“Nós podemos ter tudo. Mas não todos os dias”

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Família, Noticias  |  0 Comentários

A indústria de beleza e as mulheres  têm estado numa dança nervosa nos últimos três anos. Desde 2012, Natura, Boticário, L’Oreal, Avon, Procter (na lista das dez maiores empresas de perfumes, cremes, maquiagem e xampu do país), vêm participando de um jogo de troca das suas diretoras e VPs.

Na primeira leva, Monica Gregori saía da Natura, Tatiana Ponce ia pra Nívea,  Roberta Santana, ex-Unilever e ex-Flora, chegava à L’Oreal. Alessandra Ginante chegava à Avon como VP de RH. Dois anos depois, Marise Barroso, ex-presidente da Masisa, assumia o marketing da Avon. Em 2015, Gabriela Onofre passava a assinar Johnson em vez de Procter & Gamble.

Na semana de Natal, fim do ano, mais uma sócia no clube: Andrea Álvares deixava a diretoria geral da categoria de salgados na América do Sul da Pepsico para assumir a vice-presidência de marketing da empresa de cosméticos Natura.

No Brasil, Andrea já tinha sido presidente da Divisão Bebidas da Pepsico. Uma semana antes de trocar de empresa,  ela falou com o site Mulheres Incríveis. Veja no que estava pensando antes de sair de férias com a família e de assumir seu novo cargo na Natura.

 

Andrea Alvares, da Pepsico para Natura Foto: Daniela Toviansky                                                             Andrea Alvares: da Pepsico para a Natura

Foto: Daniela Toviansky

 

 

Achei corajoso você dizer que a dimensão do trabalho é tão importante quanto a de ser mãe.

Nunca trabalhei só pelo dinheiro. Trabalho porque sou feliz trabalhando. Assim como tive três filhos porque gostava e gosto da ideia de família grande. O fato de eu reconhecer que elas são dimensões igualmente importantes para mim é justamente o que me ajuda a ter energia na hora de buscar soluções de conciliação. Sou canceriana, gosto dos filhos grudados em mim, mas tenho consciência de que tenho que criá-los pra vida, pro mundo. Não dizem que isso é fundamental?

Quem mais colabora com você?

Meu ex-marido é a figura principal.  Nos separamos mas somos parceiros de vida. Minha mãe e minha ex-sogra sempre entram em cena quando precisamos. Além disso, meus filhos têm uma babá há 13 anos. Quando fui expatriada, em 2006, a babá foi comigo. Eu já tinha recusado morar fora do Brasil antes porque não daria para combinar com a vida da família. Por falar em babá: acho que as novas leis dos empregados domésticos vão mudar o Brasil para melhor. Vão exigir que os homens participem mais do cuidado das crianças.

Você está na linha de frente do Grupo Mulheres do Brasil, liderado pela empresária Luiza Trajano, ao lado da Duda Kertesz, da Johnson,  da Chieko Aoki, da Sonia Hess e da Denise Damiani, consultora de finanças, só para citar algumas. Na sua visão, o que este grupo, que já tem mais de 500 membros, pode fazer pelas mulheres e pelo país?

Acho importante ajudar a transformar paradigmas e estereótipos em relação à mulher. Precisamos criar modelos alternativos aos da mãe e da boazuda. Reduzir a mulher à figura de mãe é muito pouco. Mesmo sabendo que ser mãe é formar pessoas para o mundo, tarefa mais do que importante, existem outras possibilidades. E até dentro do papel de mãe, estereotipamos: a mãe é superprotetora ou é histérica.  No outro extremo, a brasileira é sedutora, supersexy. A Andrea Chamma, entre outras participantes do grupo, está tocando o projeto de formar palestrantes que mostrem modelos diferentes e possíveis de liderança feminina.

 O Brasil está entre os países com baixas taxas de participação feminina na liderança das empresas. Entre 20 a 30% nos cargos de direção pra cima. O que você acha que está emperrando?

Acho que essa não é uma questão brasileira apenas. Nem no país mais igualitário do mundo, a Noruega, existe a proporção ideal, de 50% a 50%, de homens e mulheres nos cargos de direção. Acredito que parte desse quadro pode ser explicado pela inércia de um padrão cultural que define papéis sociais e econômicos muito diferentes para homens e mulheres. Historicamente, o papel da mulher era do cuidado, da educação, manutenção do sistema familiar. O do homem foi o papel econômico. Do homem, é esperado prover; da mulher, cuidar. A baixa expectativa que a sociedade tem sobre as mulheres, que não cobradas para ser poderosas e ter muito dinheiro, atua de um jeito curioso. Ela nos dá uma certa liberdade para sermos mais autênticas e exigentes, para buscarmos mais propósito no que fazemos. Ao mesmo tempo, limita nossas possibilidades de ascensão.

O grande desafio é ajustar os papéis do homem e da mulher e assegurar que eles sejam acolhidos na sociedade e nas empresas. As empresas já sabem que, na guerra pela busca de talentos, não dá para abrir mão dos talentos femininos. Além disso, a lógica atual de governança das corporações, mais associada a padrões de conservação do que de destruição, está ficando mais sincronizada com um jeito que a gente considera feminino de entender o mundo.  Vai haver um ajuste do modus operandi para um ambiente mais flexível, acredito.

As empresas têm um papel importante nisso, não? Em acelerar o processo de  empoderamento das mulheres…

Com certeza. As empresas estavam muito moldadas por uma cultura anglo-saxã masculina, com códigos rígidos de comportamento. Agora, acredito que elas passam a respeitar mais a diversidade e a humanizar o ambiente de trabalho. E isso vai ser positivo tanto para homens quanto para mulheres. É muito bom ver homens falando que não poderiam ir àquela reunião porque já tinham um compromisso importante do filho na agenda… As empresas podem reconhecer que é possível e legítimo que os homens se envolvam cada vez mais com o papel de pai e marido. Isso está acontecendo. Tudo bem que há quatro, cinco meses, eu era a única mulher, num total de cinco executivos, numa rodada de negociação entre empresas. Por outro lado, na mesma reunião, um CEO chegou atrasado porque tinha comparecido a uma reunião com a professora da filha. Temos que valorizar os homens que assumem papéis não convencionais. São tão corajosos quanto as sufragistas.

Como você vê o movimento de empoderamento feminino?

Há cinco anos, quando virei presidente de Bebidas no Brasil, eu desconfiava um pouco dessa questão de luta de gênero. Eu me pautava pela ideia de que a competência é que definia os movimentos de carreira. Mas depois que passei a integrar o grupo de mulheres criado pela ministra Izabella Teixeira, do Meio-Ambiente [Rede de Mulheres Brasileiras líderes pela Sustentabilidade] é  que entendi que existe desigualdade nas relações de trabalho e que eu tenho um papel na diminuição das barreiras, embora nunca as tenha percebido na minha carreira. Nos últimos dez anos, tive, nas metas pessoais, o objetivo de  aumentar o número de mulheres na liderança. 

E no que você acredita hoje?

O que define a evolução da humanidade é a colaboração. Homens e mulheres, acredito, têm energias diferentes, mas não acho que os homens não tenham dentro de si a capacidade de ternura e as mulheres sejam incapazes de serem agressivas, por exemplo. Claro que temos uma carga cultural que herdamos, mas não estamos mais caçando, não estamos mais naquela época. O desafio, para mim, é saber como preservar a diferença e ir para um lugar com mais equidade. Como sair de uma sociedade patriarcal para uma sociedade mista? Tá todo mundo tentando acertar. Somos muito cruéis no julgamento de modo geral. Podíamos ser mais gentis.

Você tem uma filha adolescente. No colégio dela, já existe um coletivo feminista. O que você acha das bandeiras do feminismo jovem? A que luta contra o assédio, por exemplo?
O novo traz medo e reações extremadas. De homens e de mulheres. Eu acho que as meninas vão assumir os temas que são importantes para elas. Vão encontrar um caminho próprio, diferente do nosso [Andrea tem 44 anos]. Em relação ao papel dos homens nisso: acho que temos que compor uma agenda que os inclua.  Vamos criar condições para que todos possam desenvolver seu pleno potencial? Sempre ouço com preocupação essa coisa de “somos melhores que eles”. Temos que parar de apontar dedos.

jan
10
2016

Precisamos avançar no combate ao preconceito também

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Família  |  0 Comentários

Hoje é o Dia da Luta contra a Aids. É uma luta contra o HIV e a favor de quem carrega o vírus. Às vezes, acontece o contrário; o impacto diminui mas o preconceito permanece.

Gloria e Sandra: lutando pela inclusão dos jovens soropositivos

Gloria e Sandra: lutando pela inclusão dos jovens soropositivos

Duas mulheres que habitam o mesmo local de trabalho, o Hospital Emilio Ribas, centro de referência no tratamento e prevenção do HIV, enfrentaram um problema inédito anos atrás. Os bebês que se tratavam no hospital, aparentemente portadores de uma doença terminal, cresceram e se transformaram em crianças. Surpreendentemente, as crianças cresceram e viraram adolescentes. “Houve um avanço fabuloso no tratamento de remédios”, conta a pedagoga do Emílio Ribas, Sandra Santos, 47 anos, mãe de 3. “Mas o preconceito continua igual ao dos anos 80”.

Sandra e a infectologista Gloria Brunetti, 55, mãe de 2 filhos, fundadora e vice-presidente do VER- Voluntariado Emílio Ribas, tinham criado uma Brinquedoteca para seus pacientes crianças. Mas quando eles cresceram, precisaram de um novo espaço para dividir sentimentos e experiências. Premiadas pelo projeto com crianças, as duas investiram na Fundação Poder Jovem, que dá suporte a jovens e familiares que convivem com o HIV. Focado no atendimento a jovens de 13 a 25 anos, o projeto nasceu em 2007 dentro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Em 2014, deixou de ser projeto de sucesso para se tornar a primeira Fundação ativa no combate à AIDS, no Brasil, com foco em jovens portadores de HIV ou que convivem com soropositivos. Suas ações se desenrolam em três vertentes: prevenção, combate ao bullying e estigma social e, finalmente, incentivo na adesão do jovem ao tratamento antirretroviral.

O que motivou vocês a criar o projeto Poder Jovem?

Glória: antigamente, o hospital Emilio Ribas, onde trabalhamos, tinha apenas uma brinquedoteca para atender as crianças soropositivas. O que aconteceu foi que a sobrevida dos soropositivos veio aumentando e as crianças viraram adolescentes. Começamos a perceber que eles se reinternavam muitas vezes, pois não aderiam corretamente ao tratamento e a qualidade de vida era péssima. Deixavam de tomar o remédio quando viajavam, por exemplo, ou nos horários escolares, porque se sentiam constrangidos diante dos colegas. Outros motivos eram a rebeldia, família desestruturada e o medo do preconceito.

Sandra: foi exatamente para ajudar estes jovens a olhar a vida com mais perspectiva que Glória e eu unimos nossas áreas de conhecimento para criar o Poder Jovem, com base na experiência muito bem sucedida da Brinquedoteca.

Glória: além de tentar aumentar a adesão ao tratamento dos jovens que vivem com HIV, nós também atendemos aqueles que convivem com soropositivos e desenvolvemos trabalhos de prevençãode um modo geral. Os próprios jovens da Fundação se capacitam para falar para outros jovens, numa linguagem de fácil entendimento entre eles.

Vocês me contaram que entre os jovens brasileiros, diferentemente de outras faixas etárias, aumenta o contágio do HIV. Por quê?

Glória: de 2003 a 2013, homens na faixa etária de 13 a 19 anos tiveram aumento de mais de 50% de casos novos. Eram 298 novos pacientes em 2003 e foram para 513 em 2013. Nas meninas, esse número permanece estável, por volta de 404 casos. Acho que os motivos têm a ver com dois fatores principais. A ideia de invulnerabilidade típica da idade; o jovem se sente invencível e se arrisca mais. O segundo fator: o jovem de hoje, não teve contato com a tragédia inicial da aids, não viu a morte de vários amigos em condições difíceis, como a geração anterior. Percebo que muitos acreditam que a medicação antirretroviral resolve tudo. E não é assim: há um grande impacto na vida de quem se contamina. A medicação é diária e para o resto da vida. Isso exige disciplina, tem efeitos colaterais e há mudanças na qualidade de vida, mesmo quando tudo parece estar sob controle.

Na visão de vocês, o que é importante que mães e pais possam fazer em casa para alertar seus filhos sobre prevenção?

Sandra: esclarecer os riscos que seus filhos correm sem o uso de algum método de prevenção. Mas não é só isso. Acredito que os pais e escolas podem ajudar a combater o preconceito e o bullying dirigidos aos adolescentes soropositivos. Acabamos de fechar uma parceria de dois anos com a regional de ensino Centro Oeste da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo para fazer um trabalho de prevenção com 75 escolas da capital.

O que o projeto faz pelos jovens que procuram vocês?

Sandra: sinto que eles nos procuram pelo desejo de se sentir acolhidos, de ter alguém que escute suas angústias e frustrações, que os aceite dentro de suas limitações e que não os julgue. Houve uma evolução sem precedentes em relação à medicação, mas o mesmo não aconteceu no âmbito social. O preconceito é praticamente o mesmo dos anos 1980. Revelar que é soropositivo para o namorado ou namorada, por exemplo, é uma situação constrangedora que requer muita coragem pra quem tem tão pouca idade. Em muitos casos, os pais proíbem o namoro ou o parceiro espalha o caso para a escola inteira. Diante disso, é difícil para ele, se aceitar. Isso é conseguido quando uma rede familiar e social é construída ao seu redor. Na Fundação Poder Jovem, tentamos reforçar os laços existentes e criar espaços e situações para que novos laços sejam construídos.

Como vocês conciliam vida de ativista com vida familiar e profissional?

Glória: conto com apoio de meu marido e filhos para exercer mais este papel, o de ativista, além de médica e mãe. Mesmo que não seja uma data especial, sempre deixo uma flor na mesa ou um alguma coisa para saberem que, ainda que não fisicamente, estou por perto. E se existir uma situação em que minha presença é vital, paro tudo para estar com eles. Enfim, a sensibilidade tem que ser o guia. Com ela, vamos alternando as prioridades.

Sandra: atualmente trabalho das 7h às 14h no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, onde sou responsável pela sala do adolescente, e das 14h30 em diante, na Fundação Poder Jovem. O meu equilíbrio, encontro no amor que tenho pelo projeto! E o tempo? Quando se ama o que faz, o dia vira noite e a noite vira dia.

No final do dia, vocês se perguntam se tem valido a pena?

Gloria: nunca me perguntei se a chance de vencer ou de realmente alterar alguma realidade seria possível. Simplesmente fui questionando e lutando por algo. Para mim, é assim que funciona. No final, acredito que todos os envolvidos, da família aos colegas, se orgulham dos resultados que alcançamos.

Sandra: trabalhar com o projeto me privou por oito anos consecutivos de férias, finais de semanas, família e vida social. Isso foi necessário. Eu queria, por meio da convivência, entender os reais motivos que levavam esses jovens a desistir do tratamento com antirretrovirais. Esse foi o maior ganho que tive, de vida pessoal e profissional, por todas as experiências que vivi e compartilhei com eles.

nov
30
2015

Mulheres negras são mais vulneráveis

Por Barbara Bretanha  |  Entrevistas, entrevistas feministas, Estudos  |  1 Comentário

Na segunda conversa das série Entrevistas Feministas, a filósofa Djamila Ribeiro fala sobre racismo e feminismo à repórter Barbara Bretanha

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“Em quase todas as discussões sobre racismo, aparece alguém para dizer que já sofreu racismo por ser branco ou que conhece um amigo que sim.

Pessoa, esse texto é para você.

Uma amiga, na infância, uma vez, não deixou que eu e meus irmãos entrássemos na sua festa, apesar de nos ter convidado, porque seu tio não gostava de negros. E nos servia na calçada da casa dela até que, indignados, fomos embora. Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?”

Esse foi um dos últimos artigos da Djamila Ribeiro no Escritório Feminista da Carta Capital.

Filósofa pela Universidade Federal de São Paulo, tem se dedicado a dois temas: racismo e feminismo. Um, luta contra a discriminação das pessoas por ser negras. Os negros, um dos maiores grupos populacionais do país, têm menos de 60% da renda dos brancos (IBGE/Pnad); jovens negros têm 2,5 vezes mais chance de morrer assassinados do que os brancos.

Mas aí vamos a outro dos grupos pelos quais Djamila empresta seu nome, voz e corpo, as mulheres. Só para ficar no campo do trabalho: a renda da mulher é menor do que a dos homens; entre as 1000 maiores empresas do país, não há mais do que 20 mulheres na presidência.

 

Com a amiga Clara Averbuck, Djamila Ribeiro homenageia a dupla feminista americana Gloria Steinem e Dorothy Hughes em foto de Maria Ribeiro

Com a amiga Clara Averbuck, Djamila Ribeiro homenageia a dupla feminista americana Gloria Steinem e Dorothy Hughes em foto de Maria Ribeiro

O feminismo tem sido um assunto cada vez mais quente no país, principalmente entre os mais jovens. Na sua experiência, como as mais jovens entram em contato com o feminismo?
Por meio de blogs e sites. A internet não é a única maneira de estabelecer o contato com o assunto, mas é a que atinge mais pessoas. Tem também a formação de grupos, onde vejo meninas que ainda não estão na universidade e outras que entram em contato com alguns textos feministas e passam a criar coletivos nas faculdades.

Então, você concorda que a internet tem sido a principal porta de entrada?
Existem muitas organizações e militâncias, mas hoje as redes sociais são, sem dúvida, o maior instrumento de disseminação do feminismo, principalmente para meninas mais novas. Mas não dá para ficar só no virtual. Depois do primeiro contato, acho importante criar espaços coletivos, grupos físicos.

Quais as principais pautas desses grupos?

A descriminalização do aborto e a violência doméstica. O aborto é uma bandeira antiga, mas no Brasil, em particular, temos muita dificuldade de chegar a um debate sério sobre o assunto. Vivemos num estado supostamente laico, mas o debate é sempre levado pela religião. Conseguimos alguns avanços, como a lei Maria da Penha, na questão da violência doméstica. Acho que, de certa maneira, nossas pautas são históricas, continuam as mesmas.

Que tipo de impacto que essas ideias têm na mídia, na sua opinião?

Acho que jovens militantes têm trabalhos mais contínuos que a mídia oficial. A mídia tem discursos muito superficiais. Ela é obrigada a acompanhar os assuntos que estão em pauta e por isso alguns programas de TV trataram destes temas. A publicidade, acho, continua a reforçar os papéis estereotipados de gêneros. É a propaganda de cerveja que objetifica a mulher, propaganda de fralda que só tem mulher. Como se toda mulher fosse histérica e o homem não trocasse fralda.

O que acha de celebridades como Beyoncé e Emma Watson se pronunciarem a favor do feminismo?
Acho importante. Ao falar dessas questões, as celebridades ajudam a desmistificar o tema. Acho importante a Beyoncé falar da Chimamanda Ngozi Adichie em um discurso de premiação. Tenho certeza que muitos que assistiam nem sabiam quem era a Chimamanda. O lado ruim é que elas não têm conhecimento do feminismo militante, são pessoas ligadas à indústria cultural que usam isso para se promover, não pelo feminismo em si e por isso, ficam muito na superficialidade. Mas não dá para medir quem é feminista ou não. Acho que as pessoas são feministas na medida que podem, na medida que cabe.

E, na sua opinião, quais os grandes desafios do feminismo hoje?

Acho que conseguimos avançar em algumas coisas mas ainda existem algumas dificuldades. Por exemplo, a diferença entre as questões das mulheres negras de brancas de classe média. É o conceito do que chamamos de interseccionalidade, existem muitas mulheres ocupando lugares diferentes. A maior parte das vítimas de aborto são mulheres negras. Uma mulher branca em geral tem condições de pagar uma clínica para fazer um aborto, uma negra, não. 71% das vítimas de violência doméstica são mulheres negras. Somos mais vulneráveis, somos excluídas de muitos espaços, como as universidades, a TV.

nov
16
2015
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