Ela cria cineastas no Xingu e preserva parte da história que estamos perdendo

Por Brenda Fucuta  |  Entrevistas, Estudos  |  0 Comentários

 

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O Parque Indígena do Xingu faz parte de uma fabulosa experiência antropológica em que passado, presente e futuro estão convivendo. Dezesseis povos diferentes habitam o território. Línguas distintas, costumes e comida diversas num pedaço de terra que fica no Mato Grosso, Amazônia Legal. Muitas das aldeias estão a dez horas da cidade mais próxima; outras, a uma, duas horas. De barco.

A cineasta e documentarista Mari Corrêa chegou ao Xingu em 1992. Estava com 29 anos de idade, morava num pequeno apartamento em Paris com o marido, francês, editava filmes e dava aulas no Ateliê Varan, de formação de documentaristas. Tinha, como futuro profissional, uma carreira que deveria passear entre o cinema e a publicidade.

Um simples convite para fazer um filme sobre a relação entre médicos e xamãs transferiu Mari para outra versão do seu próprio destino. Ela continuaria formando cineastas, mas seus alunos do Varan seriam, aos poucos, sendo substituídos por alunos do Xingu. Continuaria morando em Paris, no começo, mas passaria seis meses por ano no Brasil, naquele pedaço do Mato Grosso.

Seu primeiro filme, o documentário Xingu, O Corpo e Os Espíritos, demorou quatro anos para ser finalizado. Nesse período, Mari desenhou uma nova missão de vida: formar cineastas indígenas. Fazer isso com intensidade, com urgência até, para nos poupar de perder uma parte de nossa história. “Queria que eles usassem o audiovisual para contar suas próprias histórias, criar suas próprias narrativas e conservar viva a memória dos seus povos”, afirma ela.

Do primeiro ao último trabalho, o documentário Por onde Andam as Andorinhas, ela produziu, dirigiu e editou por volta de 30 filmes com alunos dos povos ikpeng, kisêdjê, huni kuin, ashaninka, manchineri, panará, maxakali, wamiri-atroari e xavante.

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Por quase 20 anos, Mari teve três endereços: São Paulo, Paris e as aldeias do Xingu, especialmente as do povo Ikpeng, para onde obrigatoriamente leva uma rede para dormir nas casas dos convidados. (As redes são consideradas itens tão pessoais quanto escova de dentes.)

Em São Paulo, onde mora atualmente com o filho Hélio, 21 anos, dirige a ong Instituto Catitu num pequeno e organizado escritório no bairro do Itaim Bibi. Lá, Mari trabalha com sua equipe de 3 assessoras e diversos colaboradores que contrata para as atividades de campo administra todos os projetos relacionados à formação audiovisual e à produção de documentários. O objetivo do instituto é empoderar os povos indígenas por meio das novas tecnologias e hoje ele atua também no Acre, onde desenvolveu, com a participação de crianças e jovens da Terra Indígena do Rio Humaitá, fronteira do Brasil com o Perú, o Manual das Crianças Huni Kui, um diário em livro e vídeo dos seus saberes e fazeres.

De 1999 a 2009, foi co-diretora da ONG Vídeo nas Aldeias. Ganhou prêmios, formou dezenas de cineastas indígenas até decidir criar o Catitu, que dá ênfase ao protagonismo feminino. Mari conta com o apoio institucional da embaixada norueguesa para tirar seu salário (“não é extraordinário, mas cobre meus custos de vida”), o pagamento dos funcionários e os projetos vitais para a ong. Como são muitos, busca o patrocínio das empresas e da cooperação internacional envolvendo as cansativas viagens da equipe aos territórios indígenas.

“As viagens são extremamente caras. O deslocamento envolve avião, barcos, ônibus”, conta ela, que chegou a fazer trajetos de mais de 7 dias carregando dezenas de quilos de equipamento de vídeo, além de filho, pequeno, e a bagagem pessoal.

O filho passou muitas de suas férias no Xingu e freqüentou escolas no Brasil e na França. “Foi uma loucura, não sei como demos conta”, lembra Mari. “Mas acho que sobrevivemos bem”. A principal razão de ter tido apenas um filho talvez tenha sido dificuldade em conciliar a educação de uma criança com tantas viagens. Foi um sacrifício pensar em abrir mão de uma família maior? “Não”, diz ela. “Eu fui arrebatada pelo Xingu na primeira vez que estive lá. Então, se você me pergunta o que perdi por ter esse modelo de vida, posso garantir que não perdi nada. Tive de fazer escolhas, mas não foram sacrifícios”, diz ela.

 

Mari Corrêa: aulas de audiovisual para os povos indígenas

Catitu e as mulheres

Demorou uma década para Mari começar a envolver as mulheres nas suas oficinas. Desde o começo, elas eram convidadas a participar, mas quase nenhuma aparecia.

“A comunicação entre as aldeias é difícil, o trajeto, longo, com muitas horas de barco sob o sol forte e outras tantas de carro em estradas esburacadas. Era preciso muita motivação para enfrentar a reticência de alguns maridos e os obstáculos do percurso, especialmente na hora de trazer os filhos”, conta Mari. “Além disso, as mulheres costumam ter menos contato com o mundo de fora, por isso falam pouco português e sentem falta de repertório para participar das conversas.” Natuyu, uma moça do povo Ikpeng, foi exceção. Aos 13 anos, em vez de casar, Natuyu foi incentivada pelos pais a fazer a oficina audiovisual. Os Ikpeng são grandes parceiros do instituto e de Mari. Suas aldeias abrigam o projeto Mawo, um dos trabalhos mais inovadores que o Catitu desenvolve na região: um centro de documentação digital, uma base de dados em que os Ikpeng documentam e registram a cultura e que pode ser consultada por toda a população.

Em 2009, junto com a cineasta Tata Amaral, Mari finalmente reuniu uma oficina só para as mulheres, 20 delas, de 15 a 70 anos. O exercício resultou no trabalho coletivo A Cutia e o Macaco, curta sobre uma lenda kawaieté. Natuyu foi a professora do grupo.

Quando a equipe do Catitu percebeu que as dificuldades para a participação das mulheres nas oficinas iam além da falta de tempo ou desenvoltura com o português, a ideia foi apoiar a organização das mulheres promovendo rodas de conversa entre as aldeias.

“A pedido delas, começamos a dar apoio ao movimento feminino. Daí, passamos a trabalhar não mais com 20 mas com 300 mulheres. Um salão alugado abrigou o encontro que finalmente reuniu mais de trezentas pessoas, a maioria mulheres. Ali conversaram como defender suas idéias, participar mais, aprender mais, se reunir mais, conversar mais. “Criamos então, em parceria com a Associação Yamurikumã, o projeto Rodas de Conversa das Mulheres Xinguanas para aproximar as mulheres, fortalecer as lideranças femininas e criar pautas.” Desde 2014, 550 mulheres de 14 aldeias já participaram dessas rodas.

Uma das questões que mais vem aparecendo nos debates é bem familiar às outras brasileiras. Trata-se do uso abusivo das imagens dos corpos femininos. “Elas estão bem indignadas com o jeito que os rapazes estão divulgando e compartilhando imagens de seus corpos durante os rituais tradicionais”, afirma a cineasta. Nesses rituais, embora paramentadas com acessórios, as mulheres costumam se apresentar com seios, nádegas e quadris expostos. Os rapazes aproveitam para gravá-las nos seus celulares. Dessa “brincadeira” saem montagens abusivas e compartilhamentos machistas.

“Nas oficinas, falamos bastante do uso ético das imagens, mas com a banalização da tecnologia, qualquer jovem vai e grava pedaços dos corpos das moças, fazem montagens e passam as imagens para os outros ou postam na internet.”

Uma nova geração de mulheres está surgindo no Xingu também. “Elas querem ter acesso ao que era oferecido para os homens: formações, viagens, intercâmbios, trabalhos, profissões. As mulheres indígenas, ao apropriar-se de novas tecnologias, poderiam fazer releituras do mundo em que vivem, do seu lugar na própria cultura, reafirmando-se como mulheres, como indígenas e também como jovens conectadas ao mundo contemporâneo.”


E as andorinhas?

Em 2015, Mari esteve com dois representantes das aldeias xinguanas, Yapatsiama e Tukupé Waurá, num dos painéis da sociedade civil da Cop 21, em Paris, a última grande conferência a discutir como o planeta sobreviverá. Foram apresentar um recente trabalho que o Catitu produziu em parceria com o Instituto Socioambiental, o ISA.

Para onde foram as andorinhas?, o documentário, registra o impacto climático pelos olhos dos moradores mais antigos do Xingu. “Em vez de catástrofes, falamos das pequenas e profundas mudanças que estão acontecendo com a vida dos moradores em função da mudança do clima.”

Em 22 minutos, os entrevistados de Mari mostram como as andorinhas estão deixando de anunciar as chuvas, como as pragas estão afetando os pés de pequis, como o calor que, de tão forte, cozinha os ovos das cigarras. Como a lagoa está vazia quando devia estar seca e como o rio está mais raso quando deveria estar abundante. “Não tem falta de água, mas tem a mudança do comportamento dela”, explica Mari. Os povos indígenas, que marcam suas estações com conceitos diferentes dos “ocidentais” (tempo de chuva, tempo de seca, tempo das cigarras, tempo do peixe gordo, tempo do ritual de furação de orelha…) estão preocupados. Nas roças, contam eles, muito se estraga antes de amadurecer. “Eles se perguntam se estamos comprometendo as futuras gerações com uma crise alimentar.” O próximo projeto da cineasta é documentar as mudanças climáticas no dia a dia do Xingu por um novo ângulo:  o ângulo dos responsáveis pelos quintais e pela comida. As mulheres.

Mais do trabalho de Mari Corrêa e do Instituto Catitu:

Site do Instituto Catitu:

http://institutocatitu.org.br/

 

https://vimeo.com/channels/hunikuin
Trecho do filme Para Onde Foram as Andorinhas?

 

mar
08
2016

Mulheres negras são mais vulneráveis

Por Barbara Bretanha  |  Entrevistas, entrevistas feministas, Estudos  |  1 Comentário

Na segunda conversa das série Entrevistas Feministas, a filósofa Djamila Ribeiro fala sobre racismo e feminismo à repórter Barbara Bretanha

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“Em quase todas as discussões sobre racismo, aparece alguém para dizer que já sofreu racismo por ser branco ou que conhece um amigo que sim.

Pessoa, esse texto é para você.

Uma amiga, na infância, uma vez, não deixou que eu e meus irmãos entrássemos na sua festa, apesar de nos ter convidado, porque seu tio não gostava de negros. E nos servia na calçada da casa dela até que, indignados, fomos embora. Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?”

Esse foi um dos últimos artigos da Djamila Ribeiro no Escritório Feminista da Carta Capital.

Filósofa pela Universidade Federal de São Paulo, tem se dedicado a dois temas: racismo e feminismo. Um, luta contra a discriminação das pessoas por ser negras. Os negros, um dos maiores grupos populacionais do país, têm menos de 60% da renda dos brancos (IBGE/Pnad); jovens negros têm 2,5 vezes mais chance de morrer assassinados do que os brancos.

Mas aí vamos a outro dos grupos pelos quais Djamila empresta seu nome, voz e corpo, as mulheres. Só para ficar no campo do trabalho: a renda da mulher é menor do que a dos homens; entre as 1000 maiores empresas do país, não há mais do que 20 mulheres na presidência.

 

Com a amiga Clara Averbuck, Djamila Ribeiro homenageia a dupla feminista americana Gloria Steinem e Dorothy Hughes em foto de Maria Ribeiro

Com a amiga Clara Averbuck, Djamila Ribeiro homenageia a dupla feminista americana Gloria Steinem e Dorothy Hughes em foto de Maria Ribeiro

O feminismo tem sido um assunto cada vez mais quente no país, principalmente entre os mais jovens. Na sua experiência, como as mais jovens entram em contato com o feminismo?
Por meio de blogs e sites. A internet não é a única maneira de estabelecer o contato com o assunto, mas é a que atinge mais pessoas. Tem também a formação de grupos, onde vejo meninas que ainda não estão na universidade e outras que entram em contato com alguns textos feministas e passam a criar coletivos nas faculdades.

Então, você concorda que a internet tem sido a principal porta de entrada?
Existem muitas organizações e militâncias, mas hoje as redes sociais são, sem dúvida, o maior instrumento de disseminação do feminismo, principalmente para meninas mais novas. Mas não dá para ficar só no virtual. Depois do primeiro contato, acho importante criar espaços coletivos, grupos físicos.

Quais as principais pautas desses grupos?

A descriminalização do aborto e a violência doméstica. O aborto é uma bandeira antiga, mas no Brasil, em particular, temos muita dificuldade de chegar a um debate sério sobre o assunto. Vivemos num estado supostamente laico, mas o debate é sempre levado pela religião. Conseguimos alguns avanços, como a lei Maria da Penha, na questão da violência doméstica. Acho que, de certa maneira, nossas pautas são históricas, continuam as mesmas.

Que tipo de impacto que essas ideias têm na mídia, na sua opinião?

Acho que jovens militantes têm trabalhos mais contínuos que a mídia oficial. A mídia tem discursos muito superficiais. Ela é obrigada a acompanhar os assuntos que estão em pauta e por isso alguns programas de TV trataram destes temas. A publicidade, acho, continua a reforçar os papéis estereotipados de gêneros. É a propaganda de cerveja que objetifica a mulher, propaganda de fralda que só tem mulher. Como se toda mulher fosse histérica e o homem não trocasse fralda.

O que acha de celebridades como Beyoncé e Emma Watson se pronunciarem a favor do feminismo?
Acho importante. Ao falar dessas questões, as celebridades ajudam a desmistificar o tema. Acho importante a Beyoncé falar da Chimamanda Ngozi Adichie em um discurso de premiação. Tenho certeza que muitos que assistiam nem sabiam quem era a Chimamanda. O lado ruim é que elas não têm conhecimento do feminismo militante, são pessoas ligadas à indústria cultural que usam isso para se promover, não pelo feminismo em si e por isso, ficam muito na superficialidade. Mas não dá para medir quem é feminista ou não. Acho que as pessoas são feministas na medida que podem, na medida que cabe.

E, na sua opinião, quais os grandes desafios do feminismo hoje?

Acho que conseguimos avançar em algumas coisas mas ainda existem algumas dificuldades. Por exemplo, a diferença entre as questões das mulheres negras de brancas de classe média. É o conceito do que chamamos de interseccionalidade, existem muitas mulheres ocupando lugares diferentes. A maior parte das vítimas de aborto são mulheres negras. Uma mulher branca em geral tem condições de pagar uma clínica para fazer um aborto, uma negra, não. 71% das vítimas de violência doméstica são mulheres negras. Somos mais vulneráveis, somos excluídas de muitos espaços, como as universidades, a TV.

nov
16
2015

Retrato da brasileira: 14% das mulheres ainda são domésticas e mais da metade dos partos não é natural

Por Brenda Fucuta  |  Entrevistas, Estudos, Noticias  |  0 Comentários

Em 1999, a deputada federal Luiza Erundina apresentou um projeto de lei ao parlamento pedindo a criação de um relatório sobre a situação socioeconômica das mulheres brasileiras. Transformado em lei no ano seguinte, o projeto da deputada virou um documento chamado RASEAM (Relatório Anual Socioeconômico da Mulher), cuja primeira edição foi lançada no ano passado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. Em 2015, a segunda edição veio mais curtinha. Mas, como a anterior, de estreia, reúne vários dados levantados em estudos públicos, como a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios), do IBGE. Exagerando, é um censo anual, versão pocket, com recorte de gênero. Linda Goulart, secretária executiva da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, teve a paciência de me explicar (várias vezes) alguns dos dados que, até hoje, me espantam sobre a desigualdade de gênero no país. Linda, uma jornalista que já trabalhou no Ministério da Educação e na Fundação Dom Cabral, deu a seguinte entrevista ao Mulheres Incríveis.

Segundo o relatório, a mulher recebe R$ 10 reais por hora trabalhada x R$ 12 reais para a hora do homem, em média, no Brasil. Como é feito esse cálculo? A conta inclui as horas trabalhadas em casa?

Sim, as mulheres recebem, em média, R$ 2 a menos que os homens por hora trabalhada. Conforme ela e ele estudam mais, a diferença aumenta. Com 12 anos ou mais de estudo, por exemplo, a diferença pela hora trabalhada chega a 34% a favor dos homens. O cálculo do rendimento-hora refere-se à média do rendimento do trabalho principal dividido pela média do número de horas trabalhadas. Não se consideram, nesse caso, outros rendimentos, como pensão ou aposentadoria. Também não se considera o trabalho não remunerado, o de casa.

Apesar de vermos homens da geração Y, nascidos nos anos 80, bastante comprometidos com o papel de pai, apenas 32% dos homens com mais de 16 anos realizam tarefas domésticas. Na sua visão, como isso impacta a mulher no mercado de trabalho?

Em afazeres domésticos, as mulheres gastam mais que o dobro de horas semanais do que os homens. São 20,8 horas das mulheres contra 10 horas dos homens na semana. Dentre as mulheres que estão ocupadas no mercado de trabalho, 58% também realizam afazeres domésticos, como cuidados dos filhos ou de idosos. Acredito que a divisão sexual do trabalho, que impõe às mulheres uma dupla jornada, impacta, sim, sua vida profissional. Para conciliar o trabalho profissional com o doméstico, as mulheres costumam buscar empregos com horários mais flexíveis ou com jornadas parciais.

Apesar da melhoria de renda para as brasileiras, nas últimas décadas, o número de empregadas domésticas no Brasil ainda é alto…

14% das mulheres brasileiras de 16 anos ou mais de idade estavam ocupadas no trabalho doméstico de acordo com os dados do PNAD de 2012. Estima-se que existam 6,3 milhões de trabalhadores domésticos no país. Deste total, 5,8 milhões são mulheres.

Ainda temos muitas domésticas adolescentes?

Em 2012, estimava-se que 100 mil meninas de 10 a 15 anos de idade estavam ocupadas em serviços domésticos.

6 a cada 10 pessoas que concluem a faculdade, no Brasil, são mulheres. Mas o RASEAM mostra que 65% das bolsas-ano de produtividade em pesquisa concedida pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) são para homens…

A inclusão das mulheres nas profissões científicas tem se dado em ritmo mais lento do que em outras áreas. A dificuldade em conciliar a grande dedicação exigida pela carreira de cientista e a maternidade e a dificuldade de acesso a posições de poder e a cargos de liderança no mercado de trabalho acabam sendo refletidas nos números apresentados, tendo em vista que as Bolsas de Produtividade evidenciam parte da estrutura de poder das universidades e centros de pesquisa do país. Os homens, refletindo também a divisão sexual do trabalho, são incentivados à dedicação ao trabalho produtivo e se ocupam menos dos afazeres domésticos, tendo disponibilidade de tempo para investir nos estudos, na carreira. Para promover o aumento da participação das mulheres, temos uma parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia e com o CNPQ, o Programa Mulher e Ciência [acaba de sair mais um conjunto de verbetes de cientistas brasileiras numa ação deste programa, o Pioneiras da Ciência ]. Outro programa foi o edital que lançamos no ano passado, o “Meninas e Jovens fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação”, que quer despertar o interesse das estudantes do sexo feminino do Ensino Médio e da Graduação por essas áreas.

O RASEAM volta a mostrar o crescimento da cesariana no país. Na sua opinião, o que acontece?

O Brasil é notoriamente conhecido pelo alto percentual de partos por cesariana. De acordo com dados do Ministério da Saúde, presentes no RASEAM, a cesariana alcançou quase 56% dos partos realizados no país em 2012. Uma das explicações para o aumento foi o relato de mulheres sobre o medo de sentir dor, revelado pelo estudo Nascer no Brasil, publicado em 2014 pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. Outro fator diz respeito ao entendimento de que o parto é um procedimento cirúrgico e não ‘natural’, fisiológico. Esse entendimento pode ser fortalecido já nas primeiras orientações pré-natais – e o argumento médico, em muitas vezes, sobrepõe o desejo, a escolha da mãe – sem dar conhecimento dos prós e contras de cada uma das possibilidades de parto.

 

ago
11
2015
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