Vamos falar da Dilma?

Por Brenda Fucuta  |  Entrevistas, Estudos  |  0 Comentários

O Brasil é um país machista? É. Os dados coletados em múltiplas pesquisas de opinião ou em relatórios sócio-demográficos não deixam dúvida: as mulheres têm menos poder (são maioria no eleitorado, minoria absoluta nos cargos de poder), ganham menos (a hora da mulher vale pelo menos 2 reais a menos do que a dos homens) e são mais agredidas no Brasil. Trata-se de uma constatação, não de um manifesto.

Quando o principal líder de um país machista é uma mulher, espera-se que as pessoas não se esqueçam disso quando querem criticá-lo. É o que tem acontecido. Quanto mais a presidente perde popularidade, mais fica sexista a crítica ao seu desempenho. Começou com “autoritária” e, na semana passada, estava em “vagabunda”.

Eu acho que está na hora de a gente falar da Dilma. Não para defendê-la como presidente (pelo menos, não é o meu papel aqui no blog), mas para lembrar que o jeito que tratamos uma mulher presidente tem a ver com o jeito  que tratamos as mulheres no Brasil: mal.

Uma das pessoas que mais gosto de ouvir sobre “violência contra as mulheres” é a vice-presidente de RH da Avon Brasil, Alessandra Ginante. A Avon tem apoiado, há bastante tempo, antes mesmo de ter Alessandra como funcionária, o combate à agressão contra as brasileiras. Mas, desde a chegada dessa executiva à empresa, a causa ganhou uma abordagem mais moderna. Então, foi à Alessandra que recorri para conversar sobre Dilma, internet e sexismo.

Alessandra Ginante, VP da Avon acredita que as críticas à presidente são sexistas Foto: Leonardo Rodrigues

Alessandra Ginante, VP da Avon          Foto: Leonardo Rodrigues

Na semana passada, circulou nas redes sociais um adesivo que sugere a presidente da República sendo violada por bombas de gasolina. Liberdade de expressão? Sexismo?

Primeiro: acredito que um país democrático deve garantir o direito de um cidadão manifestar suas opiniões. Sejam opiniões de apoio ou de crítica aos dirigentes. Mas, neste caso, vejo, sim, um viés sexista. Têm sido frequentes as críticas desrespeitosas aos presidentes anteriores. Mesmo assim, não usamos o mesmo tipo de imagem para julgar um homem neste cargo. A criação do adesivo com a imagem da presidente da República, que tem conotação sexual e incita um crime, é um ato ofensivo e de violência contra a mulher.

Pesquisa lançada pela Avon alerta para o potencial de violência das mulheres na internet. Você acha que esse episódio é um exemplo disso?

 Como o adesivo estava à venda em um site, rapidamente o assunto se espalhou nas redes e gerou uma grande repercussão. No entanto, se analisarmos a repercussão – tanto da imprensa, formadores de opinião e até mesmo dos internautas, sem entrar na questão política a favor ou contra o governo – percebemos que é quase unânime o repúdio a esse tipo de ofensa pelo fato de a presidente ser uma mulher.

Em que situações as mulheres estão sendo agredidas ou se colocando em risco quando falamos do ambiente de internet? 

O Instituto Avon realiza um trabalho bem consistente de combate à violência contra a mulher desde 2008, com pesquisas anuais sobre o tema. No ano passado, fizemos um estudo em parceria com o Instituto Data Popular com foco nos jovens e na violência contra a mulher no ambiente digital. 96% das pessoas que participaram do estudo acreditam que ainda existe machismo no País e 78% das mulheres que responderam a pesquisa já passaram por situações de assédio em locais públicos. É impressionante ver como a cultura da diferença de gênero ainda está presente mesmo entre os jovens, que utilizam mais a internet do que os outros.

Segundo as repórteres Juliana Diógenes e Isabella Palhares, do Estadão, no ano passado 224 pessoas procuraram o serviço de ajuda SaferNet para se defender de agressões como o revenge porn (o pornô vingativo)… 

Sim, estamos vendo muitas e graves agressões e humilhações contra a mulher, como exibição de vídeos e fotos íntimas que vazam entre usuários. 32% das mulheres e 41% dos homens recebem ou já receberam imagens ou vídeos de mulheres nuas conhecidas. 11% das mulheres e 28% dos homens confessam que repassam ou repassaram esse conteúdo. Mesmo os jovens têm dificuldade para entender o que pode ser considerado abuso ou uma forma de violência neste ambiente. O controle do parceiro na internet, a submissão e a invasão de privacidade, por exemplo, não são vistos por muitos como forma de violência. O estudo constatou que 25% dos jovens já olharam e-mail, Facebook ou outra rede social sem autorização do parceiro. Por isso, é importante que abusos e crimes na internet e formas de punição também estejam na pauta de discussões sobre violência contra a mulher.

jul
07
2015

Vamos falar sobre o luto?

Por Brenda Fucuta  |  Estudos, Família  |  2 Comentários

Por Cynthia de Almeida

A pergunta foi feita, primeiro, nas nossas redes sociais. Sete amigas, que como eu haviam enfrentado a dor da perda de uma pessoa querida (e quem já não passou por isso?), queriam muito falar sobre o luto e imaginaram que talvez o mundo também quisesse. Assim, surgiu o projeto. A Mariane Maciel, nossa mentora e inspiradora, teve a ideia de criar um site muito simples com a pergunta/convite para que as pessoas dessem depoimentos sobre suas experiências. A primeira resposta chegou poucos minutos depois de o blog entrar no ar. Foi uma comoção e uma alegria. Como a Karina, a primeira a nos escrever sobre a perda de sua avó, 14 anos antes, outros 170 depoimentos chegaram e impactaram por sua intensidade e emoção. Em algum ponto, todos eles mencionavam a gratidão pela oportunidade de poder se expressar.

Somos duas jornalistas e cinco publicitárias. Além de mim e da Mariane, a Rita Almeida, Sandra Soares, Gisela Adissi, Amanda Thomaz e Fernanda Ferraz. Nenhuma de nós é terapeuta ou especialista em luto, mas, a partir da resposta da Karina e de todas as outras que vieram a seguir entendemos que , como profissionais de comunicação, poderíamos contribuir para quebrar o paradigma do silêncio em torno da morte. Depois de pesquisar referências e publicações sobre o tema, entrevistar especialistas e de formar grupos de conversa com quem enfrentara a morte de pais, filhos, maridos, irmãos, mulheres, amigos, namorados, vimos que na singularidade dos lutos, o desejo comum era muito simples: um lugar para falar e ser ouvido. Um espaço em que pudessem sentir que não estão sós na sua tristeza, não estão deslocados na cultura que celebra a vida e pretende ignorar a morte. Como disse a Renata, uma das depoentes no mini-doc que produzimos e que hoje é compartilhado e já tem quase 10 mil visualizações na rede, precisamos criar empatia no lugar da simpatia.

Sete mulheres e um projeto: compartilhar um tabu

A pergunta original Vamos Falar Sobre o Luto? hoje é o projeto de um site , uma plataforma digital de acolhimento para o luto, feito por quem viveu ou vive seu impacto. Queremos contemplar os enlutados (com compartilhamento de experiências, referências de apoio profissional ou de ajuda mútua e histórias inspiradores de quem conseguiu reiventar a própria vida) e também quem quer ajudar e não sabe como: família, amigos, empresas, colegas de trabalho. Nosso trabalho é voluntário mas precisamos de dinheiro para desenvolver e manter o site no ar. A vaquinha está na rede no site de crowdfunding benfeitoria.com/vamosfalarsobreoluto .

Contamos com a ajuda de quem se identifica e também acredita que falar é libertador.

 

Cynthia de Almeida é editora-convidada-fundadora do blog Mulheres Incríveis.

 

jul
01
2015

Depois dos 50, as mulheres brasileiras ficam invisíveis

Por Brenda Fucuta  |  Estudos  |  2 Comentários

Por Marcia Neder

Marcia Neder publica o livro que mostra a reinvenção da velhice pelas baby boomers

Marcia Neder publica livro que mostra a reinvenção do envelhecimento pelas baby boomers

Dá para acreditar que uma mulher poderosa, brilhante, presidente de uma grande indústria, ao ser entrevistada para o livro A Revolução das 7 Mulheres, se defina como “invisível” na sociedade? Mas é verdade. Afinal, ela tem 63 anos, chegou à maturidade, o que na cultura brasileira significa submergir em uma vala de invisibilidade. Como diz Marlene Bregman, 72 anos, consultora de planejamento estratégico da agência Leo Burnett, nas definições de target parece mágica, aos 49 anos desce uma cortina e é como se a idade parasse ali.

Depois dos 50, passamos a ser invisíveis na mídia, na moda, nas estratégias de marketing das empresas e para os homens. E também no mundo das pesquisas, como confirma Ana Paula Cortat, 49 anos, Chief Strategy Officer da agência Pereira & O’Dell: “Acima de 50 ela não se vê mesmo. Não está em lugar nenhum, nem nas estatísticas. As pesquisas estabelecem os 50 como idade de corte. Partem do princípio de que, a partir daí, nada vai mudar mais, é tudo a mesma coisa.”

Mas esse é um erro absurdo!

Ainda bem que há um grupo de mulheres que não dá bola nenhuma para isso, está revolucionando a própria vida e desmentindo esse estereótipo obsoleto. São as baby-boomers, nascidas no pós-guerra, de 1946 a 1964, que protagonizaram a Revolução Feminina no século 20 e estão fazendo uma segunda revolução silenciosa no século 21: reinventando o envelhecimento e criando um novo sentido para a maturidade.

O Brasil, que sempre foi um país jovem, está em acelerada transformação para um país maduro. Essa mudança demográfica provocará impactos dramáticos na cultura, na economia e nas políticas públicas. E o Brasil mais velho é predominantemente feminino, já que nossa expectativa de vida é quase 8 anos maior que a dos homens.

Nesse borrão crescente da Terceira Idade, esse grupo de mulheres revolucionárias e transformadoras se destaca. São ativas, bonitas, bem cuidadas, empreendedoras, produzem riqueza para o país, são influentes no meio em que atuam e têm um sólido poder de decisão e compra.

São muitas. E se dizem invisíveis!

Elas estão escondidas atrás de preconceitos, caricaturas e dois estereótipos opostos, a velhinha de cabeça branca saltitante na poça d’água e a madura periguete vestindo a roupa da filha. Nada contra a liberdade de cada mulher escolher ser o quiser. Afinal, liberdade foi a maior conquista dessa geração. Mas se perguntam: por que a pobreza da representação? Onde estão todas as outras?

Nesse novo Brasil maduro, a Terceira Idade ainda é vista como um borrão sem nuances. E vai perder dinheiro quem não conseguir enxergar o detalhe. Vai perder lucrativas oportunidades quem não for capaz de ver os vários segmentos maduros cada vez mais definidos, com necessidades específicas muito diferentes entre si. Decidi investigar a nova mulher madura porque considero o mais interessante e desafiador desses segmentos. E porque faço parte do grupo. Junto com a Club de Pesquisa, fizemos uma qualitativa que chegou a sete perfis que representam as mulheres 50+,60+ que estão criando uma nova verdade para a idade e criando um novo modelo de maturidade para as mais jovens. A Revolução das 7 Mulheres, meu livro, procura dar voz e visibilidade a essa geração revolucionária, surpreendente e apaixonante. Não é um livro para mulheres maduras, mas sobre mulheres maduras, para qualquer pessoa que quiser entender o que está acontecendo no Brasil de hoje.

Quem for curioso, vai se apaixonar também.

 

 

Marcia Neder, jornalista incrível, está lançando o livro A Revolução das 7 Mulheres, Editora SENAC, no dia 24 de junho, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi Faria Lima, São Paulo.

 

jun
18
2015
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