“O aborto não é uma questão de opinião, mas de saúde”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas, Noticias  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalA escritora independente Aline Valek, de 29 anos, escolheu a ficção científica para extravasar sua visão feminista do mundo. Em 2013, organizou o livro de contos Universo Desconstruído, que foi publicado na internet para leitura gratuita. “O objetivo é mostrar que mulheres escrevem ficção científica e que esse gênero pode servir como ferramenta para questionar a sociedade atual ­– mesmo imaginando futuros distantes e fantásticos”, disse Aline, colunista da Carta Capital e dona de blog homônimo. A coletânea de contos chamou atenção por ser o primeiro livro de ficção científica feminista no Brasil. Abaixo ela conta as dificuldades que a mulher tem de estar no mercado literário em pé de igualdade com os homens. E avisa: “o feminismo não tem inimigos.’ O que ele combate não é exatamente uma pessoa ou um grupo de pessoas, mas “uma cultura de opressão”.

 Qual é a sua percepção de feminismo?  Você se encaixa em uma corrente específica  do movimento?

​Percebo o feminismo como uma questão de sobrevivência, não só para mim, mas para diversas mulheres em condições diferentes da minha. Não me identifico com uma corrente específica, porque também entendo que minhas vivências e visões de mundo acabam moldando meu próprio ​feminismo. Acredito que, por serem tão diversas as mulheres, o feminismo deve abranger a luta de todas elas em suas especificidades, porque é importante a visibilidade dessas pautas específicas e principalmente das vozes que as reivindicam.

Quem inspira você no Brasil?

A Jules (Juliana de Farias) do site Think Olga, por sua grande capacidade de realização, de ir além do discurso e conseguir concretizar projetos incríveis.​

O feminismo tem um inimigo?

É complicado falar em “inimigo” porque o que se combate não é exatamente uma pessoa ou um grupo de pessoas, e sim uma ideia, uma cultura.​ É preciso apontar para os pontos onde essa cultura de opressão se manifesta (quem se beneficia dela e quem a reforça) para que as pessoas se conscientizem de que tudo que é socialmente construído pode ser igualmente desconstruído.

Os grupos de mulheres negras, trans, lésbicas, entre outras, cresceram bastante, mas ainda enfrentam uma opressão sistemática . Por que você acha que isso ocorre?

O machismo não é a única força opressora atuando na sociedade. O racismo é outro sistema muito poderoso que desfavorece sistematicamente pessoas negras. E quando você se encontra na intersecção entre duas ou mais forças, sofre discriminação de diferentes frentes e está sujeita a vários tipos de violência. É o que acontece quando você é uma mulher negra. Uma mulher gorda, ou trans, ou lésbica, ou com alguma deficiência física ou mental, vai sofrer diferentes formas de violência ou até mesmo ser menos levada a sério do que uma mulher branca, ou magra, ou sem deficiência. Todas estamos no caminho do rolo do compressor, mas somos atingidas de formas diferentes.

Para você, quais são as principais reivindicações feministas hoje?

Basicamente, o direito sermos ouvidas, de pensarmos e de nos expressarmos. Também pelo direito à educação, à não discriminação no trabalho, ao próprio corpo,​ de não sermos mortas, agredidas, assediadas ou violentadas… Temos o direito a uma representação não estereotipada na mídia, de não sermos desumanizadas ou tratadas como objetos por quem quer que seja.

Gostaria que você comentasse sobre a descriminalização do aborto no Brasil. Por que ela é tão necessária? Acredita que há uma percepção equivocada sobre esse assunto?

A descriminalização do aborto é importante porque aborto não é questão de opinião nem de polícia, e sim de saúde pública.​ As mulheres simplesmente não vão parar de abortar, mas se o aborto não for descriminalizado, não vão parar de morrer. Com o aborto legalizado, será possível oferecer um atendimento digno às mulheres que escolherem interromper uma gestação para, dessa forma, não morrerem na clandestinidade. Mantendo as coisas como estão, não se preserva vida nenhuma, pelo contrário, se condena mulheres à morte.

Falando um pouco da sua profissão. Você participou de um debate na Flip sobre Mulheres Escritoras. Que tipo de obstáculos você enfrentou ou ainda enfrenta?

Tenho percebido que ser mulher escritora significa não poder falar apenas do meu trabalho ou de literatura em si, mas das dificuldades de ser escritora, de questões relacionadas a gênero, ou até, em casos mais absurdos, do que caracteriza uma “literatura feminina”. É um obstáculo poder transcender essas questões e debater literatura de igual para igual com autores homens. Há ​muitos obstáculos e não é só no meio literário, mas na vida.

O que você quer dizer com isso?

Ser mulher é participar de uma corrida de obstáculos sem linha de chegada. E se a literatura está na vida, esses obstáculos obviamente são transportados para o trabalho, como a dificuldade de ser levada a sério ou a dificuldade de alcançar alguma independência financeira.

Você pode me contar um pouco sobre a coletânea Universo Desconstruído. Como surgiu essa proposta de fazer uma ficção científica feminista?

O projeto surgiu de uma insatisfação, por gostarmos do gênero da ficção científica, mas também de nos sentirmos agredidas com os estereótipos femininos e até com a ausência de mulheres nas histórias. O objetivo do Universo Desconstruído é mostrar que mulheres escrevem ficção científica e que esse gênero pode servir como ferramenta para questionar a sociedade atual ­– mesmo imaginando futuros distantes e fantásticos.

 

fev
29
2016

Nossos corpos imperfeitos

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalHá quase dois anos, a fotógrafa Maria Ribeiro, 29 anos, convidou algumas amigas para posar para sua câmera. Em pouco tempo surgiram várias candidatas e um projeto pessoal, nada ambicioso, o “Nós, madalenas”, se expandiu e, graças a uma campanha de crowdfunding, se transformou em um livro. No total, foram 100 mulheres fotografadas: cada uma delas escolhia uma palavra para mostrar o que o feminismo representava em sua vida. Força, acolhimento, luta e libertação foram algumas das palavras o algumas das palavras escritas nos corpos das mulheres que participaram do projeto. Nesta entrevista, três fotografadas: Clara Averbuck, Djamila Ribeiro e Samantha Bader.

Você diz que sempre foi feminista. Gostaria de saber qual é a sua história com o movimento e sua percepção de feminismo.

Mesmo sem saber, eu sempre fui feminista pelas minhas ideias, pela minha forma de comportamento. A identificação com o movimento foi acontecendo gradualmente. Estou sempre vendo novas coisas e estudando. A questão da mulher é universal e sabemos que existe um problema sério em relação a gênero – não só no Brasil, como no mundo todo. Esse último ano foi o mais intenso para mim, pois através do projeto conheci muitas pessoas, outros projetos, blogs e reportagens que me enriqueceram muito, tanto como feminista quanto como artista. Para mim, o feminismo tem que ser um instrumento de libertação para que as mulheres façam suas escolhas conscientemente e se libertem tanto das cobranças internas quanto das externas.

Nos_madalenas_clara_averbuck-3887 copy

 

De onde surgiu a ideia do Nós, madalenas? Eu sou fotógrafa e feminista e há muito tempo e eu queria encontrar uma forma de unir essas duas coisas em um projeto pessoal. Chamei umas amigas e a gente fez algumas fotos. Depois fizemos um tumblr, aí outras pessoas queriam fazer, a amiga da amiga viu e quis fazer também e fomos crescendo. Encerramos a primeira fase do projeto, completamos 100 retratos e depois fizemos uma campanha de crowdfunding para lançar o livro. O livro tem todas essas fotos e um relato de cada uma das fotografadas.

Nos_madalenas_djamila_ribeiro-4033 copy

 

Além de trabalhar com o feminismo pela escolha das palavras nos corpos das mulheres, você optou pela fotografia sem retoques. Por quê? As fotografias são em preto e branco e não existe uso de programas como Photoshop. Todas as características que são consideradas pela mídia como imperfeições são deixadas como são: quilos a mais ou a menos, estrias, celulites, cicatrizes, marcas, está tudo ali. Acho que tem muito a ver com um objetivo meu: sou especializada em fotografia de mulheres e minha proposta é mostrar sempre a mulher como ela é, o corpo natural e real, não faço nenhuma modificação no corpo das mulheres e eu trouxe essas características para o projeto.

Meu objetivo é ter imagens de mulheres reais para desconstruir esse estereótipo das revistas que a gente vê toda semana nas bancas e que fazem as mulheres sofrerem por um objetivo impossível de ser alcançado porque aquilo não é real. O fato de as mulheres aceitarem as, entre aspas, imperfeições, mostrarem isso em uma imagem que será pública e aprenderem a se amar dessa forma é extremamente corajoso porque você vai contra todas imperfeições que a sociedade e a mídia colocam em cima da mulher e em torno do corpo perfeito.

Nos_madalenas_samantha_bader- copy

 

Você percebeu alguma mudança ou impacto na vida dessas mulheres depois de fotografadas? Sim. Comecei a ter contato com as histórias dessas pessoas e para muitas fazer esse retrato foi vencer muitas barreiras: se empoderar, se auto afirmar, até inaugurar uma nova fase da vida, ou pessoas que venceram muitos obstáculos para conseguir se expor.

fev
17
2016

“As mulheres negras estão falando. Será que você quer escutar?”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalQuando Stephanie Ribeiro, 22, entrou no curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-SP, ela não imaginava as agressões que sofreria ali. Uma das duas únicas alunas negras do curso, Stephanie começou a conviver com episódios de racismo. Certo dia, encontrou seu armário pichado com a frase “Não ligamos para as bostas que você posta no Facebook”. Em outra ocasião, quando a turma estava reunida para fazer um trabalho em grupo, ouviu de uma colega: “Não quero ser racista, mas já perceberam como negros normalmente fedem mais do que brancos? Têm um cheiro mais forte?”  Pensando em abandonar o curso Stephanie procurou a ajuda de uma psicóloga. “Queria persistir, era importante o espaço que eu tinha conquistado”, conta.

No final de 2013, Stephanie escreveu um texto chamado “Universidade opressora não passará e não calará” sobre a sua experiência como estudante negra. Produzido como uma tentativa de aliviar a angústia, o texto foi publicado na revista Fórum em maio de 2014 e a repercussão foi grande. A partir daí, Stephanie se tornou uma das mais conhecidas ativistas do feminismo das mulheres negras. Hoje, ela escreve para as revistas Confeitaria Mag, Capitolina, é colunista do site Blogueiras Negras e coordenadora do Imprensa Feminista. Além disso, Stephanie criou em 2015, em parceria com duas amigas, um site chamado Afronta que publica histórias de mulheres negras com o objetivo de empoderá-las.

Stephanie Ribeiro, feminista e ativista contra o preconceito racial

Stephanie Ribeiro, feminista e ativista contra o preconceito racial

Você está no quarto ano do curso. Como foi sua experiência?

É muito solitário, você olha para a sua sala e não vê pessoas como você. Esse confronto de realidade nunca tinha ocorrido comigo. Era o ambiente, o jeito que as pessoas falavam… Meus problemas na faculdade começaram na transição do primeiro para o segundo ano. Lembro que, numa semana apenas, dois professores falaram a respeito da cor da minha pele. Dói não se sentir confortável. Em se tratando de racismo, as pessoas não entendem que não é um problema individual, mas coletivo. É um problema geral.

Você acha que o fato de estar em uma universidade privada contribuiu para que esses esses episódios acontecessem?

Não é uma questão de universidade particular ou pública, mas de cursos superconcorridos e que acabam sendo elitizados. A barreira já começa no processo seletivo, no vestibular: quanto mais concorrido um curso é menos alunos pobres e negros ele vai ter. A universidade tem esse problema. Por isso, entendo que é importante que eu faça parte desse espaço, tradicionalmente branco. Fazer disso um ato de resistência é fundamental.

 

Sua história como militante comecou nessa época. Como você avalia o feminismo negro hoje? Quais são as questões mais importantes?

Acredito que as mulheres negras percorrem um caminho de busca pela igualdade em relação a outras mulheres, em diversos campos, como o trabalho por exemplo. Falta representatividade da mulher negra no trabalho, na revista de noiva, na mídia em geral. A pauta das mulheres negras é ter voz, falar como é ser a gente.Lembro que um dia eu estava assistindo ao Profissão Repórter e uma mulher branca tinha duas empregadas negras. Em algum momento, as lutas [das mulheres brancas e negras] ficam distintas.  Quando você é negra, existe uma dupla opressão: a do machismo e a do racismo. Nós viemos de um contexto diferente da mulher branca, a mulher negra tem uma história diferente em relação à opressão, ela carrega o peso da escravidão. Hoje, os textos estão aí, as mulheres negras estão falando… A questão é: Será que você está querendo escutar?

Para que serve o site Afronta?

Nossa ideia é contar histórias de mulheres negras respeitando a forma que elas enviam. Já publicamos até poesias. A cada história que recebemos fazemos uma ilustração para acompanhar e isso é uma forma de agradecermos. Precisamos que essas histórias sejam contadas por nós, pelas próprias mulheres negras. Em breve, teremos uma reunião para discutir os próximos passos do Afronta, queremos sair do meio virtual para publicar algo impresso.

 

fev
03
2016
Página 2 de 912345