Nossos corpos imperfeitos

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalHá quase dois anos, a fotógrafa Maria Ribeiro, 29 anos, convidou algumas amigas para posar para sua câmera. Em pouco tempo surgiram várias candidatas e um projeto pessoal, nada ambicioso, o “Nós, madalenas”, se expandiu e, graças a uma campanha de crowdfunding, se transformou em um livro. No total, foram 100 mulheres fotografadas: cada uma delas escolhia uma palavra para mostrar o que o feminismo representava em sua vida. Força, acolhimento, luta e libertação foram algumas das palavras o algumas das palavras escritas nos corpos das mulheres que participaram do projeto. Nesta entrevista, três fotografadas: Clara Averbuck, Djamila Ribeiro e Samantha Bader.

Você diz que sempre foi feminista. Gostaria de saber qual é a sua história com o movimento e sua percepção de feminismo.

Mesmo sem saber, eu sempre fui feminista pelas minhas ideias, pela minha forma de comportamento. A identificação com o movimento foi acontecendo gradualmente. Estou sempre vendo novas coisas e estudando. A questão da mulher é universal e sabemos que existe um problema sério em relação a gênero – não só no Brasil, como no mundo todo. Esse último ano foi o mais intenso para mim, pois através do projeto conheci muitas pessoas, outros projetos, blogs e reportagens que me enriqueceram muito, tanto como feminista quanto como artista. Para mim, o feminismo tem que ser um instrumento de libertação para que as mulheres façam suas escolhas conscientemente e se libertem tanto das cobranças internas quanto das externas.

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De onde surgiu a ideia do Nós, madalenas? Eu sou fotógrafa e feminista e há muito tempo e eu queria encontrar uma forma de unir essas duas coisas em um projeto pessoal. Chamei umas amigas e a gente fez algumas fotos. Depois fizemos um tumblr, aí outras pessoas queriam fazer, a amiga da amiga viu e quis fazer também e fomos crescendo. Encerramos a primeira fase do projeto, completamos 100 retratos e depois fizemos uma campanha de crowdfunding para lançar o livro. O livro tem todas essas fotos e um relato de cada uma das fotografadas.

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Além de trabalhar com o feminismo pela escolha das palavras nos corpos das mulheres, você optou pela fotografia sem retoques. Por quê? As fotografias são em preto e branco e não existe uso de programas como Photoshop. Todas as características que são consideradas pela mídia como imperfeições são deixadas como são: quilos a mais ou a menos, estrias, celulites, cicatrizes, marcas, está tudo ali. Acho que tem muito a ver com um objetivo meu: sou especializada em fotografia de mulheres e minha proposta é mostrar sempre a mulher como ela é, o corpo natural e real, não faço nenhuma modificação no corpo das mulheres e eu trouxe essas características para o projeto.

Meu objetivo é ter imagens de mulheres reais para desconstruir esse estereótipo das revistas que a gente vê toda semana nas bancas e que fazem as mulheres sofrerem por um objetivo impossível de ser alcançado porque aquilo não é real. O fato de as mulheres aceitarem as, entre aspas, imperfeições, mostrarem isso em uma imagem que será pública e aprenderem a se amar dessa forma é extremamente corajoso porque você vai contra todas imperfeições que a sociedade e a mídia colocam em cima da mulher e em torno do corpo perfeito.

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Você percebeu alguma mudança ou impacto na vida dessas mulheres depois de fotografadas? Sim. Comecei a ter contato com as histórias dessas pessoas e para muitas fazer esse retrato foi vencer muitas barreiras: se empoderar, se auto afirmar, até inaugurar uma nova fase da vida, ou pessoas que venceram muitos obstáculos para conseguir se expor.

fev
17
2016
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