Sua filha adolescente apareceu numa lista top 10? Não comemore

Por Brenda Fucuta  |  Curiosidades, Entrevistas, Família, Noticias  |  0 Comentários
Natália. Jade e Gabi: as 'capitolinas' falam sobre adolescentes e feminismo

Natália. Jade e Gabi: as ‘capitolinas’ falam sobre adolescentes e feminismo

Eu torço para que ela não esteja. As top 10 que, atualmente, circulam em redes sociais entre adolescentes são listas de títulos como “as top 10 mais feias”, “as top 10 mais rodadas”, “as top 10 mais fedidas”. Com fotos, vídeos ou nomes das garotas, as listas costumam circular principalmente no Whats App. Às vezes, vão parar em mídias analógicas. Em maio de 2015, nomes de meninas apareceram estampados num muro de um bairro de São Paulo, Grajaú. Um grupo feminista organizou um grafitaço para apagá-los.

A violência digital é pauta da revista Capitolina, um site feminista para adolescentes que reúne mais de 100 colaboradoras e tem 20 mil likes no Face. Uma das mais vibrantes manifestações do feminismo da quarta onda (ou pós-feminismo ou feminismo Y) no Brasil, a revista tem como missão ampliar o repertório das adolescentes para além do universo das revistas tradicionais. “Podemos apresentar conceitos mais complexos, não queremos só falar de gatinhos”, me explica uma das colaboradoras, a estudante de Relações Internacionais Gabriella Beira, 21 anos.

De fato. O site das garotas fala de um monte de coisas que você provavelmente ainda não ouviu. Relacionamentos abusivos (em geral, com homens mais velhos), revenge porn (vingança virtual contra ex-namoradas), poliamor (relacionamentos não monogâmicos que têm o consentimento de todos os envolvidos e que, hoje, estão sendo praticados por casais e jovens da geração Y). Três colaboradoras da Capitolina, Jade Cavalhieri, 18 anos, Gabi Beira e Natália Lobo, 19 anos, falaram comigo e com a jornalista Juliana Kyomura sobre tudo isso. E sobre o apoio que tentam dar às vitimas das Top 10.

Capitolina foi criada para ser uma alternativa às revistas tradicionais para adolescentes. Por quê?

Gabi: Sim, ela foi criada pela Clara Browne, a Sofia Soter e a Lorena Piñero depois que a Capricho publicou um teste para a menina saber se era garota para ficar ou namorar. A Capitolina nasceu da vontade de falar de coisas que a Capricho, a Atrevida e a Toda teen não falam.

Quais temas?

Natalia: Temos uma pauta bem equilibrada. Arte tem o mesmo peso de beleza, de tecnologia, videogame.

Gabi: Claro que a gente fala de maquiagem e beleza, mas com uma abordagem diferente. Queremos desconstruir o mainstream. Na editoria de relacionamento, por exemplo, a gente tenta mostrar para a garota que tem outras possibilidades além da heterossexualidade, da monogamia, dos padrões estabelecidos. Queremos falar de pornografia para adolescentes, por exemplo. Eu escrevi recentemente sobre isso porque ninguém conversa sobre o assunto. Mas é na pornografia que o adolescente tem mais contato com o sexo, que descobre o que é sexo, onde molda as preferências sexuais.

Jade: Na área de relacionamento, também falamos de revenge porn porque as garotas adolescentes são os principais alvos deste tipo de vingança (publicação de fotos e vídeos íntimos de uma garota pelo ex-namorado). Os mesmos meninos que pedem as fotos das garotas são aqueles que publicam e chamam as meninas de vadias…

Como vocês costumam ajudar?

Jade: Primeiro, denunciamos. Com isso, a gente quer que o vídeo seja apagado.

Gabi: Dando apoio também. As vítimas de revenge porn são muito hostilizadas. Perdem o emprego, saem da escola, são criticadas no bairro… Os pais também não dão apoio. Elas ficam muito sozinhas e por isso o suicídio é um desfecho muito comum nesses casos. Nosso papel é dizer: não precisa ter vergonha, você teve um agressor, você foi vítima de uma violência.

Jade: Você mandou a foto e o cara rompeu um acordo…

Vocês estavam falando também das listas “depreciativas”, as Top 10…

Jade: A Top 10 é uma seleção de fotos ou vídeos ou de nomes de meninas exposta nas redes sociais. Eles separam “as mais bonitas”, “as mais feias”, “as loirinhas”. “As vadias”, pra mim a mais cruel, em que eles dão nome, idade, põem fotos ou vídeos, falam o que as meninas fizeram ou não fizeram… Tipo “menina de 14, fulana de tal, deu atrás do Carrefour”. “Menina é suja e não se lava…” Isso apareceu num Top 10 bem recente.

Como vocês ficam sabendo das listas?

Natalia: Em geral, alguma menina feminista sabe e conta para gente. Ou quando viraliza mesmo e todo mundo comenta.

Gabi: Aí, a gente denuncia. E teve o caso de uma amiga que fingiu ser promotora de Justiça e falou pro menino que ele corria o risco de ser preso. Ele tirou o material da internet rapidinho (rsrs).

Que temas repercutem mais?

Gabi: eu falei de poliamor e apanhei um pouco (rsrs). Mas é importante acreditar que adolescentes têm noção, que podem entender conceitos mais complexos. Ela vai conseguir entender, não precisa ser subestimada. Outro tema que repercutiu muito foi o relacionamento abusivo que acontece, por exemplo, quando uma menina de 17 namora um cara de 27…

Você são feministas?

Todas: Sim.

Jade: Desde criança, o homem é incentivado a explorar o mundo; a mulher, a ficar dentro de casa. Pra mim, feminismo é outra forma de entender o mundo. Porque somos diferenciados quando somos crianças? Quero entender isso e buscar formas de me afastar disso, construir outro mundo possível.

Natália: O feminismo me ajudou a entender que eu podia fazer várias coisas que eu não conseguia, por timidez, por exemplo. Na aula, eu nunca falava porque imaginava que um menino sempre ia dizer algo mais importante.

Gabi: O cara fala exatamente o que você falou antes e todo mundo diz: Nooosssa! Feminismo é querer para os outros a mudança que quero para mim. A segurança de andar na rua sem ser agredida, de usar o transporte público com tranquilidade, de não ter medo de ter opinião, ser levada em consideração. O feminismo é um projeto de sociedade mais justa, eu acho.

Por que não tem homem que colabora com a Capitolina?

Gabi: Na Capitolina, só tem mulher porque a opinião masculina já é muito valorizada e respeitada em qualquer espaço. Sempre tem um homem preparado para dizer que você não está preparada para falar daquele assunto. Mesmo nos comentários das matérias da Capitolina, isso acontece direto, os homens questionam as decisões que tomamos.

Vocês sabiam que eu fui diretora de redação da Capricho?

[Risos.]

Não concordo com a visão de vocês sobre a Capricho. Acredito que a pauta da revista foi bem mais ampla e inclusiva, mas acho bem legal oferecer alternativas de mídia às garotas. O que vocês pretendem agora?

Natália: Queremos virar uma revista impressa e difundir mais o feminismo, principalmente para as garotas que não sabem o que é isso. Hoje, a gente está muito concentrada em meninas de classe média que já têm uma noção do assunto.

Gabi: As editoras da Capitolina estão lançando o projeto do redesenho da revista no site Catarse (de crowdfunding). Acho importante isso que a Natália falou de conseguirmos alcançar mais gente. Nós temos um caráter bem plural na colaboração. Somos revisoras, escritoras, fotógrafas, ilustradoras, audiovisuais…

Natália: Temos colaboradoras do movimento Marcha Mundial das Mulheres, temos gente do PSOL, temos trans, negras… Temos questões de ecologia, estética da mulher negra, ciência. A gente também busca trazer meninas que não estavam representadas na mídia. As negras e gordas, por exemplo.

jul
24
2015
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