A reinvenção da vida depois de um AVC

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  15 Comentários

Toda vez que eu tinha reunião* com a Elda, me lembrava da minha mãe dizendo, espantada: “Você conhece a Elda Müller?” Como milhares de assinantes de revistas, minha mãe acompanhava a carreira dessa executiva pelo expediente das publicações da Editora Abril. Redatora, editora-chefe, diretora de redação da Casa Claudia até os anos 2000. Depois, diretora-superintendente de todas as revistas femininas e, nos últimos anos, conselheira editorial da empresa. Em junho de 2014, ela se afastou do trabalho por razões médicas. Teve um AVC hemorrágico e, durante um mês, ficou hospitalizada. O acidente vascular cerebral não deixou seqüelas em Elda, que me recebeu em sua ensolarada varanda no Jardim Guedala, em São Paulo, para falar do trabalho e da vida. Era a mesma Elda e era uma nova Elda. Foi sobre isso que conversamos: a arte de reinventar a vida, assunto do livro que pretende lançar nos próximos meses.

Elda, uma das mais bem sucedidas executivas do mundo editorial, prepara um livro sobre a arte de reinventar a vida. Foto de Bernardo Paglia

Elda, uma das mais bem sucedidas executivas do mundo editorial, prepara um livro sobre a arte de reinventar a vida.                                            Foto de Bernardo Paglia

Você chegou ao hospital em estado grave. Agora, no entanto, parece muito bem. Seria difícil dizer que há menos de um ano teve um AVC.

Do ponto de vista físico, posso dizer que o AVC foi um acidente que não deixou nenhum efeito. Fiquei com um pequeno comprometimento da visão periférica esquerda, mas é uma coisa bastante leve para quem chegou ao hospital com poucos sinais vitais. Fiquei 20 dias em coma. Foi uma grande alegria pra minha família e meus amigos quando me recuperei. O fato de não ter, hoje, nenhum problema cognitivo, motor, nada mais dramático, é algo que considero um presente excepcional da vida. Isso não quer dizer, no entanto, que eu não tenha tido um trauma fortíssimo. O cérebro é um filtro da nossa percepção da vida, de tudo que acontece. Do que é. Um cérebro em reconstrução, como estava o meu, precisa reprocessar tudo. Tudo mesmo. Quem você é? Quem são as pessoas? Os lugares… Recuperar-se de algo assim pode ser assustador. É belo porque é um renascimento. Mas é assustador porque você tem que começar tudo de novo.

No mês passado, uma executiva da indústria de beleza, a Andrea Mota, corajosamente falou de um colapso que teve em função da exaustão no trabalho…

Acho que minha situação era um pouco diferente. Eu estava num momento tranqüilo da vida corporativa, já como conselheira e sem precisar cumprir a agenda extenuante de um executivo. Claro que a gente não pode saber exatamente por que aconteceu ou descartar o estilo de vida numa situação como essa. Mas, honestamente, não associo meu AVC com exaustão ou algo parecido. Lembro de ter sentido uma dor estranha na face direita e achado que podia ser enxaqueca durante uma reunião de trabalho. A dor piorou e saí para tomar um analgésico. Lá fora, depois de tomar o remédio, percebi que não ia melhorar. E, daí, só me recordo de dizer para a secretária que precisava ir ao ambulatório e de cair em seguida. Sei que fui levada de ambulância para o hospital.

O que essa ruptura te diz ou muda na tua relação com o trabalho?

Durante a vida profissional, a gente fica tão abduzida pelo cumprimento da tarefa, o que eu chamo de “Os 12 Trabalhos de Hércules”, que não presta atenção no que está acontecendo dentro da gente. Estamos tão focados na entrega que deixamos de nos olhar. E aí temos o primeiro ponto de reflexão. Sabemos que a vida de executivo pode ser difícil, que ele responde por resultados cada vez mais desafiadores. Mas, a meu ver, isso não quer dizer que ele deva deixar de se responsabilizar pelo cuidado consigo mesmo. Acredito que nós somos responsáveis pelos grandes movimentos das nossas vidas mesmo que, como executivos, façamos parte de uma engrenagem. Saber o que te faz sofrer, o que alimenta esse sofrimento, por exemplo, é uma responsabilidade sua. O trabalho pode ser tão prazeroso, inclusive, que serve para nos deixar longe dessas questões, vira uma forma de escapismo.

Como assim?

Talvez, no trabalho, a gente encontre um ambiente mais confortável para construir uma imagem positiva de nós mesmas, o que é delicioso. Diferentemente do que acontece na vida pessoal, na vida em grandes empresas a gente conta com muitos recursos, a ajuda de uma equipe talentosa e azeitada. Outra coisa, temos uma encomenda clara do chefe, se for um bom chefe. Se trabalharmos bem e tivermos sorte, colheremos bons resultados. Você fez o resultado? Yes! Você não entregou o resultado? Ok, deu problema e você precisa lidar com o revés. Mas acontece que, na vida, quando você lida com as pessoas que ama, é tudo mais complexo. Não tem resultado, tem experiências de vida. Não tem encomenda do chefe, tem a sua disponibilidade para desfrutar de alguns momentos. Como as coisas no trabalho podem ser mais simples, você se engana e diz: “Nossa, como sou bacana, olha o que eu consigo fazer, olha como isso ficou legal.” Seja qual for a medida, a do retorno financeiro, a da repercussão, a da inovação, você sente que está no controle. E isso não acontece nas nossas vidas, não é mesmo? Muitas vezes, os fatos são mais petulantes do que queremos e não colaboram (rsrs). Por isso, é fácil a gente se enganar e mergulhar tanto no trabalho. Porque na vida de filha, de mãe, de mulher, de namorada, de amiga… talvez as variáveis sejam imprevisíveis. Na vida, as encomendas são mais fluidas, não vêm num pacote organizado como o de uma meta ou do pedido de um chefe.

Como foi para você? Como é?

De alguma maneira, acho que tendi a olhar o capítulo trabalho meio separado do resto da vida. Algo como “peraí, agora eu estou trabalhando”. Embora eu tenha princípios e valores que esculpiram minha visão de mundo, imagino que eu pudesse ter integrado melhor as coisas. A integridade interior é a maior riqueza que a gente pode ter. A partir dessa observação do que ocorre dentro de nós, temos um radar importante pra agir, pra responder aos desafios da vida. Acredito que você não pode pôr todas as fichas num só lugar e nós, mulheres, temos um desafio extra porque a gente tem uma casa pra cuidar, tem muitas tarefas fora da empresa que são muito prazerosas. Eu sempre tive muito prazer em cuidar. Eu gosto de cozinhar, gosto de plantas, gosto da minha casa, de enfeitar a minha casa, por exemplo. Portanto, foi um desafio equilibrar tudo.

Você acredita que as mulheres possam imprimir uma liderança mais integradora?

Não gosto de dividir a liderança por gênero. Às vezes, a gente faz coisas mais masculinas, outras vezes mais ditas femininas. Eu já tive colegas e chefes que eram mais femininos em suas atitudes; também tive colegas mulheres mais masculinas em suas visões de mundo. Tem pessoas mais agressivas, autoritárias. Outras, gostam de delegar. São estilos de gestão que entram e saem da moda.

Como está sendo seu processo de recuperação?

Todos os relatos de pessoas que tiveram experiências de quase morte, como eu tive, falam de uma mudança profunda. Ao viver o nada, você passa a valorizar cada momento da vida. É essa a minha meta, agora: ter “radiância”, ter uma alma que se emocione e se entusiasme, que consiga enxergar a beleza dos momentos que passam despercebidos. Me sinto como uma pessoa que renasceu e que tem a chance maravilhosa de reinventar a vida. No livro, vou falar das experiências que me trouxeram até aqui: as viagens exóticas, a busca espiritual, as conquistas no trabalho. E também deste momento mágico que vivemos:  o impacto da tecnologia subvertendo toda a ordem, as grandes mudanças nas relações de trabalho, da noção que a gente construiu sobre o emprego. Bom poder pensar sobre “o que eu gosto de fazer?”, “o que me comove?”, “qual o propósito do trabalho?” num momento em que essa é uma pergunta coletiva, que boa parte do mundo também se faz. Não estou sozinha.

 

* Numa sala organizada sob as leis do feng-shui, Elda me recebia semanalmente na área mais nobre do 17 andar do prédio da Editora Abril, na Marginal Pinheiros. Foram dois anos de reunião, de 2008 a 2009, enquanto eu tive o prazer de tê-la como chefe.

jul
03
2015
  1. Sandra sampaio  03/07/2015 - 18:42

    Brenda gostei muito de ver vc se reinventando e de poder saber como a Elda está bem e receber pela entrevista um belo ensinamento de vida!

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  2. Eliani Prado  03/07/2015 - 19:21

    Linda história de superação, lindo texto, lindas mulheres.

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  3. Fernando Costa  03/07/2015 - 21:22

    Parabéns Breda pela entrevista. Quanto à Elda fiquei muito feliz de vê-la tão bem. Continua a adorável e sábia Elda. Beijão pra duas.

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  4. Marcia Neder  03/07/2015 - 22:31

    Elda, querida, nossa vida já se entrelaçou das mais diversas maneiras em tantos anos de convivência. E sempre foi uma troca da maior riqueza. Ao ler esse depoimento, mais uma vez você me toca e me transforma. Obrigada, amiga!

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  5. Getulio de Oliveira ponciano  03/07/2015 - 22:54

    Não estava sabendo, mas estou muito feliz em saber que você está bem. Que Deus a proteja amiga. Beijos

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  6. Silvana Ribeiro  04/07/2015 - 01:26

    Conheci Elda Müller nos meus primeiros anos de editora abril e sempre a admirei pela elegância, beleza e principalmente pelo seu jeito simpático e carinhoso. Nunca deixou de cumprimentar a todos que passavam. Qualquer pessoa que cruzasse com ela em qualquer hora ou lugar, recebia um sorriso e jamais passava despercebido. Várias vezes passamos por ela e em seguida tínhamos que tecer comentários sobre esse jeito de ser e eu sempre repetia `Eu posso falar pois a conheço desde que era editora e a simplicidade não mudou.` parabéns pela entrevista!

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  7. Thaís Cavalheiro  04/07/2015 - 09:03

    Que bela entrevista! Só confirma a admiração que sempre tive pela Elda, profissional incrível e pessoa linda. Uma inspiração! Desejo a ela (mais) sucesso, sobretudo na vida.

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  8. Vera franco  04/07/2015 - 10:50

    Elda querida! Como é bom saber que você continua sendo essa mulher especial que sempre foi! Minha passagem pela Casa Claudia só me tras boas recordações de momentos compartilhados com voce! Aprendi muito não só como jornalista mas principalmente como pessoa! Voce é um ser iluminado! Te admiro demais! Bjs

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  9. Rodrigo Toledo  04/07/2015 - 12:28

    muito boa entrevista . E admiro muito vcs duas , Elda e Brenda

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  10. lela  04/07/2015 - 12:53

    Bela entrevista, parabéns.

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  11. Isabel Vieira  04/07/2015 - 17:23

    Parabéns pela entrevista, Elda e Brenda! Vocês me emocionaram, meninas! Elda, estou esperando seu livro ansiosamente. Sei que ele será um sucesso, como tudo o que você faz. Beijos, com carinho.

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  12. Angela Tasca  04/07/2015 - 23:31

    Parabens Elda aguardo seu livro, que bela entrevista,beijos…

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  13. sueli cozza  05/07/2015 - 00:36

    Tive o prazer de trabalhar com a Elda. Sempre linda, leve , firme e com uma luz e bondade incríveis. Mulher batalhadora , “teve” que passar por esta experiência… Deus escolhe os caminhos. Precisamos de gente como ela ainda com a gente. Não era a hora.
    Muitas bençãos e obrigada por tudo, querida Chefe e Amiga.

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  14. Raquel Manha  06/07/2015 - 16:14

    Na condição de sua assistente, na época, me encantava ser surpreendida diariamente com sua sabedoria e sua energia. Acompanhei de perto o ocorrido, da queda ao renascimento, e pude concluir que “aquilo que não me derruba, me fortalece” é uma verdade. Mais uma vez fui surpreendida. Sua recuperação foi a colheita gloriosa daquilo que ela verdadeiramente representa: um ser humano extraordinário. Parabéns Brenda e Elda – Duas mulheres excepcionais.

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  15. isoldaMelo  02/01/2016 - 19:01

    Incrivel força de vontade e coragem de vencer. Lindo texto .Nós também ficamos com um pouco de coragem . Até da alma, do espirito. Nunca devemos perder a vontade de viver.

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