A medicina é machista?

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Noticias  |  4 Comentários

Em 2010, numa pesquisa feita pela australiana Universidade de Melbourne, descobriu-se que as mulheres especialistas ganham 16% a menos que seus colegas na Medicina. (Os pesquisadores retiraram variáveis de horas trabalhadas, anos de experiência e outros fatores. Ou seja: é comparação limpa, pau a pau.) Citada em artigo do jornal inglês The Guardian, a pesquisa é só uma das muitas mostras de que, entre os médicos, as mulheres ainda têm uma longa batalha pela frente. “Mas muita coisa mudou para melhor nas últimas décadas”, diz a cardiologista Jeane Mike Tsutsui.

Jeane Tsutsui- Fleury_quadrado

Jeane, 45 anos, é uma das duas mulheres do corpo de diretores executivos do Grupo Fleury que respondem ao presidente, Carlos Marinelli. Segundo dados da própria empresa, o Fleury tem 80% de mulheres entre seus empregados e 50% no seu quadro diretor. Além disso, faz parte do pequeno grupo de 2% das maiores empresas do Brasil (2% das mil maiores, por faturamento) que teve mulher na presidência. Vivien Rosso, primeira mulher a dirigir o grupo, saiu no ano passado para assumir a liderança do Hospital A.C. Camargo.

Como se combinam esses dois extremos: uma área de trabalho que parece valorizar mais os homens do que as mulheres (Medicina) com uma empresa que se esforça para ser mais igualitária em termos de gênero? Esta foi, basicamente, a primeira pergunta da conversa que tive com Jeane.

Denúncias de assédios nas faculdades, pesquisas mostrando que há desigualdade salarial… A medicina é machista?

Já foi mais do que é. Eu participei da primeira turma de mulheres a morar em casa de estudante no campus da USP de Ribeirão Preto. Naquela época, os meninos namoravam as garotas da Farmácia e da Enfermagem. Os estudantes diziam que as alunas da Medicina não eram bonitas. A razão para não serem bonitas, segundo eles? Elas não tinham tempo para se arrumar e se cuidar. Era uma brincadeira da época, mas tem um monte de preconceito aí com as alunas de pelo menos três cursos. E, isso, tenho certeza, está mudando.

Na sua opinião, quais as razões do machismo?

Não sou uma especialista no assunto, mas imagino que tenha a ver com a intensidade do curso e da profissão. Além de ser de período integral, o curso é dos mais longos. Para ser cardiologista, a pessoa precisa de 12 anos de formação. Na cirurgia, onde há poucas mulheres, existe até um fator que nos limita fisicamente. Em muitos tipos de cirurgia, os médicos utilizam um pesado avental de chumbo por várias horas. Não é fácil e certamente é mais difícil para as mulheres. Outra coisa, claro, é a relação do médico com sua agenda. Muitas colegas minhas decidiram ir para o consultório, onde elas têm mais controle sobre o tempo que gastam no trabalho e com a família. A agenda é mais flexível.

Qual carreira é mais intensa? A da médica ou da executiva?

As duas são bem intensas. Sou uma executiva atípica, que teve uma longa carreira acadêmica anterior. Na verdade, ainda tenho laços com o Incor, como orientadora de pós-graduação. Para a minha área na empresa, que envolve conhecimento e inovação, o vínculo com a academia é importante. A academia exigiu que eu me mudasse para os Estados Unidos, fui research fellow da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos. Foram dois anos e, de alguma maneira, eu e meu marido conseguimos administrar um casamento à distância. A carreira executiva naturalmente exige muito também. Tenho a responsabilidade de liderar 1,7 mil médicos e quase 3 mil colaboradores da área da saúde. Uma carreira intensa exige uma rede de apoio e suporte. Eu tive a sorte de ter um marido que sempre apoiou a minha carreira. E vice-versa, acho (rsrs). Ele também é médico.

E filhos?

Eu não tive filho porque não aconteceu. Se tivesse, acho que minha vida seria bem mais dura do que é hoje. Por outro lado, muitas amigas com filhos foram estudar no exterior. O que fizeram? Levaram a família. Aqui mesmo, na minha equipe, uma das diretoras tem gêmeos, cachorro e dois gatos (rsrs). Acho que dois fatores são importantes para a mulher quando falamos de carreira: apoio da família e certeza do que se quer. Não existe modelo pronto, mas quando se tem suporte e clareza, foco, não acho impossível. Para falar a verdade, eu nunca dei muita importância a questões de preconceito de gênero na minha profissão. Mas, hoje, vejo que é nosso papel, da geração que entrou em massa no mercado de trabalho, pensar sobre isso. Refletir sobre o que aconteceu conosco é uma forma de deixar um legado para as mais jovens.

 

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mai
21
2015

As mulheres não são incompetentes, mas a gente vive dizendo isso sem pensar

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Noticias  |  0 Comentários

O Jurídico de Saias foi criado em 2009 por catorze amigas, advogadas e executivas. Na segunda reunião do grupo, que debate mulheres, mundo corporativo e jurídico, já eram mais de 30. Seis anos de existência e já existe blog (de acesso restrito), um livro comemorativo e um painel de discussão, de 2011, com a ativista Cherie Blair, mulher do britânico Tony Blair, da Cherie Blair Foundation for Women.

No café da Livraria Fnac de Pinheiros, em São Paulo, na companhia do publicitário Caio Coimbra, entrevistei a fundadora do grupo, a advogada Josie Jardim, e uma das associadas, a advogada Livia Azevedo. Ambas são executivas de carreira. Josie, hoje diretora jurídica para o Brasil da Amil, passou por GE, Motorola e Amazon. Lívia, general counsel do Walmart Brasil, já trabalhou na GE e na C&A.

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O Jurídico de Saias foi pioneiro na era dos grupos de gênero em redes sociais. O que vocês conversam nele que não conversam num grupo misto de advogados?

Josie: o Jurídico de Saias funciona como uma rede de proteção, um grupo em que a confiança entre as pessoas é absoluta. Tem gente pedindo socorro porque ficou sem babá. Outra que pergunta se alguém conhece a fundo a legislação inglesa porque ela precisa tirar algumas dúvidas…

Sem receio de parecer incompetente?

Josie: no Jurídico de Saias, temos total liberdade para dividir o conhecimento e as dificuldades. Uma das grandes mentiras sobre mulher é que elas se ajudam pouco. Nada. São muito solidárias, boas de network.

Livia: a rapidez e a solidariedade das pessoas é maior, muito maior, do que a gente encontra num grupo profissional.

O que este grupo faz pelas mulheres em geral? E pelas advogadas?

Josie: além do que já falamos, o grupo debate a vida corporativa. É duro sobreviver no mundo corporativo sendo mulher. Peraí, vamos tirar o vodu, né? (rsrs) É difícil, mas é possível mudar. Eu tive sorte, acho, e gosto da ideia de retribuir. Por exemplo, dividir aquelas experiências que são clássicos do machismo, quando os homens olham para você e automaticamente pedem para que seja responsável pela ata da reunião. Eu aprendi a tirar sarro disso… Outra coisa: pode ser um preconceito contra a mulher que decide parar de trabalhar, mas eu fico na torcida para que elas não parem. Dorme menos, mas dá para trabalhar e ter filhos! Assim como dá para não ter filhos.

Livia: a gente é de uma geração que foi avançando e não discutiu muita coisa. Compartilhamos pouco, é preciso dizer às mulheres que é possível.

Josie: verdade. Minha filha, de 21 anos, por exemplo, tem muita clareza sobre algumas questões de gênero. Ela é absolutamente contra o assédio e a favor da campanha Chega de Fiu-fiu (da jornalista Jules Faria, do blog Think Olga). Eu, por outro lado, cresci ouvindo assobios e isso nunca me incomodou. Mas entendo a posição da minha filha.

Qual foi a grande questão da geração de vocês, a primeira com um número maior de executivas nas grandes empresas?

Livia: acho que estávamos só seguindo o conselho das mães: “Minha filha, não dependa de homem nenhum…”

Josie: isso! A minha mãe, hoje com 84 anos, parou de trabalhar para cuidar dos filhos, mas é feminista, sempre foi. Ela me criou da mesma maneira com que criou meus quatro irmãos, todos homens. E olha que eu sou caçula.

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E hoje, o que dá para fazer para melhorar a promoção das mulheres no mundo corporativo?

Livia: muita coisa. O momento de contratação é chave. Se não prestarmos atenção, vamos apenas replicar o modelo existente, que é bastante masculino. Precisamos assegurar que as mulheres entrem na corporação e possam avançar dentro dela.

Josie: As mulheres vão e vão, mas não sabem como chegar ao topo da pirâmide… É natural do ser humano procurar os iguais. Homem contrata mais homens. E mesmo as mulheres que estiveram muito sozinhas lá em cima podem se comportar de maneira masculina. Eu, por exemplo, não tenho dúvida que me comportei de um jeito masculino em alguns momentos. Até hoje, não gosto dessa história de ficar falando de qualidade de vida… É o seguinte: a gente precisa parar de se definir pelos 9 meses de gravidez. É importante? É. Interrompe a carreira? Sim. Mas você volta e pronto. Não podemos nos limitar a essa questão da maternidade x trabalho. Eu tenho 48 anos, tive dois filhos em duas décadas da vida corporativa. Não estou dizendo que a questão do balanço entre vida pessoal e profissional está resolvida para mim, mas também não é a questão principal. Eu acredito que existe um desvio do protecionismo que acaba prejudicando as mulheres dentro de uma empresa. Licença de maternidade de 6 meses? Por que não de 3 meses para a mãe e de 3 para o pai? Por que horário flexível só para mulheres?

Livia: podemos fazer muitas coisas, principalmente se estamos em cargos de liderança. Podemos pedir à empresa que nos abra os números de gênero. Quantas mulheres? Quantos homens? Quais os cargos? Quais os salários? Outra coisa: podemos forçar a curva. Por exemplo, na cadeia de fornecedores, eu sempre pergunto pelas mulheres. Quantas mulheres tal fornecedor tem na direção? Costumo escolher uma mulher como ponto de contato na negociação com um fornecedor, sempre que possível. É um jeito de forçar a curva. E quem força a curva é o cliente grande. É ele que inspira a mudança em toda a cadeia.

Josie: importante pensar na discriminação que a gente não percebe. É supercomum a gente ouvir gestores falando: “Aqui, não tem discriminação de homem e mulher porque eu uso o critério da competência”. Aí, você vai ver e ele não tem uma mulher na diretoria. Quer dizer que as mulheres são todas incompetentes?

 

mai
13
2015

8 fatos assombrosos sobre trabalho e mulher

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Noticias  |  0 Comentários

1. Metade das brasileiras está no mercado de trabalho, algo próximo da média mundial. Nos anos 50, éramos 13%. Segundo a consultoria Booz & Company, uma participação 20% maior das mulheres (o que nos aproximaria da taxa masculina) poderia dar ao país um crescimento de 9 pontos no PIB.

2. No Brasil, o salário das mulheres costuma ser de 70% do salário masculino. (Em São Paulo, a distância diminui dez pontos percentuais.) Com mais de 12 anos de escola (o equivalente ao ensino médio), a mulher recebe quase metade do salário do homem.

3. 40% das executivas bem sucedidas não têm filhos contra 19% dos homens, segundo pesquisa de Betânia Tanure.

4. Não temos mais do que 15 mulheres na presidência da lista das 500 maiores empresas do país.

5. Em média, no mundo, as mulheres ganham 24% a menos do que os homens. “Quando elas têm filhos, o gap é ainda maior, pula para até 35%, como acontece no sudeste asiático”, diz o relatório da ONU Progress.

6. Na França e na Suécia, ao longo da vida, a expectativa de ganho da mulher é de 31% a menos do que os homens. Na Alemanha, de 49% e na Turquia, de 75%.

7. 83% dos trabalhadores domésticos do mundo são mulheres (no Brasil, são 90%).

8. Segundo levantamento de 2014, nas seis mais influentes instituições econômicas mundiais, a presença das mulheres nos boards continua minúscula: vai de 4 a 6%.

abr
30
2015
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