“O novo feminismo é mais alegre”

Por Barbara Bretanha  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalO Brasil está vivendo “o terceiro momento do feminismo”, de acordo com a historiadora Luzia Margareth Rago, de 66 anos. Ela diz que temos aí uma nova geração, que sai às ruas sem medo de usar todos os recursos disponíveis (alguns muito lúdicos) para mostrar a que vieram. De lingerie à mostra, batom e salto alto, as jovens integrantes da Marcha das Vadias são um bom exemplo das novas feministas.

O movimento, criado no Canadá em abril de 2011, para protestar a ideia de que as vítimas de estupro teriam provocado a violência pela forma vestir e agir, chegou ao Brasil em um piscar de olhos – em junho do mesmo ano. Há um século a luta era outra tanto na forma como no argumento: as mulheres saiam às ruas de Nova York e Londres, com roupas fechadas até o pescoço, muitas vezes com os filhos pequenos no colo, para brigar pelo simples direito de votar. As “sufraggettes”, como eram chamadas mundo afora, lutavam pela inserção política, econômica e social da mulher, que só era permitida aos pais, maridos e irmãos.

Luzia faz questão de ressaltar o papel fundamental que as feministas do passado tiveram para que hoje movimentos, como a Marcha das Vadias, sejam possíveis. “O problema da minha geração era perder a virgindade. Hoje uma moça de 20 anos já mora sozinha sem estranhamento”, diz a historiadora. Na entrevista abaixo, ela reponde a 15 perguntas e afirma que as feministas atualmente falam de temas que antes eram varridos para baixo do tapete. Ressalta que isso é fruto de conquistas, que precisam estar presentes na memória das pessoas para que o feminismo continue sendo um movimento forte e representativo.

Como o feminismo se articula hoje?

O feminismo renasce na segunda metade década de 70, no Brasil. Se contarmos a partir desse período, diria que estamos em um terceiro momento. Analisando a história, temos muitos pontos positivos e alguns difíceis. Um patamar foi conquistado de crítica da misoginia, de denúncia da violência e de discussão sobre o aborto – que, na minha época, nem sequer se falava. O aborto não está descriminalizado ainda, mas existe uma luta. O tema – assim como o da violência doméstica – foi incluída na agenda pública, está nos debates e na mídia. O problema da minha geração era perder a virgindade, hoje uma moça de 20 anos já mora sozinha sem estranhamento. Isso é uma conquista enorme realizada em uma época em que não se tocava no assunto e os problemas eram varridos para debaixo do tapete.

Mudou a imagem do feminismo?
Conforme esses assuntos são discutidos mais abertamente, a imagem do feminismo foi mudando. É muito positivo que jovens se engajem, reivindiquem seus direitos. Mesmo assim existe um estigma: muitas mulheres acham que feminismo é besteira ou coisa de burguesa. Existe ainda uma imagem muita negativa da feminista. E também das feministas negras e indígenas.

Qual o perfil das novas feministas?

São jovens com coragem e vontade de lutar. Acho que elas deram uma dimensão mais lúdica aos protestos. Agora existe espaço para intervenções mais humoradas. Dá para fazer manifestação com teatro, performance, fotografia, banda. É mais alegre.

 No passado elas eram muito diferente?

O feminismo na época da ditadura não permitia tocar flauta – seria massacre generalizado. A Marcha das Vadias, por exemplo, eu acho o máximo. Vadia é quase como chamar de puta. É uma carga pesadíssima. Daí você tem centenas de jovens dizendo “então todas somos”. Esse movimento de reapropriação é bárbaro. É um momento para as jovens. Essas pessoas de 20 e poucos anos nasceram em outro patamar. Podem andar em uma calçada pavimentada pelas feministas anteriores, onde antes havia mato puro. Já tendo cinquenta anos, essa estrada permite que as jovens tirem a roupa na boa – o que é bom.

A senhora acha que as jovens de hoje não sabem disso?

Em um país como o Brasil, onde a memória histórica é muito curta, as pessoas não se dão conta que aquela calçada custou muito suor, sangue e movimento. Acho que falta um pouco – não só no feminismo, mas no anarquismo e em outros movimentos – de perspectiva histórica, de perceber que existe um processo. Há miopia.

O que essa miopia acarreta?

As pessoas que não tem consciência, que não se vinculam historicamente, ficam muito vulneráveis. Uma das estratégias do fascismo e do nazismo era justamente cortar vínculos com a tradição. Sem consciência, o sujeito fica à mercê do Estado. História é fundamental para construção da cidadania e continuidade dos valores.

As feministas mais jovens ignoram a história?
Na minha opinião, o feminismo agora está vivendo um momento de muita fragmentação política. Ele ainda é o único movimento que ainda tem unidade garantida, ou seja, em que pessoas conseguem fazer uma manifestação grande. Os novíssimos movimentos, como o Passe Livre, também conseguem fazer, mas a esquerda brasileira se pulverizou. O feminismo ainda tem certa coesão, que está ameaçada. As diferenças geracionais estão pesando. Existem questões em que precisamos pensar.

Que questões são essas?
Não quero falar sobre vitimização das mulheres. Quero falar das maneiras que elas transformaram o mundo. Acho que essas coisas estão acontecendo, mas falta teoria e linguagem. Os gregos tem a noção de parresía – coragem para se dizer a verdade, mesmo podendo ser condenado por isso. As mulheres tem muita coragem da verdade. Qualquer mulher no passado, para fazer qualquer coisa, tinha de brigar. Sem a palavra, a gente perde o fenômeno. Falta linguagem para essas práticas feministas que nos empoderam e que são éticas. Falta link com outras tradições. Isso é política da subjetividade. Uma coisa é emancipar as pessoas com base na ligação com o Estado, que se tornam portadoras de direitos. Isso não garante a formação de pessoas éticas. Precisamos de subjetividades éticas.

Qual é a ideia que se tem de uma feminista hoje?

É uma pessoa que não seja violenta, com valores éticos, solidária, e preocupada com o bem do mundo. O feminismo traz consigo não apenas luta do empoderamento, mas pela transformação das relações para liberar as mulheres do jugo da identidade que as confinava ao lar. Nós já nos autonomizamos. Temos uma presidenta, temos ministras. Esse patamar foi conquistado. O lado perverso é que o capitalismo neoliberal se apropriou disso e está dizendo: vocês são autônomas, sejam empresárias de si mesmas. Não fala de obedecer, fala de produzir mais, de dar mais lucro. É a teoria do capital humano formulada pela escola de Chicago na década de 50 e estamos vendo aí. Para o capital é interessante que não exista violência doméstica, porque aí as mulheres são mais produtivas. Em princípio é bom que as mulheres não apanhem. Mas a lógica de cooptação pelo capitalismo é terrível.

 Então feminismo e capital não andam juntos?
Para mim, o feminismo é anticapitalista. Nasceu na luta contra ditadura. Sempre foi um movimento de esquerda. Agora está em um momento em que pode ser cooptado pela direita caso venha a perder o vínculo histórico. Sem os valores e referências, perde o rumo. Se isso acontecer, a culpa não é da falta de infraestrutura ou de oportunidade, nem de sobrecarga de trabalho. A culpa será dessa mulher feminista, que tem autonomia. Não adianta uma feminista combativa, mas muito autoritária. Coronéis nunca mais. Formar jovens com esse perfil só vai prejudicar o movimento. Ninguém mais fala em feminismo, a gente fala em feminismos. Meu medo é que a gente chegue ao ponto em que diga que tem feminismo neoliberal.

Falando em perspectiva, como foi a história do feminismo?

Existem diferentes narrativas históricas. Por exemplo, de acordo com o grupo Mujeres Creando, da Bolívia, muito antes do feminismo europeu, as indígenas eram feministas. Existem diferentes narrativas histórias sobre o movimento.

O feminismo não tem uma história oficial?

Vou te contar a história “oficial”, mas é importante destacar que existem muitos outros discursos e críticas. O
feminismo nasceu no fim do século 18, época da revolução francesa e industrial, com figuras como as escritoras Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges. Elas diziam que os direitos universais foram criados para os homens, não para as mulheres, que não eram de fato universais. Surgiram nesse momento outros movimentos críticos do capitalismo urbano industrial. O feminismo se iniciou, também, com vertentes anarquistas e socialistas.

Como surgiu no Brasil?

No Brasil, no começo do século 19, Nívia Floresta é considerada nossa pioneira, pois traduziu a inglesa Wollstonecraft. Mas é no fim do século 19 que surgiu a primeira onda do movimento, com o engajamento de revistas, jornalistas e escritoras. Questionavam a organização de trabalho, o casamento – como a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida, que integrou o grupo que planejou a criação da Academia Brasileira de Letras. Depois, com a conquista do direito de voto, ele reflui. A segunda onda veio em 70 com as mulheres que saem da prisão, do PCdoB, do partido comunista.

 Mas o grande boom do feminismo não foi na década de 80?

Sim. Nessa época surgiram muitas organizações, como o Conselho Estadual da Condição Feminina (1982, em São Paulo) e o Galedés -Instituto da Mulher Negra (1988, em São Paulo), entre outras ONGs e núcleo de estudos.

Quando é introduzida a questão do gênero?

Na década de 90 entra a questão de gênero. Tem uma mudança na questão de pensar, que se pluraliza para discutir sobre as relações das mulheres com cada setor. Não tem como acabar a violência doméstica sem mudar a cabeça dos homens, por exemplo. Surgem, nos Estados Unidos, em meados de 90, as Riot Grrrls (ou Riot Girl) que falam de empoderamento para as meninas. O Riot e o Femen – fundado na Ucrânia, em 2008 – são a terceira onda.

 A mídia também avançou?

Hoje se tem mais abertura para falar de temas que antes não eram discutidos, mas existem muitos preconceitos ainda. Observamos isso no vocabulário empregado, o destaque que se dá para a notícia, onde o artigo aparece. Hoje vai a ministra fazer uma declaração e existe respeito. Mas, sem dúvida, o mundo é dos homens. Homem não precisa fazer esforço, pode ser gordo e careca. Mulher tem que vir perfeita, bonita, bem arrumada e inteligente. O mundo ainda é misógino. Mas também é filógino. Hoje se um homem te agarra, você vai à delegacia. Antes você ia para casa chorar. Isso é uma conquista. Se você não nomeia as coisas boas, elas se perdem. Não dá para pensar só no ruim. Precisamos lembrar de potencializar o positivo.

mar
03
2016

“O feminismo me ajudou a me entender”

Por Aline Khouri  |  Entrevistas, entrevistas feministas  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalNegra e nordestina, Jarid Arraes, 24 anos, começou a despertar para o feminismo quando foi para a Índia, há seis anos, fazer um trabalho voluntário em uma escola para meninas. Ao voltar para a cidade natal, Juazeiro do Norte, no Ceará, fundou o grupo de discussões Feministas do Cariri. Depois entrou para outro, o Pretas Simoa, mulheres negras também do Cariri.

“Foi o feminismo que me ajudou a entender. Entender a minha relação conturbada com meu cabelo, o fato de eu, às vezes, ter sentido vontade de fazer plástica para afinar o nariz e sempre clarear as fotos no Photoshop quando postava na internet. Eu não aceitava o que eu era”, disse Jarid, colunista da revista Fórum e autora do livro de cordel As Lendas de Dandara, uma heroína negra do Quilombo dos Palmares. Filha de mãe branca divorciada, ela cresceu se auto definindo como miscigenada, mas nunca como negra.

Hoje, ela mora em São Paulo, onde pouco a pouco solidifica-se como escritora. Sua missão é levar para o mundo histórias de mulheres, que em geral não são contadas. “São negras, nordestinas, lésbicas, trans…” Abaixo as 10 perguntas que fizemos para Jarid.

 O que é ser uma mulher negra no Brasil?

É até curioso falar disso porque, até há poucos anos, eu nem sabia que eu era negra, minha mãe é loira e meu pai, negro. Por ser miscigenada e conviver mais com minha mãe, acabava não tendo muita consciência da minha identidade racial. Isso foi algo que eu construí dentro da minha militância feminista. Tive contato com outras mulheres, que já militavam no movimento negro e elas me ajudaram a reconhecer que eu era negra porque até então eu dizia que eu era só miscigenada.

Qual foi a importância dessa tomada de consciência?

Foi um chamado que me fez acordar. Entendi a minha relação conturbada com meu cabelo, o fato de eu, às vezes, ter sentido vontade de fazer plástica para afinar o nariz e sempre clarear as fotos no Photoshop quando postava na internet. Eu não aceitava o que eu era. Uma militante disse que o Brasil teve uma política oficial de miscigenação porque a intenção do Estado era branquear a população. Senti o peso dessas palavras. Estava fazendo o mesmo jogo ao falar que não era negra. Comecei a entender tudo o que eu tinha passado na minha infância, todos os episódios de racismo que eu sofri. Antes de entender que eu era negra, estava a mercê de como os outros me enxergavam: eu era a pessoa do cabelo “ruim”, sem traços delicados. Muitas vezes, em casa, fui confundida com empregada ou babá porque minha família é branca.

Isso mudou seu olhar em geral?

Sim, mudou. Comecei a perceber que existe toda uma hipersexualização das mulheres negras. E que se acredita que elas não servem para relacionamentos sérios. Mais ainda: que existe uma lógica que defende que a mulher negra é mais forte do que a mulher branca. Muitas vezes, na fila do SUS somos preteridas até quando chegamos antes e isso gera vários abusos e negligências médicas. No mercado de trabalho, a exploração se revela em condições de subemprego, sem carteira assinada e com salários menores. Se você pegar todas as estatísticas sociais hoje no Brasil, as mulheres negras têm as piores colocações. Quando a mulher negra aparece na mídia, é de uma forma pejorativa, o que contribui para que esse quadro continue igual. Precisamos de uma boa representação de pessoas não brancas na TV. Isso que aconteceu com a Maju (Maria Júlio Coutinho, repórter de metereologia, foi vítima de comentários racistas na internet, em 2015), no Jornal Nacional, é só um sintoma do que a própria Globo construiu.

Você acha que isso acontece pela falta de oportunidade à educação?

Não é qualquer educação que vai fazer que se eduque contra o racismo. Minha mãe pagou colégio particular para mim e em todo esse tempo, na escola e na universidade, inclusive, eu nunca ouvi falar de história e cultura africana, nem sequer dos movimentos negros ou quilombos aqui no Brasil. Como a gente vai combater o racismo se a educação formal das escolas é racista? Aprendemos tudo sobre a Europa e Estados Unidos e nada sobre África. Uma educação que se debruçasse sobre isso já seria um começo.

Você acha que o feminismo atual avançou?

Uma característica muito positiva do feminismo atual é o conceito de interseccionalidade. Refiro-me a conseguir olhar para várias questões sociais como racismo e reforma agrária, mas ao mesmo tempo dialogar com as questões de gênero. Hoje temos as reivindicações das mulheres lésbicas, trans, travestis e das trabalhadoras sexuais. Nenhuma mulher pode ser deixada de lado. Isso tudo lá nos anos 60 seria impensável. No passado, o feminismo era predominantemente de mulheres brancas (heterossexuais). Mas ainda acho que as pautas ficam muito centradas nos direitos de escolha da mulher branca e isso precisa ser mais abrangente.

 Foi a militância que levou você a querer escrever?

Sempre quis escrever, mas isso aconteceu por causa da militância. O primeiro blog que abri sobre feminismo foi em 2011, A mulher dialética. Então conheci o editor na Fórum (revista inspirada no Fórum Social Mundial, lançada em 2001), o Renato Rovai, que me convidou para fazer uma coluna batizada de Questão de Gênero. Nas matérias semanais, procuro sempre dar espaço a diversas mulheres (negras heterossexuais, trans, lésbicas…) para que elas tenham espaço de se expressarem. Depois de dois asnos assinando a coluna, comecei a escrever cordel.

Por que você escolheu a literatura de cordel?

Meu pai e meu avô são cordelistas. Cresci ouvindo e lendo cordel, mas achava que não tinha talento. Meu pai me estimulou. Eu acho importante a literatura de cordel pela forma como representa mulheres, negros, gays… Quis manter a tradição viva e trazer um elemento novo. Em 2012, comecei e deu muito certo. As pessoas se interessaram muito, principalmente no meio da militância muita gente não conhecia essa literatura. Quanto mais eu escrevia, mais tinha um retorno positivo. No ano passado (2015), lancei meu primeiro livro, As lendas de Dandara. São dez contos que se interligam.

Sobre o que é o livro?

É ficcional, mas inspirado em pesquisas sobre o quilombo de Palmares e a História do Brasil durante a escravidão. Para escrever sobre a protagonista (Dandara foi uma guerreira negra do período do Brasil Colônia, esposa de Zumbi) levantei artigos científicos, em textos de militantes. Trata-se de um material muito escasso e controverso. Tem pesquisadores que afirmam que ela não existiu. Antes de começar a escrever fiz um teste com os leitores da revista. Publiquei “E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi?”, no dia da Consciência Negra. Recebi vários comentários falando que ela era só uma lenda. Então pensei: se ela é só uma lenda, vou escrever as lendas dela porque nem isso a gente tem. Minha ideia é provocar mesmo. Ela precisa ser conhecida, seja real ou lenda, para servir de inspiração feminina.

Você ganha a vida como escritora. Você acha que isso é mais difícil para uma mulher?

Para a mulher é mais complicado do que para um homem, imagina então para uma mulher lésbica, negra ou pobre. Nessa equação toda, ainda tem o fato de eu ser nordestina, o que é um empecilho também porque a literatura de cordel não é encontrada em livraria, não está em eventos literários como a Flip. Não é valorizada e o fato de ser uma expressão nordestina tem tudo a ver com isso. O Nordeste é a periferia do Brasil. Para eu conseguir publicar esse livro foi muito difícil. A mulher que escreve nunca é avaliada só pelo que ela escreve, mas pela aparência, pela vida pessoal… É um inferno. Isso é muito difícil pra todas.

Quais as feministas que lhe inspiram ?

A Aline Valek, que ilustra meu livro. A Djamila Ribeiro, pesquisadora referência no feminismo negro. Gosto muito das meninas do site Lugar de Mulher, que falam de feminismo de uma forma muito acessível e também das meninas da revista, adolescente e feminista, Captolina – se eu tivesse uma revista dessa quando era adolescente, teria adiantado meu processo de virar feminista. Tem ainda as meninas do Galadés, Sueli Carneiro e Jurema Werneck, e a escritora Ana Maria Gonçalves. Fora do Brasil: a escritora nigeriana Chimamanda Adichie e a americana Bell Hooks.

 

mar
02
2016

A revolução de costumes das jovens feministas

Por Aline Khouri  |  entrevistas feministas, Noticias  |  0 Comentários

selo_entrevistas_feministas_finalJovens e modernas, as novas feministas brigam por uma liberdade de comportamento, que envolve questões estéticas e filosóficas. Exigem o direito de dispor do corpo (e da sexualidade) sem se submeterem a padrões de qualquer tipo. As jovens feministas são empolgadas e engajadas. Fazem barulho com campanhas de protestos virtuais, desenvolvidas em um piscar de olhos, e estão conferindo um novo tom ao discurso feminista. Assim são as novas feministas, segundo o olhar da antropóloga Lia Zanotta Machado, professora da Universidade de Brasília e autora do livro Feminismo em Moviment. “É um movimento que tem uma preocupação menor em propor políticas públicas ou de criticar às atividades governamentais, do que revolucionar os costumes”, disse a antropóloga e feminista de carteirinha Lia Zanotta Machado.

Com outra linguagem e uma comunicação mais abrangente, essas jovens estão sendo responsáveis por aumentar o número de simpatizantes pela causa. “A novidade é que temos jovens homens feministas”, disse Lia na entrevista abaixo. A luta está cada vez maior, mais ampla. Não é só pela legalização do aborto, mas por uma educação não homofóbica, contra o racismo e qualquer forma de descriminalização sexual. Ou simplesmente, pela liberdade de cada um se vestir como quer.

O feminismo no Brasil mudou?

O feminismo da década de 70 cresceu, se organizou em ONGS e desenvolveu propostas de políticas públicas junto ao governo. A mobilização ocorria pelos direitos da democracia. As mulheres se organizavam para ter direito à fala. Eram grupos mais ou menos reduzidos que tinham visibilidade e que, portanto, a relação com o Estado era muito forte. Tinham propostas de mudar políticas públicas, pensar nos direitos das mulheres no governo democrático. Desde os anos 2000, você tem um borbulhar entre jovens abertas para outro tipo de feminismo. É um movimento que tem uma preocupação menor em propor políticas públicas ou de criticar às atividades governamentais, do que revolucionar os costumes, eu diria.

A maior mudança foi na forma de agir?

Quando querem, elas fazem críticas, vão pras ruas, organizam a Marcha das Vadias, por exemplo, criam sites e blogs, e também estão dentro da universidade. São mais pontuais na crítica direta. Foi o caso da reação diante da pesquisa do IPEA ( Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que indicava que mais de 65% da população acredita que a roupa que a mulher usa é motivo para estupro). Rapidamente surgiu a campanha na internet “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, que teve milhares de adesões. Elas usam uma linguagem ultramoderna, estão presentes em plataformas como blogs, que se mantém. Há também integrantes que vem e vão, ou seja, é um movimento mais fluente que o do passado, tanto para aparecer como para desaparecer. Por isso, eu diria que talvez seja menos organizado.

O tipo de público engajado no feminismo mudou?

Hoje temos muitas jovens e não só de mulheres heterossexuais. Há grupos de homens jovens e de lésbicas, por exemplo.

Isso acontece por que o foco mudou?

No começo do feminismo dos anos 70 e 80 eram três pautas principais: contracepção, aborto e violência. A partir daí surgiram as delegacias especializadas nos anos 83, 85…foram criados conselhos dos direitos das mulheres. Hoje elas se unem muito em torno do sentimento de discriminação que sofrem no dia a dia por terem um comportamento diferente do convencional.

A questão do trabalho não aparecia ou não aparece como uma pauta a ser reivindicada?

O trabalho sempre aparece, mas não com uma força tão grande. No feminismo tradicional, é constante a necessidade de as mulheres terem creches e salários iguais aos dos homens. Isso nunca some. Porém elas são atualmente mais movidas pela discriminação vivida no dia a dia em diversos ambientes, dentro e fora de casa. Elas sentem essa discriminação – que muitas vezes parte dos próprios jovens ao redor – em relação ao que elas vestem e como se comportam. Elas querem liberdade de andar na rua como quiserem e na hora que quiserem. Querem que lésbicas possam ser lésbicas. Tem uma novidade, a questão cisgênero…não falavámos disso nos anos 80 e 90. Elas respondem a essa discriminação nos blogs.

A questão do gênero passou a ser mais forte?

Sim, é muito forte. Para essas feministas, a possibilidade de ter qualquer gênero, seja heterossexual ou homossexual, é muito importante, tanto para meninas de classes populares como para as de classes mais altas. Para elas, sexualidade é liberdade e não uma questão de moralidade. Elas não querem seguir padrões seja ele qual for. Agora apareceu a ideia do amor livre. Enfim, ela é dona do corpo.

A defesa pelo direito de ser dona do próprio corpo inclui a luta contra a criminalização do aborto?

As jovens estão realmente propondo essa autonomia do corpo e da aparência contra a discriminação e contra a terrível tragédia da criminalização do aborto no Brasil.

Quando a questão da descriminalização do aborto passou a fazer parte da luta de fato?

As políticas públicas propostas no governo FHC (Fernando Henrique Cardoso) e no governo Lula fizeram com que as feministas passassem a pensar que, além da questão da violência, era importante discutir a legalização do aborto. As feministas conquistaram vários interlocutores e organizamos contatos com juristas e médicos. Usaram a Conferência Nacional de para as Mulheres (feita pela primeira vez no governo Lula) para colocar o aborto na pauta do governo. A conferência era para discutir educação e saúde, além de articular um modo de repercussão. Ali não estava a questão do aborto, fomos nós, as feministas, durante a conferência, que propusemos. Eram aproximadamente 2500 mulheres. Desse total apenas 200 votaram contra o aborto. Demonstraram que havia um ambiente propício para abraçar a essa questão polêmica. Polêmica porque na história do Brasil há uma relação muito grande com a Igreja Católica.

O que aconteceu depois?

Conseguimos o apoio do Executivo. Queríamos que fosse uma lei do Executivo. Mas no início dos anos 2000 houve um crescimento grande de políticos ligados às igrejas evangélicas. Essas igrejas se proliferaram muito nessa época. Acredito que a religiosidade em si não diminui de forma nenhuma o direito das mulheres, mas os políticos desses movimentos traçaram linhas moralistas enormes. Possuem uma proposta salvacionista. Não se pode falar de gênero, de educação contra discriminação das mulheres, de educação contra a homofobia e o racismo.

Exatamente como os evangélicos atrapalharam o desenrolar de uma política pública para isso?

Conseguimos apoio do Executivo, que estava lá durante a Comissão Triparte, mas com a mudança da câmera dos deputados entrou um presidente que vinha da bancada evangélica. Ele colocou nessa comissão três representantes contra o aborto. A Comissão andou, fez a minuta do projeto, que deveria ser entregue para a Jandira Feghali (médica e integrante do Partido Comunista do Brasil), que já estava fazendo uma análise das diversas propostas de legalização do aborto em tramitação na Câmara. Era uma proposta razoável. Aí houve aquele momento do mensalão e uma negociação pesadíssima com o governo que retirou o apoio para evitar críticas demasiadas da CNBB e da bancada evangélica. A minuta de legalização foi entregue em 2005, mas não avançamos devido a pressão da bancada evangélica e da Igreja Católica.

 

Como as feministas se colocam na defesa do aborto?

Nunca as feministas propõem aborto como uma solução, mas como uma forma de resolver situações pontuais que ninguém controla. A mulher não pode ser obrigada a manter uma gravidez, cuja responsabilidade sobra mais para ela do que para o homem. Ela tem de ser educada para usar os métodos contraceptivos, mas temos de ressaltar que os métodos contraceptivos falham, assim como os humanos, que podem esquecer, por exemplo, de tomar o anticoncepcional. As mulheres não aceitam continuar com uma gravidez indesejada e abortam clandestinamente mesmo sem condições de segurança. É uma tragédia inominável o que está acontecendo no Brasil. Muitas mulheres morrem em decorrência de um procedimento como esse. Existem outras alternativas mais seguras, como a pílula abortiva – o Citotec –, que está cada vez mais proibida. É injusto com a mulher. Quanto mais pobre você for, mais vulnerável às condições mórbidas, à perda de saúde e morte. Quanto mais clandestino o aborto, mais perigoso.

Mas o número de mortes em decorrência ao aborto diminuiu na última década?

Se o número de mortes por aborto diminuiu um pouco no Brasil foi por causa do Citotec. A legalização do aborto não é só pela saúde da mulher, mas pela dignidade, respeito e igualdade de gênero. A criminalização não impede o aborto porque as mulheres hoje luta pelo tipo de vida que querem, podem e merecem.

O feminismo de hoje é mais amplo do que antes? Estou me referindo a heterogeneidade de seus integrantes.

O feminismo é um guarda-chuva que abriga muitos grupos. Nos anos 90, apareceram grupos espontâneos de mulheres negras, que faziam atividades contra a discriminação, para falar sobre seus direitos. Depois se organizam em ONGS com estatuto e identidade mais definida. As lésbicas estavam lá, em vários grupos, mas, se não me engano, uma rede de mulheres só de lésbicas surgiu nos anos 2000. No Brasil, nós não fomos um feminismo branco como se diz que fomos. Tínhamos um feminismo bastante heterogêneo, com uma variedade enorme, só que elas não tinham lutas específicas para cada grupo de mulheres.

E hoje como está?

Tenho a impressão de que hoje a diversidade das mulheres tem um peso cada vez mais importante. As feministas brasileiras discutem abertamente sobre a heterogeneidade nos movimentos. Jovens, movimento LGBT, negras, todas essas questões aparecem, não só nas redes sociais, como na forma de estudo, teoria e análise. O fato de essa questão fazer parte do passado do feminismo foi muito importante. As jovens de hoje absorveram isso de uma forma nova. Temos grupos de blogueiras feministas negras e outros grupos de blogueiras feministas não negras e todas se posicionam contra o racismo, contra a educação homofóbica, lesbofóbica, enfim… a ideia da diversidade aparece tanto naquelas ONGS surgidas no passado, que continuam fazendo interlocução forte com o governo, como entre essas jovens blogueiras, que querem fazer uma revolução nas redes sociais.

mar
01
2016
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