As pessoas estão buscando uma nova relação com as marcas

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  0 Comentários

A conversa com a publicitária Mariane Maciel foi tão boa que rendeu um depoimento e um ping pong sobre publicidade e busca de sentido no consumo

Você acha que o modelo de trabalho exaustivo, tão comum nas agências de publicidade e departamentos de marketing das grandes empresas de consumo, vai sobreviver? Ou as empresas serão obrigadas a rever sua relação com os colaboradores, assim como os colaboradores estão revendo sua relação com o trabalho?

Eu acredito que as empresas mais interessantes serão aquelas que reinventarem sua relação com o trabalho – mas é claro que isso não vai acontecer em todos os lugares, com todas as empresas. Mas as mais interessantes serão ou já são assim. Vejo que cada vez mais cedo amigos e conhecidos querem ‘largar o mundo de agências’ – e um amigo me contou recentemente que hoje, ao palestrar em universidades, conversa com os estudantes e percebe que o sonho de ir para uma grande agência está quase em extinção. Os meninos querem colocar suas idéias na rua, fazer projetos, trabalhar com parceiros. Como as grandes máquinas irão atrair jovens talentos? Ao meu ver, possibilitando que haja vida fora da agencia e criando espaço para projetos pessoais dentro do ambiente de trabalho.

A busca de propósito: tem a ver com um movimento de cansaço do excesso de consumo? Com uma geração, a Y, que tem sonhos diferentes dos pais? Com um questionamento das mulheres, especialmente, sobre o que vale a pena sacrificar em nome do trabalho? Ou não tem nada a ver com isso?

Acho que tem a ver com tudo isso e muitas outras coisas, como o despertar de uma nova espiritualidade, mas talvez só consigamos entender o período que vivemos ao olharmos pelo retrovisor daqui a 10 ou 20 anos. Há uns 5 anos, eu desenvolvia um projeto para uma marca de bebidas e falávamos sobre o ‘experimentar’ como muito mais relevante do que o ‘ter’. Nem faz tanto tempo assim, mas hoje, penso que eu vez de experimentar, a gente estaria falando em ativismo, construção coletiva, realização, projetos autorais.

Num dia desses, eu estava falando com um profissional de recrutamento que alertava para um problemão que as empresas temiam encontrar, a consciência de que não é preciso consumir tanto para ser feliz, o que afetaria brutalmente as vendas das empresas…

Eu concordo que chegamos a um momento em que parte da sociedade questiona a importância dos bens materiais e coloca na balança continuamente a pergunta “Será que eu preciso disso?” No meu caso e no caso de tantos freelas, fico me perguntando se vale a pena consumir algo que vai me obrigar a trabalhar mais X horas.

Porém, não acho que podemos pegar a nossa experiência, do nosso mundinho, e achar que é tudo igual. Vivemos em um país complexo e desigual em que temos grupos que vivem experiências muito diferentes de desejo e consumo em um mesmo espaço e tempo. E não podemos julgar essas experiências como melhores ou piores.

Não acredito que vamos voltar no tempo e viver sem a indústria, sem as marcas e sem a publicidade. Porém, a cultura do excesso, do desperdício, da hipocrisia, da construção de identidade via consumo – isso, sim, tende a diminuir. Como também o deslumbramento em relação aos oásis projetados pela publicidade das marcas. Agora, a meu ver, o jogo é outro: ao invés de se sentirem atraídas por marcas e seus campos simbólicos, as pessoas estão cada vez mais críticas e seletivas. “E você, a que veio? Pode fazer o que pela minha vida e por minha cidade? Me prova que é bem-intencionado, esforçado, responsável e cidadão para poder fazer parte da minha vida.” Um novo tipo de conversa está sendo estabelecida. Menos ingênua e mais interessante para quem souber se adaptar a esse mundo mais lúcido.

nov
11
2015
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