futuras gerações com uma crise alimentar.” O próximo projeto da cineasta é documentar as mudanças climáticas no dia a dia do Xingu por um novo ângulo:  o ângulo dos responsáveis pelos quintais e pela comida. As mulheres.

Mais do trabalho de Mari Corrêa e do Instituto Catitu:

Site do Instituto Catitu:

http://institutocatitu.org.br/

 

https://vimeo.com/channels/hunikuin
Trecho do filme Para Onde Foram as Andorinhas?

 

mar
08
2016

“O novo feminismo é mais alegre”

Por Barbara Bretanha  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalO Brasil está vivendo “o terceiro momento do feminismo”, de acordo com a historiadora Luzia Margareth Rago, de 66 anos. Ela diz que temos aí uma nova geração, que sai às ruas sem medo de usar todos os recursos disponíveis (alguns muito lúdicos) para mostrar a que vieram. De lingerie à mostra, batom e salto alto, as jovens integrantes da Marcha das Vadias são um bom exemplo das novas feministas.

O movimento, criado no Canadá em abril de 2011, para protestar a ideia de que as vítimas de estupro teriam provocado a violência pela forma vestir e agir, chegou ao Brasil em um piscar de olhos – em junho do mesmo ano. Há um século a luta era outra tanto na forma como no argumento: as mulheres saiam às ruas de Nova York e Londres, com roupas fechadas até o pescoço, muitas vezes com os filhos pequenos no colo, para brigar pelo simples direito de votar. As “sufraggettes”, como eram chamadas mundo afora, lutavam pela inserção política, econômica e social da mulher, que só era permitida aos pais, maridos e irmãos.

Luzia faz questão de ressaltar o papel fundamental que as feministas do passado tiveram para que hoje movimentos, como a Marcha das Vadias, sejam possíveis. “O problema da minha geração era perder a virgindade. Hoje uma moça de 20 anos já mora sozinha sem estranhamento”, diz a historiadora. Na entrevista abaixo, ela reponde a 15 perguntas e afirma que as feministas atualmente falam de temas que antes eram varridos para baixo do tapete. Ressalta que isso é fruto de conquistas, que precisam estar presentes na memória das pessoas para que o feminismo continue sendo um movimento forte e representativo.

Como o feminismo se articula hoje?

O feminismo renasce na segunda metade década de 70, no Brasil. Se contarmos a partir desse período, diria que estamos em um terceiro momento. Analisando a história, temos muitos pontos positivos e alguns difíceis. Um patamar foi conquistado de crítica da misoginia, de denúncia da violência e de discussão sobre o aborto – que, na minha época, nem sequer se falava. O aborto não está descriminalizado ainda, mas existe uma luta. O tema – assim como o da violência doméstica – foi incluída na agenda pública, está nos debates e na mídia. O problema da minha geração era perder a virgindade, hoje uma moça de 20 anos já mora sozinha sem estranhamento. Isso é uma conquista enorme realizada em uma época em que não se tocava no assunto e os problemas eram varridos para debaixo do tapete.

Mudou a imagem do feminismo?
Conforme esses assuntos são discutidos mais abertamente, a imagem do feminismo foi mudando. É muito positivo que jovens se engajem, reivindiquem seus direitos. Mesmo assim existe um estigma: muitas mulheres acham que feminismo é besteira ou coisa de burguesa. Existe ainda uma imagem muita negativa da feminista. E também das feministas negras e indígenas.

Qual o perfil das novas feministas?

São jovens com coragem e vontade de lutar. Acho que elas deram uma dimensão mais lúdica aos protestos. Agora existe espaço para intervenções mais humoradas. Dá para fazer manifestação com teatro, performance, fotografia, banda. É mais alegre.

 No passado elas eram muito diferente?

O feminismo na época da ditadura não permitia tocar flauta – seria massacre generalizado. A Marcha das Vadias, por exemplo, eu acho o máximo. Vadia é quase como chamar de puta. É uma carga pesadíssima. Daí você tem centenas de jovens dizendo “então todas somos”. Esse movimento de reapropriação é bárbaro. É um momento para as jovens. Essas pessoas de 20 e poucos anos nasceram em outro patamar. Podem andar em uma calçada pavimentada pelas feministas anteriores, onde antes havia mato puro. Já tendo cinquenta anos, essa estrada permite que as jovens tirem a roupa na boa – o que é bom.

A senhora acha que as jovens de hoje não sabem disso?

Em um país como o Brasil, onde a memória histórica é muito curta, as pessoas não se dão conta que aquela calçada custou muito suor, sangue e movimento. Acho que falta um pouco – não só no feminismo, mas no anarquismo e em outros movimentos – de perspectiva histórica, de perceber que existe um processo. Há miopia.

O que essa miopia acarreta?

As pessoas que não tem consciência, que não se vinculam historicamente, ficam muito vulneráveis. Uma das estratégias do fascismo e do nazismo era justamente cortar vínculos com a tradição. Sem consciência, o sujeito fica à mercê do Estado. História é fundamental para construção da cidadania e continuidade dos valores.

As feministas mais jovens ignoram a história?
Na minha opinião, o feminismo agora está vivendo um momento de muita fragmentação política. Ele ainda é o único movimento que ainda tem unidade garantida, ou seja, em que pessoas conseguem fazer uma manifestação grande. Os novíssimos movimentos, como o Passe Livre, também conseguem fazer, mas a esquerda brasileira se pulverizou. O feminismo ainda tem certa coesão, que está ameaçada. As diferenças geracionais estão pesando. Existem questões em que precisamos pensar.

Que questões são essas?
Não quero falar sobre vitimização das mulheres. Quero falar das maneiras que elas transformaram o mundo. Acho que essas coisas estão acontecendo, mas falta teoria e linguagem. Os gregos tem a noção de parresía – coragem para se dizer a verdade, mesmo podendo ser condenado por isso. As mulheres tem muita coragem da verdade. Qualquer mulher no passado, para fazer qualquer coisa, tinha de brigar. Sem a palavra, a gente perde o fenômeno. Falta linguagem para essas práticas feministas que nos empoderam e que são éticas. Falta link com outras tradições. Isso é política da subjetividade. Uma coisa é emancipar as pessoas com base na ligação com o Estado, que se tornam portadoras de direitos. Isso não garante a formação de pessoas éticas. Precisamos de subjetividades éticas.

Qual é a ideia que se tem de uma feminista hoje?

É uma pessoa que não seja violenta, com valores éticos, solidária, e preocupada com o bem do mundo. O feminismo traz consigo não apenas luta do empoderamento, mas pela transformação das relações para liberar as mulheres do jugo da identidade que as confinava ao lar. Nós já nos autonomizamos. Temos uma presidenta, temos ministras. Esse patamar foi conquistado. O lado perverso é que o capitalismo neoliberal se apropriou disso e está dizendo: vocês são autônomas, sejam empresárias de si mesmas. Não fala de obedecer, fala de produzir mais, de dar mais lucro. É a teoria do capital humano formulada pela escola de Chicago na década de 50 e estamos vendo aí. Para o capital é interessante que não exista violência doméstica, porque aí as mulheres são mais produtivas. Em princípio é bom que as mulheres não apanhem. Mas a lógica de cooptação pelo capitalismo é terrível.

 Então feminismo e capital não andam juntos?
Para mim, o feminismo é anticapitalista. Nasceu na luta contra ditadura. Sempre foi um movimento de esquerda. Agora está em um momento em que pode ser cooptado pela direita caso venha a perder o vínculo histórico. Sem os valores e referências, perde o rumo. Se isso acontecer, a culpa não é da falta de infraestrutura ou de oportunidade, nem de sobrecarga de trabalho. A culpa será dessa mulher feminista, que tem autonomia. Não adianta uma feminista combativa, mas muito autoritária. Coronéis nunca mais. Formar jovens com esse perfil só vai prejudicar o movimento. Ninguém mais fala em feminismo, a gente fala em feminismos. Meu medo é que a gente chegue ao ponto em que diga que tem feminismo neoliberal.

Falando em perspectiva, como foi a história do feminismo?

Existem diferentes narrativas históricas. Por exemplo, de acordo com o grupo Mujeres Creando, da Bolívia, muito antes do feminismo europeu, as indígenas eram feministas. Existem diferentes narrativas histórias sobre o movimento.

O feminismo não tem uma história oficial?

Vou te contar a história “oficial”, mas é importante destacar que existem muitos outros discursos e críticas. O
feminismo nasceu no fim do século 18, época da revolução francesa e industrial, com figuras como as escritoras Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges. Elas diziam que os direitos universais foram criados para os homens, não para as mulheres, que não eram de fato universais. Surgiram nesse momento outros movimentos críticos do capitalismo urbano industrial. O feminismo se iniciou, também, com vertentes anarquistas e socialistas.

Como surgiu no Brasil?

No Brasil, no começo do século 19, Nívia Floresta é considerada nossa pioneira, pois traduziu a inglesa Wollstonecraft. Mas é no fim do século 19 que surgiu a primeira onda do movimento, com o engajamento de revistas, jornalistas e escritoras. Questionavam a organização de trabalho, o casamento – como a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida, que integrou o grupo que planejou a criação da Academia Brasileira de Letras. Depois, com a conquista do direito de voto, ele reflui. A segunda onda veio em 70 com as mulheres que saem da prisão, do PCdoB, do partido comunista.

 Mas o grande boom do feminismo não foi na década de 80?

Sim. Nessa época surgiram muitas organizações, como o Conselho Estadual da Condição Feminina (1982, em São Paulo) e o Galedés -Instituto da Mulher Negra (1988, em São Paulo), entre outras ONGs e núcleo de estudos.

Quando é introduzida a questão do gênero?

Na década de 90 entra a questão de gênero. Tem uma mudança na questão de pensar, que se pluraliza para discutir sobre as relações das mulheres com cada setor. Não tem como acabar a violência doméstica sem mudar a cabeça dos homens, por exemplo. Surgem, nos Estados Unidos, em meados de 90, as Riot Grrrls (ou Riot Girl) que falam de empoderamento para as meninas. O Riot e o Femen – fundado na Ucrânia, em 2008 – são a terceira onda.

 A mídia também avançou?

Hoje se tem mais abertura para falar de temas que antes não eram discutidos, mas existem muitos preconceitos ainda. Observamos isso no vocabulário empregado, o destaque que se dá para a notícia, onde o artigo aparece. Hoje vai a ministra fazer uma declaração e existe respeito. Mas, sem dúvida, o mundo é dos homens. Homem não precisa fazer esforço, pode ser gordo e careca. Mulher tem que vir perfeita, bonita, bem arrumada e inteligente. O mundo ainda é misógino. Mas também é filógino. Hoje se um homem te agarra, você vai à delegacia. Antes você ia para casa chorar. Isso é uma conquista. Se você não nomeia as coisas boas, elas se perdem. Não dá para pensar só no ruim. Precisamos lembrar de potencializar o positivo.

mar
03
2016

“O feminismo me ajudou a me entender”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalNegra e nordestina, Jarid Arraes, 24 anos, começou a despertar para o feminismo quando foi para a Índia, há seis anos, fazer um trabalho voluntário em uma escola para meninas. Ao voltar para a cidade natal, Juazeiro do Norte, no Ceará, fundou o grupo de discussões Feministas do Cariri. Depois entrou para outro, o Pretas Simoa, mulheres negras também do Cariri.

“Foi o feminismo que me ajudou a entender. Entender a minha relação conturbada com meu cabelo, o fato de eu, às vezes, ter sentido vontade de fazer plástica para afinar o nariz e sempre clarear as fotos no Photoshop quando postava na internet. Eu não aceitava o que eu era”, disse Jarid, colunista da revista Fórum e autora do livro de cordel As Lendas de Dandara, uma heroína negra do Quilombo dos Palmares. Filha de mãe branca divorciada, ela cresceu se auto definindo como miscigenada, mas nunca como negra.

Hoje, ela mora em São Paulo, onde pouco a pouco solidifica-se como escritora. Sua missão é levar para o mundo histórias de mulheres, que em geral não são contadas. “São negras, nordestinas, lésbicas, trans…” Abaixo as 10 perguntas que fizemos para Jarid.

 O que é ser uma mulher negra no Brasil?

É até curioso falar disso porque, até há poucos anos, eu nem sabia que eu era negra, minha mãe é loira e meu pai, negro. Por ser miscigenada e conviver mais com minha mãe, acabava não tendo muita consciência da minha identidade racial. Isso foi algo que eu construí dentro da minha militância feminista. Tive contato com outras mulheres, que já militavam no movimento negro e elas me ajudaram a reconhecer que eu era negra porque até então eu dizia que eu era só miscigenada.

Qual foi a importância dessa tomada de consciência?

Foi um chamado que me fez acordar. Entendi a minha relação conturbada com meu cabelo, o fato de eu, às vezes, ter sentido vontade de fazer plástica para afinar o nariz e sempre clarear as fotos no Photoshop quando postava na internet. Eu não aceitava o que eu era. Uma militante disse que o Brasil teve uma política oficial de miscigenação porque a intenção do Estado era branquear a população. Senti o peso dessas palavras. Estava fazendo o mesmo jogo ao falar que não era negra. Comecei a entender tudo o que eu tinha passado na minha infância, todos os episódios de racismo que eu sofri. Antes de entender que eu era negra, estava a mercê de como os outros me enxergavam: eu era a pessoa do cabelo “ruim”, sem traços delicados. Muitas vezes, em casa, fui confundida com empregada ou babá porque minha família é branca.

Isso mudou seu olhar em geral?

Sim, mudou. Comecei a perceber que existe toda uma hipersexualização das mulheres negras. E que se acredita que elas não servem para relacionamentos sérios. Mais ainda: que existe uma lógica que defende que a mulher negra é mais forte do que a mulher branca. Muitas vezes, na fila do SUS somos preteridas até quando chegamos antes e isso gera vários abusos e negligências médicas. No mercado de trabalho, a exploração se revela em condições de subemprego, sem carteira assinada e com salários menores. Se você pegar todas as estatísticas sociais hoje no Brasil, as mulheres negras têm as piores colocações. Quando a mulher negra aparece na mídia, é de uma forma pejorativa, o que contribui para que esse quadro continue igual. Precisamos de uma boa representação de pessoas não brancas na TV. Isso que aconteceu com a Maju (Maria Júlio Coutinho, repórter de metereologia, foi vítima de comentários racistas na internet, em 2015), no Jornal Nacional, é só um sintoma do que a própria Globo construiu.

Você acha que isso acontece pela falta de oportunidade à educação?

Não é qualquer educação que vai fazer que se eduque contra o racismo. Minha mãe pagou colégio particular para mim e em todo esse tempo, na escola e na universidade, inclusive, eu nunca ouvi falar de história e cultura africana, nem sequer dos movimentos negros ou quilombos aqui no Brasil. Como a gente vai combater o racismo se a educação formal das escolas é racista? Aprendemos tudo sobre a Europa e Estados Unidos e nada sobre África. Uma educação que se debruçasse sobre isso já seria um começo.

Você acha que o feminismo atual avançou?

Uma característica muito positiva do feminismo atual é o conceito de interseccionalidade. Refiro-me a conseguir olhar para várias questões sociais como racismo e reforma agrária, mas ao mesmo tempo dialogar com as questões de gênero. Hoje temos as reivindicações das mulheres lésbicas, trans, travestis e das trabalhadoras sexuais. Nenhuma mulher pode ser deixada de lado. Isso tudo lá nos anos 60 seria impensável. No passado, o feminismo era predominantemente de mulheres brancas (heterossexuais). Mas ainda acho que as pautas ficam muito centradas nos direitos de escolha da mulher branca e isso precisa ser mais abrangente.

 Foi a militância que levou você a querer escrever?

Sempre quis escrever, mas isso aconteceu por causa da militância. O primeiro blog que abri sobre feminismo foi em 2011, A mulher dialética. Então conheci o editor na Fórum (revista inspirada no Fórum Social Mundial, lançada em 2001), o Renato Rovai, que me convidou para fazer uma coluna batizada de Questão de Gênero. Nas matérias semanais, procuro sempre dar espaço a diversas mulheres (negras heterossexuais, trans, lésbicas…) para que elas tenham espaço de se expressarem. Depois de dois asnos assinando a coluna, comecei a escrever cordel.

Por que você escolheu a literatura de cordel?

Meu pai e meu avô são cordelistas. Cresci ouvindo e lendo cordel, mas achava que não tinha talento. Meu pai me estimulou. Eu acho importante a literatura de cordel pela forma como representa mulheres, negros, gays… Quis manter a tradição viva e trazer um elemento novo. Em 2012, comecei e deu muito certo. As pessoas se interessaram muito, principalmente no meio da militância muita gente não conhecia essa literatura. Quanto mais eu escrevia, mais tinha um retorno positivo. No ano passado (2015), lancei meu primeiro livro, As lendas de Dandara. São dez contos que se interligam.

Sobre o que é o livro?

É ficcional, mas inspirado em pesquisas sobre o quilombo de Palmares e a História do Brasil durante a escravidão. Para escrever sobre a protagonista (Dandara foi uma guerreira negra do período do Brasil Colônia, esposa de Zumbi) levantei artigos científicos, em textos de militantes. Trata-se de um material muito escasso e controverso. Tem pesquisadores que afirmam que ela não existiu. Antes de começar a escrever fiz um teste com os leitores da revista. Publiquei “E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi?”, no dia da Consciência Negra. Recebi vários comentários falando que ela era só uma lenda. Então pensei: se ela é só uma lenda, vou escrever as lendas dela porque nem isso a gente tem. Minha ideia é provocar mesmo. Ela precisa ser conhecida, seja real ou lenda, para servir de inspiração feminina.

Você ganha a vida como escritora. Você acha que isso é mais difícil para uma mulher?

Para a mulher é mais complicado do que para um homem, imagina então para uma mulher lésbica, negra ou pobre. Nessa equação toda, ainda tem o fato de eu ser nordestina, o que é um empecilho também porque a literatura de cordel não é encontrada em livraria, não está em eventos literários como a Flip. Não é valorizada e o fato de ser uma expressão nordestina tem tudo a ver com isso. O Nordeste é a periferia do Brasil. Para eu conseguir publicar esse livro foi muito difícil. A mulher que escreve nunca é avaliada só pelo que ela escreve, mas pela aparência, pela vida pessoal… É um inferno. Isso é muito difícil pra todas.

Quais as feministas que lhe inspiram ?

A Aline Valek, que ilustra meu livro. A Djamila Ribeiro, pesquisadora referência no feminismo negro. Gosto muito das meninas do site Lugar de Mulher, que falam de feminismo de uma forma muito acessível e também das meninas da revista, adolescente e feminista, Captolina – se eu tivesse uma revista dessa quando era adolescente, teria adiantado meu processo de virar feminista. Tem ainda as meninas do Galadés, Sueli Carneiro e Jurema Werneck, e a escritora Ana Maria Gonçalves. Fora do Brasil: a escritora nigeriana Chimamanda Adichie e a americana Bell Hooks.

 

mar
02
2016
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