As mulheres não são incompetentes, mas a gente vive dizendo isso sem pensar

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Noticias  |  0 Comentários

O Jurídico de Saias foi criado em 2009 por catorze amigas, advogadas e executivas. Na segunda reunião do grupo, que debate mulheres, mundo corporativo e jurídico, já eram mais de 30. Seis anos de existência e já existe blog (de acesso restrito), um livro comemorativo e um painel de discussão, de 2011, com a ativista Cherie Blair, mulher do britânico Tony Blair, da Cherie Blair Foundation for Women.

No café da Livraria Fnac de Pinheiros, em São Paulo, na companhia do publicitário Caio Coimbra, entrevistei a fundadora do grupo, a advogada Josie Jardim, e uma das associadas, a advogada Livia Azevedo. Ambas são executivas de carreira. Josie, hoje diretora jurídica para o Brasil da Amil, passou por GE, Motorola e Amazon. Lívia, general counsel do Walmart Brasil, já trabalhou na GE e na C&A.

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O Jurídico de Saias foi pioneiro na era dos grupos de gênero em redes sociais. O que vocês conversam nele que não conversam num grupo misto de advogados?

Josie: o Jurídico de Saias funciona como uma rede de proteção, um grupo em que a confiança entre as pessoas é absoluta. Tem gente pedindo socorro porque ficou sem babá. Outra que pergunta se alguém conhece a fundo a legislação inglesa porque ela precisa tirar algumas dúvidas…

Sem receio de parecer incompetente?

Josie: no Jurídico de Saias, temos total liberdade para dividir o conhecimento e as dificuldades. Uma das grandes mentiras sobre mulher é que elas se ajudam pouco. Nada. São muito solidárias, boas de network.

Livia: a rapidez e a solidariedade das pessoas é maior, muito maior, do que a gente encontra num grupo profissional.

O que este grupo faz pelas mulheres em geral? E pelas advogadas?

Josie: além do que já falamos, o grupo debate a vida corporativa. É duro sobreviver no mundo corporativo sendo mulher. Peraí, vamos tirar o vodu, né? (rsrs) É difícil, mas é possível mudar. Eu tive sorte, acho, e gosto da ideia de retribuir. Por exemplo, dividir aquelas experiências que são clássicos do machismo, quando os homens olham para você e automaticamente pedem para que seja responsável pela ata da reunião. Eu aprendi a tirar sarro disso… Outra coisa: pode ser um preconceito contra a mulher que decide parar de trabalhar, mas eu fico na torcida para que elas não parem. Dorme menos, mas dá para trabalhar e ter filhos! Assim como dá para não ter filhos.

Livia: a gente é de uma geração que foi avançando e não discutiu muita coisa. Compartilhamos pouco, é preciso dizer às mulheres que é possível.

Josie: verdade. Minha filha, de 21 anos, por exemplo, tem muita clareza sobre algumas questões de gênero. Ela é absolutamente contra o assédio e a favor da campanha Chega de Fiu-fiu (da jornalista Jules Faria, do blog Think Olga). Eu, por outro lado, cresci ouvindo assobios e isso nunca me incomodou. Mas entendo a posição da minha filha.

Qual foi a grande questão da geração de vocês, a primeira com um número maior de executivas nas grandes empresas?

Livia: acho que estávamos só seguindo o conselho das mães: “Minha filha, não dependa de homem nenhum…”

Josie: isso! A minha mãe, hoje com 84 anos, parou de trabalhar para cuidar dos filhos, mas é feminista, sempre foi. Ela me criou da mesma maneira com que criou meus quatro irmãos, todos homens. E olha que eu sou caçula.

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E hoje, o que dá para fazer para melhorar a promoção das mulheres no mundo corporativo?

Livia: muita coisa. O momento de contratação é chave. Se não prestarmos atenção, vamos apenas replicar o modelo existente, que é bastante masculino. Precisamos assegurar que as mulheres entrem na corporação e possam avançar dentro dela.

Josie: As mulheres vão e vão, mas não sabem como chegar ao topo da pirâmide… É natural do ser humano procurar os iguais. Homem contrata mais homens. E mesmo as mulheres que estiveram muito sozinhas lá em cima podem se comportar de maneira masculina. Eu, por exemplo, não tenho dúvida que me comportei de um jeito masculino em alguns momentos. Até hoje, não gosto dessa história de ficar falando de qualidade de vida… É o seguinte: a gente precisa parar de se definir pelos 9 meses de gravidez. É importante? É. Interrompe a carreira? Sim. Mas você volta e pronto. Não podemos nos limitar a essa questão da maternidade x trabalho. Eu tenho 48 anos, tive dois filhos em duas décadas da vida corporativa. Não estou dizendo que a questão do balanço entre vida pessoal e profissional está resolvida para mim, mas também não é a questão principal. Eu acredito que existe um desvio do protecionismo que acaba prejudicando as mulheres dentro de uma empresa. Licença de maternidade de 6 meses? Por que não de 3 meses para a mãe e de 3 para o pai? Por que horário flexível só para mulheres?

Livia: podemos fazer muitas coisas, principalmente se estamos em cargos de liderança. Podemos pedir à empresa que nos abra os números de gênero. Quantas mulheres? Quantos homens? Quais os cargos? Quais os salários? Outra coisa: podemos forçar a curva. Por exemplo, na cadeia de fornecedores, eu sempre pergunto pelas mulheres. Quantas mulheres tal fornecedor tem na direção? Costumo escolher uma mulher como ponto de contato na negociação com um fornecedor, sempre que possível. É um jeito de forçar a curva. E quem força a curva é o cliente grande. É ele que inspira a mudança em toda a cadeia.

Josie: importante pensar na discriminação que a gente não percebe. É supercomum a gente ouvir gestores falando: “Aqui, não tem discriminação de homem e mulher porque eu uso o critério da competência”. Aí, você vai ver e ele não tem uma mulher na diretoria. Quer dizer que as mulheres são todas incompetentes?

 

mai
13
2015

8 fatos assombrosos sobre trabalho e mulher

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Noticias  |  0 Comentários

1. Metade das brasileiras está no mercado de trabalho, algo próximo da média mundial. Nos anos 50, éramos 13%. Segundo a consultoria Booz & Company, uma participação 20% maior das mulheres (o que nos aproximaria da taxa masculina) poderia dar ao país um crescimento de 9 pontos no PIB.

2. No Brasil, o salário das mulheres costuma ser de 70% do salário masculino. (Em São Paulo, a distância diminui dez pontos percentuais.) Com mais de 12 anos de escola (o equivalente ao ensino médio), a mulher recebe quase metade do salário do homem.

3. 40% das executivas bem sucedidas não têm filhos contra 19% dos homens, segundo pesquisa de Betânia Tanure.

4. Não temos mais do que 15 mulheres na presidência da lista das 500 maiores empresas do país.

5. Em média, no mundo, as mulheres ganham 24% a menos do que os homens. “Quando elas têm filhos, o gap é ainda maior, pula para até 35%, como acontece no sudeste asiático”, diz o relatório da ONU Progress.

6. Na França e na Suécia, ao longo da vida, a expectativa de ganho da mulher é de 31% a menos do que os homens. Na Alemanha, de 49% e na Turquia, de 75%.

7. 83% dos trabalhadores domésticos do mundo são mulheres (no Brasil, são 90%).

8. Segundo levantamento de 2014, nas seis mais influentes instituições econômicas mundiais, a presença das mulheres nos boards continua minúscula: vai de 4 a 6%.

abr
30
2015
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