“O novo feminismo é mais alegre”

Por Barbara Bretanha  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalO Brasil está vivendo “o terceiro momento do feminismo”, de acordo com a historiadora Luzia Margareth Rago, de 66 anos. Ela diz que temos aí uma nova geração, que sai às ruas sem medo de usar todos os recursos disponíveis (alguns muito lúdicos) para mostrar a que vieram. De lingerie à mostra, batom e salto alto, as jovens integrantes da Marcha das Vadias são um bom exemplo das novas feministas.

O movimento, criado no Canadá em abril de 2011, para protestar a ideia de que as vítimas de estupro teriam provocado a violência pela forma vestir e agir, chegou ao Brasil em um piscar de olhos – em junho do mesmo ano. Há um século a luta era outra tanto na forma como no argumento: as mulheres saiam às ruas de Nova York e Londres, com roupas fechadas até o pescoço, muitas vezes com os filhos pequenos no colo, para brigar pelo simples direito de votar. As “sufraggettes”, como eram chamadas mundo afora, lutavam pela inserção política, econômica e social da mulher, que só era permitida aos pais, maridos e irmãos.

Luzia faz questão de ressaltar o papel fundamental que as feministas do passado tiveram para que hoje movimentos, como a Marcha das Vadias, sejam possíveis. “O problema da minha geração era perder a virgindade. Hoje uma moça de 20 anos já mora sozinha sem estranhamento”, diz a historiadora. Na entrevista abaixo, ela reponde a 15 perguntas e afirma que as feministas atualmente falam de temas que antes eram varridos para baixo do tapete. Ressalta que isso é fruto de conquistas, que precisam estar presentes na memória das pessoas para que o feminismo continue sendo um movimento forte e representativo.

Como o feminismo se articula hoje?

O feminismo renasce na segunda metade década de 70, no Brasil. Se contarmos a partir desse período, diria que estamos em um terceiro momento. Analisando a história, temos muitos pontos positivos e alguns difíceis. Um patamar foi conquistado de crítica da misoginia, de denúncia da violência e de discussão sobre o aborto – que, na minha época, nem sequer se falava. O aborto não está descriminalizado ainda, mas existe uma luta. O tema – assim como o da violência doméstica – foi incluída na agenda pública, está nos debates e na mídia. O problema da minha geração era perder a virgindade, hoje uma moça de 20 anos já mora sozinha sem estranhamento. Isso é uma conquista enorme realizada em uma época em que não se tocava no assunto e os problemas eram varridos para debaixo do tapete.

Mudou a imagem do feminismo?
Conforme esses assuntos são discutidos mais abertamente, a imagem do feminismo foi mudando. É muito positivo que jovens se engajem, reivindiquem seus direitos. Mesmo assim existe um estigma: muitas mulheres acham que feminismo é besteira ou coisa de burguesa. Existe ainda uma imagem muita negativa da feminista. E também das feministas negras e indígenas.

Qual o perfil das novas feministas?

São jovens com coragem e vontade de lutar. Acho que elas deram uma dimensão mais lúdica aos protestos. Agora existe espaço para intervenções mais humoradas. Dá para fazer manifestação com teatro, performance, fotografia, banda. É mais alegre.

 No passado elas eram muito diferente?

O feminismo na época da ditadura não permitia tocar flauta – seria massacre generalizado. A Marcha das Vadias, por exemplo, eu acho o máximo. Vadia é quase como chamar de puta. É uma carga pesadíssima. Daí você tem centenas de jovens dizendo “então todas somos”. Esse movimento de reapropriação é bárbaro. É um momento para as jovens. Essas pessoas de 20 e poucos anos nasceram em outro patamar. Podem andar em uma calçada pavimentada pelas feministas anteriores, onde antes havia mato puro. Já tendo cinquenta anos, essa estrada permite que as jovens tirem a roupa na boa – o que é bom.

A senhora acha que as jovens de hoje não sabem disso?

Em um país como o Brasil, onde a memória histórica é muito curta, as pessoas não se dão conta que aquela calçada custou muito suor, sangue e movimento. Acho que falta um pouco – não só no feminismo, mas no anarquismo e em outros movimentos – de perspectiva histórica, de perceber que existe um processo. Há miopia.

O que essa miopia acarreta?

As pessoas que não tem consciência, que não se vinculam historicamente, ficam muito vulneráveis. Uma das estratégias do fascismo e do nazismo era justamente cortar vínculos com a tradição. Sem consciência, o sujeito fica à mercê do Estado. História é fundamental para construção da cidadania e continuidade dos valores.

As feministas mais jovens ignoram a história?
Na minha opinião, o feminismo agora está vivendo um momento de muita fragmentação política. Ele ainda é o único movimento que ainda tem unidade garantida, ou seja, em que pessoas conseguem fazer uma manifestação grande. Os novíssimos movimentos, como o Passe Livre, também conseguem fazer, mas a esquerda brasileira se pulverizou. O feminismo ainda tem certa coesão, que está ameaçada. As diferenças geracionais estão pesando. Existem questões em que precisamos pensar.

Que questões são essas?
Não quero falar sobre vitimização das mulheres. Quero falar das maneiras que elas transformaram o mundo. Acho que essas coisas estão acontecendo, mas falta teoria e linguagem. Os gregos tem a noção de parresía – coragem para se dizer a verdade, mesmo podendo ser condenado por isso. As mulheres tem muita coragem da verdade. Qualquer mulher no passado, para fazer qualquer coisa, tinha de brigar. Sem a palavra, a gente perde o fenômeno. Falta linguagem para essas práticas feministas que nos empoderam e que são éticas. Falta link com outras tradições. Isso é política da subjetividade. Uma coisa é emancipar as pessoas com base na ligação com o Estado, que se tornam portadoras de direitos. Isso não garante a formação de pessoas éticas. Precisamos de subjetividades éticas.

Qual é a ideia que se tem de uma feminista hoje?

É uma pessoa que não seja violenta, com valores éticos, solidária, e preocupada com o bem do mundo. O feminismo traz consigo não apenas luta do empoderamento, mas pela transformação das relações para liberar as mulheres do jugo da identidade que as confinava ao lar. Nós já nos autonomizamos. Temos uma presidenta, temos ministras. Esse patamar foi conquistado. O lado perverso é que o capitalismo neoliberal se apropriou disso e está dizendo: vocês são autônomas, sejam empresárias de si mesmas. Não fala de obedecer, fala de produzir mais, de dar mais lucro. É a teoria do capital humano formulada pela escola de Chicago na década de 50 e estamos vendo aí. Para o capital é interessante que não exista violência doméstica, porque aí as mulheres são mais produtivas. Em princípio é bom que as mulheres não apanhem. Mas a lógica de cooptação pelo capitalismo é terrível.

 Então feminismo e capital não andam juntos?
Para mim, o feminismo é anticapitalista. Nasceu na luta contra ditadura. Sempre foi um movimento de esquerda. Agora está em um momento em que pode ser cooptado pela direita caso venha a perder o vínculo histórico. Sem os valores e referências, perde o rumo. Se isso acontecer, a culpa não é da falta de infraestrutura ou de oportunidade, nem de sobrecarga de trabalho. A culpa será dessa mulher feminista, que tem autonomia. Não adianta uma feminista combativa, mas muito autoritária. Coronéis nunca mais. Formar jovens com esse perfil só vai prejudicar o movimento. Ninguém mais fala em feminismo, a gente fala em feminismos. Meu medo é que a gente chegue ao ponto em que diga que tem feminismo neoliberal.

Falando em perspectiva, como foi a história do feminismo?

Existem diferentes narrativas históricas. Por exemplo, de acordo com o grupo Mujeres Creando, da Bolívia, muito antes do feminismo europeu, as indígenas eram feministas. Existem diferentes narrativas histórias sobre o movimento.

O feminismo não tem uma história oficial?

Vou te contar a história “oficial”, mas é importante destacar que existem muitos outros discursos e críticas. O
feminismo nasceu no fim do século 18, época da revolução francesa e industrial, com figuras como as escritoras Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges. Elas diziam que os direitos universais foram criados para os homens, não para as mulheres, que não eram de fato universais. Surgiram nesse momento outros movimentos críticos do capitalismo urbano industrial. O feminismo se iniciou, também, com vertentes anarquistas e socialistas.

Como surgiu no Brasil?

No Brasil, no começo do século 19, Nívia Floresta é considerada nossa pioneira, pois traduziu a inglesa Wollstonecraft. Mas é no fim do século 19 que surgiu a primeira onda do movimento, com o engajamento de revistas, jornalistas e escritoras. Questionavam a organização de trabalho, o casamento – como a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida, que integrou o grupo que planejou a criação da Academia Brasileira de Letras. Depois, com a conquista do direito de voto, ele reflui. A segunda onda veio em 70 com as mulheres que saem da prisão, do PCdoB, do partido comunista.

 Mas o grande boom do feminismo não foi na década de 80?

Sim. Nessa época surgiram muitas organizações, como o Conselho Estadual da Condição Feminina (1982, em São Paulo) e o Galedés -Instituto da Mulher Negra (1988, em São Paulo), entre outras ONGs e núcleo de estudos.

Quando é introduzida a questão do gênero?

Na década de 90 entra a questão de gênero. Tem uma mudança na questão de pensar, que se pluraliza para discutir sobre as relações das mulheres com cada setor. Não tem como acabar a violência doméstica sem mudar a cabeça dos homens, por exemplo. Surgem, nos Estados Unidos, em meados de 90, as Riot Grrrls (ou Riot Girl) que falam de empoderamento para as meninas. O Riot e o Femen – fundado na Ucrânia, em 2008 – são a terceira onda.

 A mídia também avançou?

Hoje se tem mais abertura para falar de temas que antes não eram discutidos, mas existem muitos preconceitos ainda. Observamos isso no vocabulário empregado, o destaque que se dá para a notícia, onde o artigo aparece. Hoje vai a ministra fazer uma declaração e existe respeito. Mas, sem dúvida, o mundo é dos homens. Homem não precisa fazer esforço, pode ser gordo e careca. Mulher tem que vir perfeita, bonita, bem arrumada e inteligente. O mundo ainda é misógino. Mas também é filógino. Hoje se um homem te agarra, você vai à delegacia. Antes você ia para casa chorar. Isso é uma conquista. Se você não nomeia as coisas boas, elas se perdem. Não dá para pensar só no ruim. Precisamos lembrar de potencializar o positivo.

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03
2016
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