“O feminismo me ajudou a me entender”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalNegra e nordestina, Jarid Arraes, 24 anos, começou a despertar para o feminismo quando foi para a Índia, há seis anos, fazer um trabalho voluntário em uma escola para meninas. Ao voltar para a cidade natal, Juazeiro do Norte, no Ceará, fundou o grupo de discussões Feministas do Cariri. Depois entrou para outro, o Pretas Simoa, mulheres negras também do Cariri.

“Foi o feminismo que me ajudou a entender. Entender a minha relação conturbada com meu cabelo, o fato de eu, às vezes, ter sentido vontade de fazer plástica para afinar o nariz e sempre clarear as fotos no Photoshop quando postava na internet. Eu não aceitava o que eu era”, disse Jarid, colunista da revista Fórum e autora do livro de cordel As Lendas de Dandara, uma heroína negra do Quilombo dos Palmares. Filha de mãe branca divorciada, ela cresceu se auto definindo como miscigenada, mas nunca como negra.

Hoje, ela mora em São Paulo, onde pouco a pouco solidifica-se como escritora. Sua missão é levar para o mundo histórias de mulheres, que em geral não são contadas. “São negras, nordestinas, lésbicas, trans…” Abaixo as 10 perguntas que fizemos para Jarid.

 O que é ser uma mulher negra no Brasil?

É até curioso falar disso porque, até há poucos anos, eu nem sabia que eu era negra, minha mãe é loira e meu pai, negro. Por ser miscigenada e conviver mais com minha mãe, acabava não tendo muita consciência da minha identidade racial. Isso foi algo que eu construí dentro da minha militância feminista. Tive contato com outras mulheres, que já militavam no movimento negro e elas me ajudaram a reconhecer que eu era negra porque até então eu dizia que eu era só miscigenada.

Qual foi a importância dessa tomada de consciência?

Foi um chamado que me fez acordar. Entendi a minha relação conturbada com meu cabelo, o fato de eu, às vezes, ter sentido vontade de fazer plástica para afinar o nariz e sempre clarear as fotos no Photoshop quando postava na internet. Eu não aceitava o que eu era. Uma militante disse que o Brasil teve uma política oficial de miscigenação porque a intenção do Estado era branquear a população. Senti o peso dessas palavras. Estava fazendo o mesmo jogo ao falar que não era negra. Comecei a entender tudo o que eu tinha passado na minha infância, todos os episódios de racismo que eu sofri. Antes de entender que eu era negra, estava a mercê de como os outros me enxergavam: eu era a pessoa do cabelo “ruim”, sem traços delicados. Muitas vezes, em casa, fui confundida com empregada ou babá porque minha família é branca.

Isso mudou seu olhar em geral?

Sim, mudou. Comecei a perceber que existe toda uma hipersexualização das mulheres negras. E que se acredita que elas não servem para relacionamentos sérios. Mais ainda: que existe uma lógica que defende que a mulher negra é mais forte do que a mulher branca. Muitas vezes, na fila do SUS somos preteridas até quando chegamos antes e isso gera vários abusos e negligências médicas. No mercado de trabalho, a exploração se revela em condições de subemprego, sem carteira assinada e com salários menores. Se você pegar todas as estatísticas sociais hoje no Brasil, as mulheres negras têm as piores colocações. Quando a mulher negra aparece na mídia, é de uma forma pejorativa, o que contribui para que esse quadro continue igual. Precisamos de uma boa representação de pessoas não brancas na TV. Isso que aconteceu com a Maju (Maria Júlio Coutinho, repórter de metereologia, foi vítima de comentários racistas na internet, em 2015), no Jornal Nacional, é só um sintoma do que a própria Globo construiu.

Você acha que isso acontece pela falta de oportunidade à educação?

Não é qualquer educação que vai fazer que se eduque contra o racismo. Minha mãe pagou colégio particular para mim e em todo esse tempo, na escola e na universidade, inclusive, eu nunca ouvi falar de história e cultura africana, nem sequer dos movimentos negros ou quilombos aqui no Brasil. Como a gente vai combater o racismo se a educação formal das escolas é racista? Aprendemos tudo sobre a Europa e Estados Unidos e nada sobre África. Uma educação que se debruçasse sobre isso já seria um começo.

Você acha que o feminismo atual avançou?

Uma característica muito positiva do feminismo atual é o conceito de interseccionalidade. Refiro-me a conseguir olhar para várias questões sociais como racismo e reforma agrária, mas ao mesmo tempo dialogar com as questões de gênero. Hoje temos as reivindicações das mulheres lésbicas, trans, travestis e das trabalhadoras sexuais. Nenhuma mulher pode ser deixada de lado. Isso tudo lá nos anos 60 seria impensável. No passado, o feminismo era predominantemente de mulheres brancas (heterossexuais). Mas ainda acho que as pautas ficam muito centradas nos direitos de escolha da mulher branca e isso precisa ser mais abrangente.

 Foi a militância que levou você a querer escrever?

Sempre quis escrever, mas isso aconteceu por causa da militância. O primeiro blog que abri sobre feminismo foi em 2011, A mulher dialética. Então conheci o editor na Fórum (revista inspirada no Fórum Social Mundial, lançada em 2001), o Renato Rovai, que me convidou para fazer uma coluna batizada de Questão de Gênero. Nas matérias semanais, procuro sempre dar espaço a diversas mulheres (negras heterossexuais, trans, lésbicas…) para que elas tenham espaço de se expressarem. Depois de dois asnos assinando a coluna, comecei a escrever cordel.

Por que você escolheu a literatura de cordel?

Meu pai e meu avô são cordelistas. Cresci ouvindo e lendo cordel, mas achava que não tinha talento. Meu pai me estimulou. Eu acho importante a literatura de cordel pela forma como representa mulheres, negros, gays… Quis manter a tradição viva e trazer um elemento novo. Em 2012, comecei e deu muito certo. As pessoas se interessaram muito, principalmente no meio da militância muita gente não conhecia essa literatura. Quanto mais eu escrevia, mais tinha um retorno positivo. No ano passado (2015), lancei meu primeiro livro, As lendas de Dandara. São dez contos que se interligam.

Sobre o que é o livro?

É ficcional, mas inspirado em pesquisas sobre o quilombo de Palmares e a História do Brasil durante a escravidão. Para escrever sobre a protagonista (Dandara foi uma guerreira negra do período do Brasil Colônia, esposa de Zumbi) levantei artigos científicos, em textos de militantes. Trata-se de um material muito escasso e controverso. Tem pesquisadores que afirmam que ela não existiu. Antes de começar a escrever fiz um teste com os leitores da revista. Publiquei “E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi?”, no dia da Consciência Negra. Recebi vários comentários falando que ela era só uma lenda. Então pensei: se ela é só uma lenda, vou escrever as lendas dela porque nem isso a gente tem. Minha ideia é provocar mesmo. Ela precisa ser conhecida, seja real ou lenda, para servir de inspiração feminina.

Você ganha a vida como escritora. Você acha que isso é mais difícil para uma mulher?

Para a mulher é mais complicado do que para um homem, imagina então para uma mulher lésbica, negra ou pobre. Nessa equação toda, ainda tem o fato de eu ser nordestina, o que é um empecilho também porque a literatura de cordel não é encontrada em livraria, não está em eventos literários como a Flip. Não é valorizada e o fato de ser uma expressão nordestina tem tudo a ver com isso. O Nordeste é a periferia do Brasil. Para eu conseguir publicar esse livro foi muito difícil. A mulher que escreve nunca é avaliada só pelo que ela escreve, mas pela aparência, pela vida pessoal… É um inferno. Isso é muito difícil pra todas.

Quais as feministas que lhe inspiram ?

A Aline Valek, que ilustra meu livro. A Djamila Ribeiro, pesquisadora referência no feminismo negro. Gosto muito das meninas do site Lugar de Mulher, que falam de feminismo de uma forma muito acessível e também das meninas da revista, adolescente e feminista, Captolina – se eu tivesse uma revista dessa quando era adolescente, teria adiantado meu processo de virar feminista. Tem ainda as meninas do Galadés, Sueli Carneiro e Jurema Werneck, e a escritora Ana Maria Gonçalves. Fora do Brasil: a escritora nigeriana Chimamanda Adichie e a americana Bell Hooks.

 

mar
02
2016
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