A revolução de costumes das jovens feministas

Por Aline Khouri  |  entrevistas feministas, Noticias  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalJovens e modernas, as novas feministas brigam por uma liberdade de comportamento, que envolve questões estéticas e filosóficas. Exigem o direito de dispor do corpo (e da sexualidade) sem se submeterem a padrões de qualquer tipo. As jovens feministas são empolgadas e engajadas. Fazem barulho com campanhas de protestos virtuais, desenvolvidas em um piscar de olhos, e estão conferindo um novo tom ao discurso feminista. Assim são as novas feministas, segundo o olhar da antropóloga Lia Zanotta Machado, professora da Universidade de Brasília e autora do livro Feminismo em Moviment. “É um movimento que tem uma preocupação menor em propor políticas públicas ou de criticar às atividades governamentais, do que revolucionar os costumes”, disse a antropóloga e feminista de carteirinha Lia Zanotta Machado.

Com outra linguagem e uma comunicação mais abrangente, essas jovens estão sendo responsáveis por aumentar o número de simpatizantes pela causa. “A novidade é que temos jovens homens feministas”, disse Lia na entrevista abaixo. A luta está cada vez maior, mais ampla. Não é só pela legalização do aborto, mas por uma educação não homofóbica, contra o racismo e qualquer forma de descriminalização sexual. Ou simplesmente, pela liberdade de cada um se vestir como quer.

O feminismo no Brasil mudou?

O feminismo da década de 70 cresceu, se organizou em ONGS e desenvolveu propostas de políticas públicas junto ao governo. A mobilização ocorria pelos direitos da democracia. As mulheres se organizavam para ter direito à fala. Eram grupos mais ou menos reduzidos que tinham visibilidade e que, portanto, a relação com o Estado era muito forte. Tinham propostas de mudar políticas públicas, pensar nos direitos das mulheres no governo democrático. Desde os anos 2000, você tem um borbulhar entre jovens abertas para outro tipo de feminismo. É um movimento que tem uma preocupação menor em propor políticas públicas ou de criticar às atividades governamentais, do que revolucionar os costumes, eu diria.

A maior mudança foi na forma de agir?

Quando querem, elas fazem críticas, vão pras ruas, organizam a Marcha das Vadias, por exemplo, criam sites e blogs, e também estão dentro da universidade. São mais pontuais na crítica direta. Foi o caso da reação diante da pesquisa do IPEA ( Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que indicava que mais de 65% da população acredita que a roupa que a mulher usa é motivo para estupro). Rapidamente surgiu a campanha na internet “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, que teve milhares de adesões. Elas usam uma linguagem ultramoderna, estão presentes em plataformas como blogs, que se mantém. Há também integrantes que vem e vão, ou seja, é um movimento mais fluente que o do passado, tanto para aparecer como para desaparecer. Por isso, eu diria que talvez seja menos organizado.

O tipo de público engajado no feminismo mudou?

Hoje temos muitas jovens e não só de mulheres heterossexuais. Há grupos de homens jovens e de lésbicas, por exemplo.

Isso acontece por que o foco mudou?

No começo do feminismo dos anos 70 e 80 eram três pautas principais: contracepção, aborto e violência. A partir daí surgiram as delegacias especializadas nos anos 83, 85…foram criados conselhos dos direitos das mulheres. Hoje elas se unem muito em torno do sentimento de discriminação que sofrem no dia a dia por terem um comportamento diferente do convencional.

A questão do trabalho não aparecia ou não aparece como uma pauta a ser reivindicada?

O trabalho sempre aparece, mas não com uma força tão grande. No feminismo tradicional, é constante a necessidade de as mulheres terem creches e salários iguais aos dos homens. Isso nunca some. Porém elas são atualmente mais movidas pela discriminação vivida no dia a dia em diversos ambientes, dentro e fora de casa. Elas sentem essa discriminação – que muitas vezes parte dos próprios jovens ao redor – em relação ao que elas vestem e como se comportam. Elas querem liberdade de andar na rua como quiserem e na hora que quiserem. Querem que lésbicas possam ser lésbicas. Tem uma novidade, a questão cisgênero…não falavámos disso nos anos 80 e 90. Elas respondem a essa discriminação nos blogs.

A questão do gênero passou a ser mais forte?

Sim, é muito forte. Para essas feministas, a possibilidade de ter qualquer gênero, seja heterossexual ou homossexual, é muito importante, tanto para meninas de classes populares como para as de classes mais altas. Para elas, sexualidade é liberdade e não uma questão de moralidade. Elas não querem seguir padrões seja ele qual for. Agora apareceu a ideia do amor livre. Enfim, ela é dona do corpo.

A defesa pelo direito de ser dona do próprio corpo inclui a luta contra a criminalização do aborto?

As jovens estão realmente propondo essa autonomia do corpo e da aparência contra a discriminação e contra a terrível tragédia da criminalização do aborto no Brasil.

Quando a questão da descriminalização do aborto passou a fazer parte da luta de fato?

As políticas públicas propostas no governo FHC (Fernando Henrique Cardoso) e no governo Lula fizeram com que as feministas passassem a pensar que, além da questão da violência, era importante discutir a legalização do aborto. As feministas conquistaram vários interlocutores e organizamos contatos com juristas e médicos. Usaram a Conferência Nacional de para as Mulheres (feita pela primeira vez no governo Lula) para colocar o aborto na pauta do governo. A conferência era para discutir educação e saúde, além de articular um modo de repercussão. Ali não estava a questão do aborto, fomos nós, as feministas, durante a conferência, que propusemos. Eram aproximadamente 2500 mulheres. Desse total apenas 200 votaram contra o aborto. Demonstraram que havia um ambiente propício para abraçar a essa questão polêmica. Polêmica porque na história do Brasil há uma relação muito grande com a Igreja Católica.

O que aconteceu depois?

Conseguimos o apoio do Executivo. Queríamos que fosse uma lei do Executivo. Mas no início dos anos 2000 houve um crescimento grande de políticos ligados às igrejas evangélicas. Essas igrejas se proliferaram muito nessa época. Acredito que a religiosidade em si não diminui de forma nenhuma o direito das mulheres, mas os políticos desses movimentos traçaram linhas moralistas enormes. Possuem uma proposta salvacionista. Não se pode falar de gênero, de educação contra discriminação das mulheres, de educação contra a homofobia e o racismo.

Exatamente como os evangélicos atrapalharam o desenrolar de uma política pública para isso?

Conseguimos apoio do Executivo, que estava lá durante a Comissão Triparte, mas com a mudança da câmera dos deputados entrou um presidente que vinha da bancada evangélica. Ele colocou nessa comissão três representantes contra o aborto. A Comissão andou, fez a minuta do projeto, que deveria ser entregue para a Jandira Feghali (médica e integrante do Partido Comunista do Brasil), que já estava fazendo uma análise das diversas propostas de legalização do aborto em tramitação na Câmara. Era uma proposta razoável. Aí houve aquele momento do mensalão e uma negociação pesadíssima com o governo que retirou o apoio para evitar críticas demasiadas da CNBB e da bancada evangélica. A minuta de legalização foi entregue em 2005, mas não avançamos devido a pressão da bancada evangélica e da Igreja Católica.

 

Como as feministas se colocam na defesa do aborto?

Nunca as feministas propõem aborto como uma solução, mas como uma forma de resolver situações pontuais que ninguém controla. A mulher não pode ser obrigada a manter uma gravidez, cuja responsabilidade sobra mais para ela do que para o homem. Ela tem de ser educada para usar os métodos contraceptivos, mas temos de ressaltar que os métodos contraceptivos falham, assim como os humanos, que podem esquecer, por exemplo, de tomar o anticoncepcional. As mulheres não aceitam continuar com uma gravidez indesejada e abortam clandestinamente mesmo sem condições de segurança. É uma tragédia inominável o que está acontecendo no Brasil. Muitas mulheres morrem em decorrência de um procedimento como esse. Existem outras alternativas mais seguras, como a pílula abortiva – o Citotec –, que está cada vez mais proibida. É injusto com a mulher. Quanto mais pobre você for, mais vulnerável às condições mórbidas, à perda de saúde e morte. Quanto mais clandestino o aborto, mais perigoso.

Mas o número de mortes em decorrência ao aborto diminuiu na última década?

Se o número de mortes por aborto diminuiu um pouco no Brasil foi por causa do Citotec. A legalização do aborto não é só pela saúde da mulher, mas pela dignidade, respeito e igualdade de gênero. A criminalização não impede o aborto porque as mulheres hoje luta pelo tipo de vida que querem, podem e merecem.

O feminismo de hoje é mais amplo do que antes? Estou me referindo a heterogeneidade de seus integrantes.

O feminismo é um guarda-chuva que abriga muitos grupos. Nos anos 90, apareceram grupos espontâneos de mulheres negras, que faziam atividades contra a discriminação, para falar sobre seus direitos. Depois se organizam em ONGS com estatuto e identidade mais definida. As lésbicas estavam lá, em vários grupos, mas, se não me engano, uma rede de mulheres só de lésbicas surgiu nos anos 2000. No Brasil, nós não fomos um feminismo branco como se diz que fomos. Tínhamos um feminismo bastante heterogêneo, com uma variedade enorme, só que elas não tinham lutas específicas para cada grupo de mulheres.

E hoje como está?

Tenho a impressão de que hoje a diversidade das mulheres tem um peso cada vez mais importante. As feministas brasileiras discutem abertamente sobre a heterogeneidade nos movimentos. Jovens, movimento LGBT, negras, todas essas questões aparecem, não só nas redes sociais, como na forma de estudo, teoria e análise. O fato de essa questão fazer parte do passado do feminismo foi muito importante. As jovens de hoje absorveram isso de uma forma nova. Temos grupos de blogueiras feministas negras e outros grupos de blogueiras feministas não negras e todas se posicionam contra o racismo, contra a educação homofóbica, lesbofóbica, enfim… a ideia da diversidade aparece tanto naquelas ONGS surgidas no passado, que continuam fazendo interlocução forte com o governo, como entre essas jovens blogueiras, que querem fazer uma revolução nas redes sociais.

mar
01
2016

“O aborto não é uma questão de opinião, mas de saúde”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas, Noticias  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalA escritora independente Aline Valek, de 29 anos, escolheu a ficção científica para extravasar sua visão feminista do mundo. Em 2013, organizou o livro de contos Universo Desconstruído, que foi publicado na internet para leitura gratuita. “O objetivo é mostrar que mulheres escrevem ficção científica e que esse gênero pode servir como ferramenta para questionar a sociedade atual ­– mesmo imaginando futuros distantes e fantásticos”, disse Aline, colunista da Carta Capital e dona de blog homônimo. A coletânea de contos chamou atenção por ser o primeiro livro de ficção científica feminista no Brasil. Abaixo ela conta as dificuldades que a mulher tem de estar no mercado literário em pé de igualdade com os homens. E avisa: “o feminismo não tem inimigos.’ O que ele combate não é exatamente uma pessoa ou um grupo de pessoas, mas “uma cultura de opressão”.

 Qual é a sua percepção de feminismo?  Você se encaixa em uma corrente específica  do movimento?

​Percebo o feminismo como uma questão de sobrevivência, não só para mim, mas para diversas mulheres em condições diferentes da minha. Não me identifico com uma corrente específica, porque também entendo que minhas vivências e visões de mundo acabam moldando meu próprio ​feminismo. Acredito que, por serem tão diversas as mulheres, o feminismo deve abranger a luta de todas elas em suas especificidades, porque é importante a visibilidade dessas pautas específicas e principalmente das vozes que as reivindicam.

Quem inspira você no Brasil?

A Jules (Juliana de Farias) do site Think Olga, por sua grande capacidade de realização, de ir além do discurso e conseguir concretizar projetos incríveis.​

O feminismo tem um inimigo?

É complicado falar em “inimigo” porque o que se combate não é exatamente uma pessoa ou um grupo de pessoas, e sim uma ideia, uma cultura.​ É preciso apontar para os pontos onde essa cultura de opressão se manifesta (quem se beneficia dela e quem a reforça) para que as pessoas se conscientizem de que tudo que é socialmente construído pode ser igualmente desconstruído.

Os grupos de mulheres negras, trans, lésbicas, entre outras, cresceram bastante, mas ainda enfrentam uma opressão sistemática . Por que você acha que isso ocorre?

O machismo não é a única força opressora atuando na sociedade. O racismo é outro sistema muito poderoso que desfavorece sistematicamente pessoas negras. E quando você se encontra na intersecção entre duas ou mais forças, sofre discriminação de diferentes frentes e está sujeita a vários tipos de violência. É o que acontece quando você é uma mulher negra. Uma mulher gorda, ou trans, ou lésbica, ou com alguma deficiência física ou mental, vai sofrer diferentes formas de violência ou até mesmo ser menos levada a sério do que uma mulher branca, ou magra, ou sem deficiência. Todas estamos no caminho do rolo do compressor, mas somos atingidas de formas diferentes.

Para você, quais são as principais reivindicações feministas hoje?

Basicamente, o direito sermos ouvidas, de pensarmos e de nos expressarmos. Também pelo direito à educação, à não discriminação no trabalho, ao próprio corpo,​ de não sermos mortas, agredidas, assediadas ou violentadas… Temos o direito a uma representação não estereotipada na mídia, de não sermos desumanizadas ou tratadas como objetos por quem quer que seja.

Gostaria que você comentasse sobre a descriminalização do aborto no Brasil. Por que ela é tão necessária? Acredita que há uma percepção equivocada sobre esse assunto?

A descriminalização do aborto é importante porque aborto não é questão de opinião nem de polícia, e sim de saúde pública.​ As mulheres simplesmente não vão parar de abortar, mas se o aborto não for descriminalizado, não vão parar de morrer. Com o aborto legalizado, será possível oferecer um atendimento digno às mulheres que escolherem interromper uma gestação para, dessa forma, não morrerem na clandestinidade. Mantendo as coisas como estão, não se preserva vida nenhuma, pelo contrário, se condena mulheres à morte.

Falando um pouco da sua profissão. Você participou de um debate na Flip sobre Mulheres Escritoras. Que tipo de obstáculos você enfrentou ou ainda enfrenta?

Tenho percebido que ser mulher escritora significa não poder falar apenas do meu trabalho ou de literatura em si, mas das dificuldades de ser escritora, de questões relacionadas a gênero, ou até, em casos mais absurdos, do que caracteriza uma “literatura feminina”. É um obstáculo poder transcender essas questões e debater literatura de igual para igual com autores homens. Há ​muitos obstáculos e não é só no meio literário, mas na vida.

O que você quer dizer com isso?

Ser mulher é participar de uma corrida de obstáculos sem linha de chegada. E se a literatura está na vida, esses obstáculos obviamente são transportados para o trabalho, como a dificuldade de ser levada a sério ou a dificuldade de alcançar alguma independência financeira.

Você pode me contar um pouco sobre a coletânea Universo Desconstruído. Como surgiu essa proposta de fazer uma ficção científica feminista?

O projeto surgiu de uma insatisfação, por gostarmos do gênero da ficção científica, mas também de nos sentirmos agredidas com os estereótipos femininos e até com a ausência de mulheres nas histórias. O objetivo do Universo Desconstruído é mostrar que mulheres escrevem ficção científica e que esse gênero pode servir como ferramenta para questionar a sociedade atual ­– mesmo imaginando futuros distantes e fantásticos.

 

fev
29
2016

“Nós podemos ter tudo. Mas não todos os dias”

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Família, Noticias  |  0 Comentários

A indústria de beleza e as mulheres  têm estado numa dança nervosa nos últimos três anos. Desde 2012, Natura, Boticário, L’Oreal, Avon, Procter (na lista das dez maiores empresas de perfumes, cremes, maquiagem e xampu do país), vêm participando de um jogo de troca das suas diretoras e VPs.

Na primeira leva, Monica Gregori saía da Natura, Tatiana Ponce ia pra Nívea,  Roberta Santana, ex-Unilever e ex-Flora, chegava à L’Oreal. Alessandra Ginante chegava à Avon como VP de RH. Dois anos depois, Marise Barroso, ex-presidente da Masisa, assumia o marketing da Avon. Em 2015, Gabriela Onofre passava a assinar Johnson em vez de Procter & Gamble.

Na semana de Natal, fim do ano, mais uma sócia no clube: Andrea Álvares deixava a diretoria geral da categoria de salgados na América do Sul da Pepsico para assumir a vice-presidência de marketing da empresa de cosméticos Natura.

No Brasil, Andrea já tinha sido presidente da Divisão Bebidas da Pepsico. Uma semana antes de trocar de empresa,  ela falou com o site Mulheres Incríveis. Veja no que estava pensando antes de sair de férias com a família e de assumir seu novo cargo na Natura.

 

Andrea Alvares, da Pepsico para Natura Foto: Daniela Toviansky                                                             Andrea Alvares: da Pepsico para a Natura

Foto: Daniela Toviansky

 

 

Achei corajoso você dizer que a dimensão do trabalho é tão importante quanto a de ser mãe.

Nunca trabalhei só pelo dinheiro. Trabalho porque sou feliz trabalhando. Assim como tive três filhos porque gostava e gosto da ideia de família grande. O fato de eu reconhecer que elas são dimensões igualmente importantes para mim é justamente o que me ajuda a ter energia na hora de buscar soluções de conciliação. Sou canceriana, gosto dos filhos grudados em mim, mas tenho consciência de que tenho que criá-los pra vida, pro mundo. Não dizem que isso é fundamental?

Quem mais colabora com você?

Meu ex-marido é a figura principal.  Nos separamos mas somos parceiros de vida. Minha mãe e minha ex-sogra sempre entram em cena quando precisamos. Além disso, meus filhos têm uma babá há 13 anos. Quando fui expatriada, em 2006, a babá foi comigo. Eu já tinha recusado morar fora do Brasil antes porque não daria para combinar com a vida da família. Por falar em babá: acho que as novas leis dos empregados domésticos vão mudar o Brasil para melhor. Vão exigir que os homens participem mais do cuidado das crianças.

Você está na linha de frente do Grupo Mulheres do Brasil, liderado pela empresária Luiza Trajano, ao lado da Duda Kertesz, da Johnson,  da Chieko Aoki, da Sonia Hess e da Denise Damiani, consultora de finanças, só para citar algumas. Na sua visão, o que este grupo, que já tem mais de 500 membros, pode fazer pelas mulheres e pelo país?

Acho importante ajudar a transformar paradigmas e estereótipos em relação à mulher. Precisamos criar modelos alternativos aos da mãe e da boazuda. Reduzir a mulher à figura de mãe é muito pouco. Mesmo sabendo que ser mãe é formar pessoas para o mundo, tarefa mais do que importante, existem outras possibilidades. E até dentro do papel de mãe, estereotipamos: a mãe é superprotetora ou é histérica.  No outro extremo, a brasileira é sedutora, supersexy. A Andrea Chamma, entre outras participantes do grupo, está tocando o projeto de formar palestrantes que mostrem modelos diferentes e possíveis de liderança feminina.

 O Brasil está entre os países com baixas taxas de participação feminina na liderança das empresas. Entre 20 a 30% nos cargos de direção pra cima. O que você acha que está emperrando?

Acho que essa não é uma questão brasileira apenas. Nem no país mais igualitário do mundo, a Noruega, existe a proporção ideal, de 50% a 50%, de homens e mulheres nos cargos de direção. Acredito que parte desse quadro pode ser explicado pela inércia de um padrão cultural que define papéis sociais e econômicos muito diferentes para homens e mulheres. Historicamente, o papel da mulher era do cuidado, da educação, manutenção do sistema familiar. O do homem foi o papel econômico. Do homem, é esperado prover; da mulher, cuidar. A baixa expectativa que a sociedade tem sobre as mulheres, que não cobradas para ser poderosas e ter muito dinheiro, atua de um jeito curioso. Ela nos dá uma certa liberdade para sermos mais autênticas e exigentes, para buscarmos mais propósito no que fazemos. Ao mesmo tempo, limita nossas possibilidades de ascensão.

O grande desafio é ajustar os papéis do homem e da mulher e assegurar que eles sejam acolhidos na sociedade e nas empresas. As empresas já sabem que, na guerra pela busca de talentos, não dá para abrir mão dos talentos femininos. Além disso, a lógica atual de governança das corporações, mais associada a padrões de conservação do que de destruição, está ficando mais sincronizada com um jeito que a gente considera feminino de entender o mundo.  Vai haver um ajuste do modus operandi para um ambiente mais flexível, acredito.

As empresas têm um papel importante nisso, não? Em acelerar o processo de  empoderamento das mulheres…

Com certeza. As empresas estavam muito moldadas por uma cultura anglo-saxã masculina, com códigos rígidos de comportamento. Agora, acredito que elas passam a respeitar mais a diversidade e a humanizar o ambiente de trabalho. E isso vai ser positivo tanto para homens quanto para mulheres. É muito bom ver homens falando que não poderiam ir àquela reunião porque já tinham um compromisso importante do filho na agenda… As empresas podem reconhecer que é possível e legítimo que os homens se envolvam cada vez mais com o papel de pai e marido. Isso está acontecendo. Tudo bem que há quatro, cinco meses, eu era a única mulher, num total de cinco executivos, numa rodada de negociação entre empresas. Por outro lado, na mesma reunião, um CEO chegou atrasado porque tinha comparecido a uma reunião com a professora da filha. Temos que valorizar os homens que assumem papéis não convencionais. São tão corajosos quanto as sufragistas.

Como você vê o movimento de empoderamento feminino?

Há cinco anos, quando virei presidente de Bebidas no Brasil, eu desconfiava um pouco dessa questão de luta de gênero. Eu me pautava pela ideia de que a competência é que definia os movimentos de carreira. Mas depois que passei a integrar o grupo de mulheres criado pela ministra Izabella Teixeira, do Meio-Ambiente [Rede de Mulheres Brasileiras líderes pela Sustentabilidade] é  que entendi que existe desigualdade nas relações de trabalho e que eu tenho um papel na diminuição das barreiras, embora nunca as tenha percebido na minha carreira. Nos últimos dez anos, tive, nas metas pessoais, o objetivo de  aumentar o número de mulheres na liderança. 

E no que você acredita hoje?

O que define a evolução da humanidade é a colaboração. Homens e mulheres, acredito, têm energias diferentes, mas não acho que os homens não tenham dentro de si a capacidade de ternura e as mulheres sejam incapazes de serem agressivas, por exemplo. Claro que temos uma carga cultural que herdamos, mas não estamos mais caçando, não estamos mais naquela época. O desafio, para mim, é saber como preservar a diferença e ir para um lugar com mais equidade. Como sair de uma sociedade patriarcal para uma sociedade mista? Tá todo mundo tentando acertar. Somos muito cruéis no julgamento de modo geral. Podíamos ser mais gentis.

Você tem uma filha adolescente. No colégio dela, já existe um coletivo feminista. O que você acha das bandeiras do feminismo jovem? A que luta contra o assédio, por exemplo?
O novo traz medo e reações extremadas. De homens e de mulheres. Eu acho que as meninas vão assumir os temas que são importantes para elas. Vão encontrar um caminho próprio, diferente do nosso [Andrea tem 44 anos]. Em relação ao papel dos homens nisso: acho que temos que compor uma agenda que os inclua.  Vamos criar condições para que todos possam desenvolver seu pleno potencial? Sempre ouço com preocupação essa coisa de “somos melhores que eles”. Temos que parar de apontar dedos.

jan
10
2016
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