“As mulheres negras estão falando. Será que você quer escutar?”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalQuando Stephanie Ribeiro, 22, entrou no curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-SP, ela não imaginava as agressões que sofreria ali. Uma das duas únicas alunas negras do curso, Stephanie começou a conviver com episódios de racismo. Certo dia, encontrou seu armário pichado com a frase “Não ligamos para as bostas que você posta no Facebook”. Em outra ocasião, quando a turma estava reunida para fazer um trabalho em grupo, ouviu de uma colega: “Não quero ser racista, mas já perceberam como negros normalmente fedem mais do que brancos? Têm um cheiro mais forte?”  Pensando em abandonar o curso Stephanie procurou a ajuda de uma psicóloga. “Queria persistir, era importante o espaço que eu tinha conquistado”, conta.

No final de 2013, Stephanie escreveu um texto chamado “Universidade opressora não passará e não calará” sobre a sua experiência como estudante negra. Produzido como uma tentativa de aliviar a angústia, o texto foi publicado na revista Fórum em maio de 2014 e a repercussão foi grande. A partir daí, Stephanie se tornou uma das mais conhecidas ativistas do feminismo das mulheres negras. Hoje, ela escreve para as revistas Confeitaria Mag, Capitolina, é colunista do site Blogueiras Negras e coordenadora do Imprensa Feminista. Além disso, Stephanie criou em 2015, em parceria com duas amigas, um site chamado Afronta que publica histórias de mulheres negras com o objetivo de empoderá-las.

Stephanie Ribeiro, feminista e ativista contra o preconceito racial

Stephanie Ribeiro, feminista e ativista contra o preconceito racial

Você está no quarto ano do curso. Como foi sua experiência?

É muito solitário, você olha para a sua sala e não vê pessoas como você. Esse confronto de realidade nunca tinha ocorrido comigo. Era o ambiente, o jeito que as pessoas falavam… Meus problemas na faculdade começaram na transição do primeiro para o segundo ano. Lembro que, numa semana apenas, dois professores falaram a respeito da cor da minha pele. Dói não se sentir confortável. Em se tratando de racismo, as pessoas não entendem que não é um problema individual, mas coletivo. É um problema geral.

Você acha que o fato de estar em uma universidade privada contribuiu para que esses esses episódios acontecessem?

Não é uma questão de universidade particular ou pública, mas de cursos superconcorridos e que acabam sendo elitizados. A barreira já começa no processo seletivo, no vestibular: quanto mais concorrido um curso é menos alunos pobres e negros ele vai ter. A universidade tem esse problema. Por isso, entendo que é importante que eu faça parte desse espaço, tradicionalmente branco. Fazer disso um ato de resistência é fundamental.

 

Sua história como militante comecou nessa época. Como você avalia o feminismo negro hoje? Quais são as questões mais importantes?

Acredito que as mulheres negras percorrem um caminho de busca pela igualdade em relação a outras mulheres, em diversos campos, como o trabalho por exemplo. Falta representatividade da mulher negra no trabalho, na revista de noiva, na mídia em geral. A pauta das mulheres negras é ter voz, falar como é ser a gente.Lembro que um dia eu estava assistindo ao Profissão Repórter e uma mulher branca tinha duas empregadas negras. Em algum momento, as lutas [das mulheres brancas e negras] ficam distintas.  Quando você é negra, existe uma dupla opressão: a do machismo e a do racismo. Nós viemos de um contexto diferente da mulher branca, a mulher negra tem uma história diferente em relação à opressão, ela carrega o peso da escravidão. Hoje, os textos estão aí, as mulheres negras estão falando… A questão é: Será que você está querendo escutar?

Para que serve o site Afronta?

Nossa ideia é contar histórias de mulheres negras respeitando a forma que elas enviam. Já publicamos até poesias. A cada história que recebemos fazemos uma ilustração para acompanhar e isso é uma forma de agradecermos. Precisamos que essas histórias sejam contadas por nós, pelas próprias mulheres negras. Em breve, teremos uma reunião para discutir os próximos passos do Afronta, queremos sair do meio virtual para publicar algo impresso.

 

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03
2016
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