Retrato da brasileira: 14% das mulheres ainda são domésticas e mais da metade dos partos não é natural

Por Brenda Fucuta  |  Entrevistas, Estudos, Noticias  |  0 Comentários

Em 1999, a deputada federal Luiza Erundina apresentou um projeto de lei ao parlamento pedindo a criação de um relatório sobre a situação socioeconômica das mulheres brasileiras. Transformado em lei no ano seguinte, o projeto da deputada virou um documento chamado RASEAM (Relatório Anual Socioeconômico da Mulher), cuja primeira edição foi lançada no ano passado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. Em 2015, a segunda edição veio mais curtinha. Mas, como a anterior, de estreia, reúne vários dados levantados em estudos públicos, como a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios), do IBGE. Exagerando, é um censo anual, versão pocket, com recorte de gênero. Linda Goulart, secretária executiva da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, teve a paciência de me explicar (várias vezes) alguns dos dados que, até hoje, me espantam sobre a desigualdade de gênero no país. Linda, uma jornalista que já trabalhou no Ministério da Educação e na Fundação Dom Cabral, deu a seguinte entrevista ao Mulheres Incríveis.

Segundo o relatório, a mulher recebe R$ 10 reais por hora trabalhada x R$ 12 reais para a hora do homem, em média, no Brasil. Como é feito esse cálculo? A conta inclui as horas trabalhadas em casa?

Sim, as mulheres recebem, em média, R$ 2 a menos que os homens por hora trabalhada. Conforme ela e ele estudam mais, a diferença aumenta. Com 12 anos ou mais de estudo, por exemplo, a diferença pela hora trabalhada chega a 34% a favor dos homens. O cálculo do rendimento-hora refere-se à média do rendimento do trabalho principal dividido pela média do número de horas trabalhadas. Não se consideram, nesse caso, outros rendimentos, como pensão ou aposentadoria. Também não se considera o trabalho não remunerado, o de casa.

Apesar de vermos homens da geração Y, nascidos nos anos 80, bastante comprometidos com o papel de pai, apenas 32% dos homens com mais de 16 anos realizam tarefas domésticas. Na sua visão, como isso impacta a mulher no mercado de trabalho?

Em afazeres domésticos, as mulheres gastam mais que o dobro de horas semanais do que os homens. São 20,8 horas das mulheres contra 10 horas dos homens na semana. Dentre as mulheres que estão ocupadas no mercado de trabalho, 58% também realizam afazeres domésticos, como cuidados dos filhos ou de idosos. Acredito que a divisão sexual do trabalho, que impõe às mulheres uma dupla jornada, impacta, sim, sua vida profissional. Para conciliar o trabalho profissional com o doméstico, as mulheres costumam buscar empregos com horários mais flexíveis ou com jornadas parciais.

Apesar da melhoria de renda para as brasileiras, nas últimas décadas, o número de empregadas domésticas no Brasil ainda é alto…

14% das mulheres brasileiras de 16 anos ou mais de idade estavam ocupadas no trabalho doméstico de acordo com os dados do PNAD de 2012. Estima-se que existam 6,3 milhões de trabalhadores domésticos no país. Deste total, 5,8 milhões são mulheres.

Ainda temos muitas domésticas adolescentes?

Em 2012, estimava-se que 100 mil meninas de 10 a 15 anos de idade estavam ocupadas em serviços domésticos.

6 a cada 10 pessoas que concluem a faculdade, no Brasil, são mulheres. Mas o RASEAM mostra que 65% das bolsas-ano de produtividade em pesquisa concedida pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) são para homens…

A inclusão das mulheres nas profissões científicas tem se dado em ritmo mais lento do que em outras áreas. A dificuldade em conciliar a grande dedicação exigida pela carreira de cientista e a maternidade e a dificuldade de acesso a posições de poder e a cargos de liderança no mercado de trabalho acabam sendo refletidas nos números apresentados, tendo em vista que as Bolsas de Produtividade evidenciam parte da estrutura de poder das universidades e centros de pesquisa do país. Os homens, refletindo também a divisão sexual do trabalho, são incentivados à dedicação ao trabalho produtivo e se ocupam menos dos afazeres domésticos, tendo disponibilidade de tempo para investir nos estudos, na carreira. Para promover o aumento da participação das mulheres, temos uma parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia e com o CNPQ, o Programa Mulher e Ciência [acaba de sair mais um conjunto de verbetes de cientistas brasileiras numa ação deste programa, o Pioneiras da Ciência ]. Outro programa foi o edital que lançamos no ano passado, o “Meninas e Jovens fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação”, que quer despertar o interesse das estudantes do sexo feminino do Ensino Médio e da Graduação por essas áreas.

O RASEAM volta a mostrar o crescimento da cesariana no país. Na sua opinião, o que acontece?

O Brasil é notoriamente conhecido pelo alto percentual de partos por cesariana. De acordo com dados do Ministério da Saúde, presentes no RASEAM, a cesariana alcançou quase 56% dos partos realizados no país em 2012. Uma das explicações para o aumento foi o relato de mulheres sobre o medo de sentir dor, revelado pelo estudo Nascer no Brasil, publicado em 2014 pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. Outro fator diz respeito ao entendimento de que o parto é um procedimento cirúrgico e não ‘natural’, fisiológico. Esse entendimento pode ser fortalecido já nas primeiras orientações pré-natais – e o argumento médico, em muitas vezes, sobrepõe o desejo, a escolha da mãe – sem dar conhecimento dos prós e contras de cada uma das possibilidades de parto.

 

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11
2015
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