As cidades ainda vão nos alimentar

Por Brenda Fucuta  |  Noticias  |  1 Comentário

De short marrom estilo surfista, mais velho que seus filhos adolescentes, Claudia Visoni, 49 anos, chega no horário combinado à horta da Praça das Corujas, entre os bairros de Alto de Pinheiro e Vila Madalena, em São Paulo. Fim da tarde. Abre a pequena porteira da horta, que não tem tranca, e começa a me mostrar o que se produz ali: os clássicos temperos de cozinha; banana, mamão, milho (não-transgênico); plantas medicinais. E flores que, segundo Claudia, são importantes para atrair abelhas e outros polinizadores. Tudo um pouco bagunçado, sem a simetria da roça arrumadinha que tanto aprendemos a admirar. Abundante. Boa não só para os homens, mas também para os bichos e as plantas. Na visão de Claudia, jornalista e ativista ecológica, editora do site Conectar, as hortas urbanas terão uma missão mais nobre do que alimentar moradores do bairro e andarilhos. Elas servirão de reservatório da diversidade, arcas de Noé contemporâneas, feitas para proteger espécimes da flora e da fauna das tragédias ambientais enviadas por Deus ou pelos próprios homens.

A praça tem um dos mais bucólicos córregos metropolitanos do país. Deitado aos pés do grande terreno inclinado da praça, esse córrego nos ilude. Dá a sensação de que estamos num canteiro de tranquilidade e paz. Quando, em 2012, Claudia e um grupo de voluntários, apaixonados pela vontade de transformar a cidade em produtora de comida, começaram a cavar um pedaço da praça para transformá-lo em horta, a reação dos vizinhos não foi acolhedora.  “Lá estamos nós, com enxada na mão, usando roupas velhas e cavando buracos na praça com a intenção de criar um espaço de convívio social e de educação ambiental. As pessoas não entendiam o que fazíamos ali.”

Minha causa, meu movimento

De acordo com o site Urban Farming, mais de 60 mil iniciativas de hortas urbanas são desenvolvidas no mundo. Hoje, pelos cálculos de Claudia, conselheira voluntária do meio ambiente da subprefeitura de Pinheiros e membro do movimento Cisterna Já em São Paulo, existem cerca de 15 delas na maior cidade do Brasil. Claudia atua em duas: a das Corujas e a dos Ciclistas, uma horta dentro dos grandes canteiros sobre as calçadas da Rua da Consolação e Bela Cintra, lugar mais urbano impossível.

Claudia tem um casal de gêmeos que se recusa a tomar o chocolate orgânico que ela compra. “É Toddy mesmo.” Em sua casa, se reusa a água, se faz compostagem (resto de comida que vira adubo), se planta e disseca. Ela planta e dá vida. Tenta ocupar o menor espaço possível no planeta porque acredita que estamos numa transição: sabemos que não podemos continuar gastando todos os recursos não-renováveis ou teremos sido a geração que deixou a peteca cair. “Os recursos estão acabando, mas a gente continua comendo três vezes por dia para viver. Então, o maior impacto que causamos tem a ver com a comida. Se vamos mexer na pegada ambiental temos que mexer no vespeiro da alimentação”, acredita.

Por outro lado, não conseguimos abrir mão de tudo ainda e por isso estamos numa transição. “Eu moro numa casa grande, tenho carro, que será meu último. Não uso produtos desinfetantes, não uso hidratante nem xampu. Consumo o menos possível, mas consumo”, diz ela.

Simplicidade voluntária

No nosso primeiro encontro, ao me receber em sua casa no Alto de Pinheiros, ela estava com o cachorro no colo e de chinelos de dedo trocados (os chinelos, não os dedos). “Eu não compro mais Havaianas ou produtos que forcem a mão na obsolescência programada”, me explica.

Ela também não compra novas roupas há dois anos.

Como você faz quando vai a uma festa? — pergunto.

— Tenho um pretinho básico… Dou um jeito, nunca fiquei horrorosa.

“Pensa bem. De quantas calças um ser humano precisa? Um dia, decidi contar minhas roupas. Não me lembro mais da quantidade, mas eu te garanto: não preciso comprar roupa para o resto da vida. Exceto uma calça jeans, daqui dois ou três anos. E meias.”

Claudia me dá uma ideia ótima. Quando percebeu que havia um monte de pé de meia solteiro na sua casa, decidiu padronizar. “Todo mundo só compra meia da mesma marca e da mesma cor”, falou para a família. “Assim, não fica meia sem par nunca.” Genial.

 Você dá muita roupa?

— Prefiro usar até acabar, virar pano de chão e, depois, adubo.

Aprendo com ela, numa demonstração ao vivo, que é possível colher o seu próprio hidratante no quintal, desde que você tenha um pé de babosa. (Fiz em casa, mas minha pele ficou meio irritada. Vou continuar tentando.) O xampu, ela substituiu por bicarbonato de sódio, o mil e uma utilidades de uma mulher (ou homem) consciente. Bicarbonato lava a cabeça, ajuda na receita de um desinfetante natural (com álcool e citronela) e substitui o fermento do bolo. Eu experimentei o bolo, de chocolate, que Claudia fez para os filhos. Estava muito bom e crescidinho.

Claudia pratica um modo de vida mais simples e com impacto menos negativo no meio-ambiente e na saúde de sua família. “O que eu posso fazer como consumidora? Consumir menos e melhor. Lembrar que o minério que a Samarco produz não vai para Marte, a gente é que consome. Lembrar que os produtos que consumimos não levam em conta, no preço, as externalidades que causam. Quanto custa um Rio Doce para o Brasil? Lembrar que os produtores orgânicos só se tornaram um setor econômico porque muita gente acreditou na ideia e bancou o negócio.”

Vida de ativista

A Maria Fernanda Teixeira, consultora que aplica o método de entrevistas e observações apreciativas para analisar um grupo, projeto ou sistema, me mostrou um trabalho que desenvolveu com ativistas do Pantanal. Uma pergunta que ela sempre fazia: o que segurava a onda quando um ativista estava, no fim do dia, cansado, sem dinheiro e com vontade de largar tudo e ir ao cinema?

Claudia me disse que ela se inspira na Carta de Seattle, que descobriu na adolescência, enquanto tomava sorvete. A Carta é um lindo manifesto a favor da vida que teria sido escrito por um chefe indígena americano que serviu de base para tantos outros nos últimos dois séculos. O documento seria o registro do discurso que o chefe fez ao receber a proposta de compras das terras de seu povo por homens brancos.

 

“Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquece…, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós…

A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza.

Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra.

Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.”

 

“Tem um código ético que precisamos resgatar na relação com o planeta”, diz. “Um pensamento dominante na sociedade é que a natureza está aqui para nos servir, ela é um detalhe. Mas se enxergamos a natureza como uma teia de relações, uma comunidade de vida e de relações, eu posso dizer que não sou mais importante do que as abelhas. Eu planto para as abelhas e elas polinizam para mim.”

 

Ela não é rica nem é pobre e está, como tantos outros nesse começo de século, procurando um jeito de unir trabalho e propósito. Dinheiro e causa. Crença e produção. Depois que teve filhos, criou uma empresa de comunicação corporativa. (Um dado curioso. Claudia tem escoliose diopática grave, uma condição que, segundo ortopedistas consultados por ela nos anos 80, a impediria de ter filhos e praticar esportes. Claudia teve gêmeos, joga basquete e agradece todo dia por não ter seguido o conselho dos médicos e passado por uma cirurgia brutal na juventude.)

Em 2010, foi desacelerando na empresa e passou a dar mais atenção para o ativismo ecológico. “Estamos neste momento da história, do fim da vida e começo da sobrevivência. Por isso, resolvi mudar na minha vida para poder ajudar.”

Só depois de três horas de conversa tive coragem para perguntar a mais importante das perguntas: “Ainda dá tempo? Teremos comida? Água?”

Claudia larga uma machadinha, com a qual estava cortando uma folha caída de bananeira, e me olha com atenção. Fico com um pouco de medo de que ela se irrite porque Claudia é brava. Mas ela respira fundo e me diz:

– Dá tempo! Se uma criança me perguntasse isso, eu diria que dá tempo, sim. A natureza responde muito rápido. Mas temos que ir para a ação já. Precisamos de árvores e bichos, abelhas, vespas, morcego. O campo está devastado e eles vão precisar que a gente os acolha.”

Se falarmos apenas de Brasil, Claudia estará se referindo a 70 milhões de pessoas que vivem em metrópoles. Bastante gente para agir. Imagine 10% disso comprando a ideia da agricultura urbana, das hortas nas cidades, nas casas e nas praças, e Claudia, que tem sacolas recicláveis de 20 anos de idade, terá liderado um dos maiores movimentos sociais do Brasil.

 

Palavras para entender nossa conversa:

  • Obsolescência programada: característica de produtos fabricados para durar pouco.
  • Externalidades: impactos sociais e ambientais provocados na fabricação de produtos.
  • Permacultura: criação de ambientes sustentáveis, cultura da permanência.
  • Agroecolocia: agricultura que respeita o meio-ambiente.
  • Agricultura urbana: plantação de alimentos nas cidades.

 

mar
11
2016
  1. PATRICIA HIGGINS  12/03/2016 - 23:20

    Cláudia Visoni é uma pessoa linda de todas as formas e fonte de inspiração e exemplo diário, ter convivido com ela, nos últimos 4 anos, mesmo que só virtualmente, foi e é sempre um privilégio. <3

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