Um sabático pode ser produtivo?

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas, Família  |  3 Comentários

O que é um sabático contemporâneo? Esta é a pergunta que Andrea Bisker se faz, quatro meses depois de sair do comando da empresa cuja filial brasileira ajudou a lançar, a WGSN, serviço de conhecimento e informação em design e criatividade que, por muitos anos, orientou empresas ligadas à moda. Orienta, na verdade, porque Andrea saiu deixando 800 clientes ativos e um segundo negócio, a Mindset, o braço de consultoria da WGSN,  com foco em projetos customizados, que ela criou com o marido, Carlos Eduardo Finkelstein, e que 9 anos depois, vendeu à Top Right Group, holding da WGSN.

Aos 48 anos, primeira tatuagem com a palavra Equilíbrio desenhada no braço esquerdo, Andrea diz que se sente orgulhosa e cheia de gratidão agora que encerrou o período de negociação de saída da empresa. “Já me sinto como uma mãe que deixa a filha pronta para o mundo.” Ao mesmo tempo, conta que se vê inquieta, tentando inventar um sabático a seu modo.

Andrea Bisker e a missão de reinventar o sabático

Andrea Bisker e a missão de reinventar o sabático

Você foi a cara da WGSN por muito tempo e, com isso, ficou muito conhecida como uma caçadora de tendências, especialmente de moda e design. Como é largar esta “persona”?

É um processo que ainda está em movimento. Durante onze anos, cresci junto com a marca WGSN e vice-versa. Nos primeiros nove anos,  atuei como empresária da marca, com muita liberdade para criar. Toda construção da marca no Brasil foi baseada no conteúdo incrível e poderoso da WGSN, e a partir dele, conseguimos criar uma imagem aspiracional, de empresa inovadora, disruptiva e um must have no mercado da moda, beleza e design. A WGSN tem uma força no Brasil que é única no mundo todo e meu grande orgulho é que o Brasil ainda é um benchmark para Londres, onde está a sede. Fizemos filmes incríveis e criamos a Mindset, que hoje é o braço de consultoria mundial da WGSN. Desde o inicio, minha maior paixão era decodificar este conteúdo e entregá-lo em diferentes formatos, de palestras a workshops. Isto consolidou a imagem da “persona Andrea” como uma profissional inovadora e especializada em tendências. Foi muito difícil me desligar, é impactante a negociação de saída de uma empresa que se misturou com sua própria personalidade!  Depois de muita conversa e do entendimento de que o business pode seguir sozinho, mas o que você é, permanece, me senti preparada para fechar o ciclo. O movimento agora é separar estas duas imagens, que existem por si só. 

Ao vender a Mindset, há dois anos, você assumiu o posto de executiva do grupo para a América Latina. A experiência não foi boa?

Foi legal enquanto durou, mas também foi o suficiente. Porque, ao assumir um cargo executivo, você precisa fazer a história acontecer mas também cuidar da gestão dela. A cobrança de metas é exaustiva e você precisa deixar o hands on para lá, não há mais espaço nem tempo para ser criativa. Você tem calls, reports, visitas, eventos…. Enquanto gerenciei somente a WGSN e a Mindset, no primeiro ano de executiva,  ainda estava bem conectada com as atividades que me davam prazer. Quando fui promovida e assumi a direção geral do grupo,  deixei de fazer as coisas que eram minha razão de trabalho. Não porque me impediram, mas porque o cargo não permitia, não era mais a minha prioridade. Percebi que eu estava meio triste, muito no Excel, pouco no Keynote (o power point do Mac).  Acredito que o meu valor para o negócio são as ideias, a energia criativa e a capacidade de gerar negócios. Neste momento, percebi que o meu ciclo com a WGSN tinha terminado. Uma das certezas que tenho nesse meu sabático é que não quero ser executiva de novo. O meu objetivo é passar a atuar com projetos, e poder exercer minha criatividade com liberdade e num formato mais leve. 

Você foi workaholic?

Não, eu fui (e sou) worklover. Meu marido diz que o único foco que eu tinha na vida era o trabalho. Tenho consciência do tesão pelo trabalho e da facilidade em ficar adicta de novo. Parei de trabalhar uma vez apenas, há quatro anos, quando tive paralisia de Bell (paralisia da face). Foi um período muito angustiante, porque acordei com o rosto todo assimétrico e fiquei assim por muito tempo. (Na época, a revista CLAUDIA publicou a história de Andrea sob o título O Dia em que Eu Acordei Feia). Me sinto recuperada agora, mas não posso tirar fotos sorrindo, ainda. Por outro lado, reforcei minha capacidade de rir de mim e da vida, porque sei que as coisas podem mudar de uma hora para outra. Acredito que são essas pequenas cicatrizes que ajudam a gente a evoluir.

O que é esse seu projeto de reinventar o sabático?

Não sei, estou tentando descobrir (rsrsrs). Dá para fazer um sabático em que você se reinventa mas também inventa novas coisas? Em que não para de encontrar pessoas e ideias incríveis, mas também pode acordar tarde e falar bobagem no whats app com as amigas? Dá para viver num mood sabático? Sou muito inquieta e, desde que saí da empresa, falei com muita gente legal sobre muito projeto legal. Quando vi que estava de novo ansiosa, marcando um monte de reunião, eu parei para pensar. Entendi que os meus dias estavam ficando cheios de to dos, como antes. Por isso, decidi que o importante agora é selecionar o que me dá prazer e me permitir não ter que “nada”. Quando eu tinha 20 anos, eu já era tão worklover que não consegui sair do país porque imaginava que ia ficar fora do mercado do trabalho. Então, fico pensando se este comichão de voltar ao trabalho não é uma repetição de um padrão meu. E, nesse momento, eu não quero repetir, quero transgredir o meu próprio formato, tentar ser de outras formas. Estou fazendo análise com divã pela primeira vez e fica fácil perceber os padrões. Por exemplo: eu acho que a vida está me dando uma p* oportunidade. Tenho 48 anos, tenho condição financeira para fazer apenas o que gosto, tenho tempo para a família. A ponto de pensar em mudar para o exterior e me dedicar a ela, essa fantasia feminina, não é? Aliás, uma das coisas mais sensacionais que fiz no novo sabático foi um projeto de família. 

Como foi o projeto de família?

Foi o bar mitzvah (celebração judaica dos 13 anos dos meninos) do meu filho mais velho. Nessa cerimônia, você atinge a maioridade religiosa e assume compromissos com a lei da Torah.  Graças a minha saída do trabalho, pude me dedicar integralmente à produção do bar. Convidamos 80 amigos, judeus e não judeus, de vários lugares do mundo, da Holanda, da França, da Inglaterra e do Brasil para passar conosco seis dias em Israel. Foram 6 dias mágicos, de troca intensa com pessoas importantes da minha vida. Preparei todos os detalhes: do site ao convite, dos preparativos  de cada uma das atividades até o “convencimento” dos amigos a se juntar a nossa família nesta aventura do do outro lado do mundo. A cada dia,  fazíamos uma celebração especial… Saímos todos do hotel com uma banda tocando músicas judaicas e caminhamos até uma pequena sinagoga, onde o Mauricio, meu filho, rezou a sua Parashá e conquistou a sua maioridade religiosa. Tivemos a balada no topo de um hotel, com a vista de Jerusalém dourada pelo por do sol e uma lua cheia maravilhosa que ganhamos de presente. Caça ao tesouro em Massada, jantar marroquino com dançarina do ventre, visita a uma base militar e terminamos no Museu do Holocausto, onde nosso grupo, a maioria formada por pessoas de outras religiões, puderam entender um pouco da cultura judaica. Foi uma experiência maravilhosa que me deixa um profundo sentimento de gratidão. Entendi que dar é muito mais gostoso que receber, e esta doação é onde quero colocar minha energia daqui pra frente. Em projetos que me tragam sabedoria, que preencham a alma e que promovam o bem. 

O que você já reinventou?

De concreto, eu troquei o carro pela bike. Passei a acompanhar as lições de casa do meu filho mais novo, o que gerou ciúme no mais velho. “Você está dando muito atenção para ele e eu também preciso de ajuda”, reclamou o mais velho. “Como vocês faziam antes?” eu perguntei. “Não sei, mas agora você está aqui”, ele respondeu. KKK. Passei a dedicar um dia da semana a minha mãe, de 71 anos. Ela foi dona de casa até os 68, quando virou corretora de imóveis. Estou com ela nesse processo. Estou aprendendo a retribuir pequenas gentilezas para a família e amigos… Sempre fui aquela que comprava presente de baciada, de uma vez só, para os amigos dos filhos, porque estava sempre atrasada. Não mais! Também estou fazendo um curso de narratologia na escola Perestroika e quero me envolver em causas e projetos que realmente façam sentido para mim. Comecei a fazer curadoria de inovação dentro do clube da minha comunidade, o Hebraica (clube judaico de São Paulo). Junto com meu marido, estamos tocando o Headtalks, um projeto que traz conteúdo inspirador e disruptivo para os sócios, através de conversas e workshops criativos com gente inspiradora, como Marcelo Rosenbaum, por exemplo. Faço como voluntária e estou adorando. Educação é a minha nova paixão.

set
17
2015

Tenha um plano B para tudo, especialmente quando ainda ganha um bom salário

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  3 Comentários

Conheço Claudia Giudice desde que ela, Claudia Maximino e eu, repórteres da Veja, madrugávamos na redação da revista, na Marginal Tietê de São Paulo, esperando para ver se algum famoso morria. Uma das tarefas da editoria era cuidar do obituário. Isso foi nos anos 90 e a gente tinha menos de 30.

Nossos caminhos se cruzaram várias vezes. Por coincidência, ambas trabalhamos 23 anos na Editora Abril, ambas fomos superintendentes de unidades de negócios lá e ambas fomos demitidas quando a empresa passou a dispensar executivos.

Agora, Claudia lança um livro, A Vida Sem Crachá, em que relata sua experiência pós-demissão. Tive o privilégio de lê-lo antes do lançamento e posso garantir: o livro tem um jeito gostoso, uma narrativa envolvente para quem quer empreender. Não é fácil expor as dores de uma demissão. Claudia teve a coragem de fazer isso num blog homônimo, A Vida Sem Crachá, durante um ano. Ao mesmo tempo, jogou-se na administração de uma charmosa pousada em Arembepe, Bahia, chamada A Capela. Ela, que junto com a sócia, já tinha iniciado o negócio da pousada enquanto era executiva da Abril, agora se divide entre a praia e São Paulo, onde mora com o filho, Chico. “Compro as passagens com muita antecedência para pagar barato e administro as milhas como se trabalhasse na bolsa de valores”, brinca, revelando uma das dicas do livro para quem não vive mais de salário: valorize cada tostão que entrar ou sair do bolso. “A sorte é que agora eu não preciso mais viajar de madrugada, o que fazia quando tinha emprego e me dedicava à pousada no tempo que sobrava.”

 

Claudia Giudice: a dona da pousada checa seu peixe Foto: Sergio Zallis

Claudia Giudice: a dona da pousada confere seu peixe
Foto: Sergio Zallis

No livro que está lançando, A vida Sem Crachá, você fala da dor de ser demitida depois de 23 anos trabalhando numa corporação. Cada um é cada um, mas o que você recomenda para quem é demitido depois de passar tanto tempo num lugar?

A minha sugestão é encarar de frente o luto, a dor, a perda. Na minha opinião, é o jeito mais rápido de curar. Falar, chorar, vomitar é parte do processo, mas um ponto fundamental é lembrar que não pode durar para sempre. Senão, vira depressão, paralisia, morte. Parece fácil falando assim. Não é. Eu tinha uma estrutura financeira e familiar quando aconteceu minha demissão. Tinha um plano B, a pousada, funcionando e rendendo e mesmo assim demorei seis meses para curar as minhas feridas e parar de ter pensamentos do tipo: por que eu e não fulano? O fato é ninguém gosta de perder, de ser dispensado. E dor de cotovelo é a pior dor do mundo.

Como executiva, grande parte da sua vida foi dominada por metas de desempenho. O que falaria para um jovem executiva que tem metas cada vez mais desafiadoras pela frente?

As metas impossíveis de cumprir eram a minha droga. Sou muito competitiva. Meu chefe, que eu respeitava muito, sabia disso e me fazia produzir muito por conflito. Bastava ele dizer que eu não ia conseguir, que eu dava um jeito, ia até o inferno e trazia o resultado. Era um vício. Hoje eu sei que não me fazia bem. Que me esgotava. Me destruía. Essa experiência foi muito importante na minha vida sem crachá. Criei uma casca, uma força, que me fez enfrentar os piores momentos. Eu havia “chegado lá” e, portanto, podia me dar ao direito de fazer tudo de um outro jeito agora. E é assim que eu faço. É claro que eu tenho metas. Que preciso ganhar mais dinheiro, que preciso cumprir prazos. Mas não é nada hercúleo nem heróico. O que eu diria para uma jovem executiva? Se ela quiser chegar lá, no topo, vai ter que colocar uma faca entre os dentes e lutar. Se ela achar isso uma bobagem, deve começar a pensar no plano B já.

Nossa geração vai viver muito. Sair de uma empresa aos 50 anos, como é o seu caso, requer um plano B necessariamente. O que é importante fazer enquanto se está empregado?

Eu sempre me preocupei com o futuro. Eu sempre fiz planos. E sigo fazendo. Sempre tive muito medo de ficar velha sem dinheiro para pagar o plano de saúde e precisar de ajuda do meu filho, por exemplo. Acho que é importante fazer economia, aplicar bem o dinheiro, ter uma previdência privada e imóveis que possam lhe render um aluguel no final do mês. Hoje, sem salário, cortei gastos supérfluos, reduzi meus custos e procuro só gastar com aquilo que é necessário ou me dá muito prazer, como, por exemplo, viajar. Para uma vida mais simples, é preciso economizar e ter cuidado com a auto-indulgência. Sempre fui muito crítica com relação ao consumo. Acho que a vida não é comprar. Quando se perde o salário, dá uma agonia, especialmente quando ele era gordo como o meu. Para reduzir essa agonia, esse sofrimento, cortei custos e reduzi a necessidade de correr atrás por mais e mais dinheiro. A vida fica leve, divertida. Acho que por isso tudo mundo acha que estou mais feliz.

Você dá muitas dicas de empreendedorismo no seu livro. Quais as 3 que considera mais valiosas?

A primeira dica é pensar seriamente em ter um plano B para tudo. Nada dura para sempre e hoje as coisas mudam com uma velocidade espantosa. O plano B, vale dizer, não precisa ser um negócio próprio, mas pode ser, por exemplo, uma nova profissão. Tipo: virar consultor, professor, artista, fotógrafo. A segunda dica é: prefira um plano B que lhe dê satisfação e prazer. Especialmente se você for tocá-lo na segunda etapa de sua vida. É mais fácil dar certo quando você inicia um negócio pelo qual tem apreço e acumula, portanto, conhecimento. Terceira dica: dedique-se com muito afinco ao seu plano B. O sucesso dele é, na maioria das vezes, fruto de muito trabalho antes, durante e depois. Antes, fazendo um planejamento sério e profundo, investigando e estudando tudo. Durante é todos os dias, o tal do olho do dono que engorda o gado. Eu tenho uma pousada na Bahia e todo mundo imagina que eu vivo na folga. Eu vivo feliz porque adoro o que eu faço, mas trabalho muito. Tanto quanto eu era superintendente de uma grande companhia.

 

Como você conseguiu se organizar para escrever um livro, expandir uma pousada e ainda alimentar um blog?

Sempre fui disciplinada. Ou melhor, agoniada. Faço tudo logo, rápido para não ter a obrigação pesando nos meus ombros. Quando o projeto do livro foi aprovado, defini que iria entregá-lo em três meses: de 5 de janeiro a 6 de abril. Logo, tinha que escrever todos os dias, sempre que tinha uma folga durante o trabalho na pousada. Quando os hóspedes iam dormir, eu escrevia à noite. Todos os dias, religiosamente. O blog, eu alimento, no mínimo, três vezes por semana para criar hábito e ao mesmo tempo não encher o saco. Logo, tinha dia certo para escrever. Compromisso é dívida. Basta cumprir. E a pousada é agora o meu ganha pão. Se eu não vender diária todos os dias, eu não almoço nem janto. Nem pago condomínio, escola de filho, plano de saúde. Enfim, simples assim.

ago
04
2015

A reinvenção da vida depois de um AVC

Por Brenda Fucuta  |  Carreira e Dinheiro, Entrevistas  |  15 Comentários

Toda vez que eu tinha reunião* com a Elda, me lembrava da minha mãe dizendo, espantada: “Você conhece a Elda Müller?” Como milhares de assinantes de revistas, minha mãe acompanhava a carreira dessa executiva pelo expediente das publicações da Editora Abril. Redatora, editora-chefe, diretora de redação da Casa Claudia até os anos 2000. Depois, diretora-superintendente de todas as revistas femininas e, nos últimos anos, conselheira editorial da empresa. Em junho de 2014, ela se afastou do trabalho por razões médicas. Teve um AVC hemorrágico e, durante um mês, ficou hospitalizada. O acidente vascular cerebral não deixou seqüelas em Elda, que me recebeu em sua ensolarada varanda no Jardim Guedala, em São Paulo, para falar do trabalho e da vida. Era a mesma Elda e era uma nova Elda. Foi sobre isso que conversamos: a arte de reinventar a vida, assunto do livro que pretende lançar nos próximos meses.

Elda, uma das mais bem sucedidas executivas do mundo editorial, prepara um livro sobre a arte de reinventar a vida. Foto de Bernardo Paglia

Elda, uma das mais bem sucedidas executivas do mundo editorial, prepara um livro sobre a arte de reinventar a vida.                                            Foto de Bernardo Paglia

Você chegou ao hospital em estado grave. Agora, no entanto, parece muito bem. Seria difícil dizer que há menos de um ano teve um AVC.

Do ponto de vista físico, posso dizer que o AVC foi um acidente que não deixou nenhum efeito. Fiquei com um pequeno comprometimento da visão periférica esquerda, mas é uma coisa bastante leve para quem chegou ao hospital com poucos sinais vitais. Fiquei 20 dias em coma. Foi uma grande alegria pra minha família e meus amigos quando me recuperei. O fato de não ter, hoje, nenhum problema cognitivo, motor, nada mais dramático, é algo que considero um presente excepcional da vida. Isso não quer dizer, no entanto, que eu não tenha tido um trauma fortíssimo. O cérebro é um filtro da nossa percepção da vida, de tudo que acontece. Do que é. Um cérebro em reconstrução, como estava o meu, precisa reprocessar tudo. Tudo mesmo. Quem você é? Quem são as pessoas? Os lugares… Recuperar-se de algo assim pode ser assustador. É belo porque é um renascimento. Mas é assustador porque você tem que começar tudo de novo.

No mês passado, uma executiva da indústria de beleza, a Andrea Mota, corajosamente falou de um colapso que teve em função da exaustão no trabalho…

Acho que minha situação era um pouco diferente. Eu estava num momento tranqüilo da vida corporativa, já como conselheira e sem precisar cumprir a agenda extenuante de um executivo. Claro que a gente não pode saber exatamente por que aconteceu ou descartar o estilo de vida numa situação como essa. Mas, honestamente, não associo meu AVC com exaustão ou algo parecido. Lembro de ter sentido uma dor estranha na face direita e achado que podia ser enxaqueca durante uma reunião de trabalho. A dor piorou e saí para tomar um analgésico. Lá fora, depois de tomar o remédio, percebi que não ia melhorar. E, daí, só me recordo de dizer para a secretária que precisava ir ao ambulatório e de cair em seguida. Sei que fui levada de ambulância para o hospital.

O que essa ruptura te diz ou muda na tua relação com o trabalho?

Durante a vida profissional, a gente fica tão abduzida pelo cumprimento da tarefa, o que eu chamo de “Os 12 Trabalhos de Hércules”, que não presta atenção no que está acontecendo dentro da gente. Estamos tão focados na entrega que deixamos de nos olhar. E aí temos o primeiro ponto de reflexão. Sabemos que a vida de executivo pode ser difícil, que ele responde por resultados cada vez mais desafiadores. Mas, a meu ver, isso não quer dizer que ele deva deixar de se responsabilizar pelo cuidado consigo mesmo. Acredito que nós somos responsáveis pelos grandes movimentos das nossas vidas mesmo que, como executivos, façamos parte de uma engrenagem. Saber o que te faz sofrer, o que alimenta esse sofrimento, por exemplo, é uma responsabilidade sua. O trabalho pode ser tão prazeroso, inclusive, que serve para nos deixar longe dessas questões, vira uma forma de escapismo.

Como assim?

Talvez, no trabalho, a gente encontre um ambiente mais confortável para construir uma imagem positiva de nós mesmas, o que é delicioso. Diferentemente do que acontece na vida pessoal, na vida em grandes empresas a gente conta com muitos recursos, a ajuda de uma equipe talentosa e azeitada. Outra coisa, temos uma encomenda clara do chefe, se for um bom chefe. Se trabalharmos bem e tivermos sorte, colheremos bons resultados. Você fez o resultado? Yes! Você não entregou o resultado? Ok, deu problema e você precisa lidar com o revés. Mas acontece que, na vida, quando você lida com as pessoas que ama, é tudo mais complexo. Não tem resultado, tem experiências de vida. Não tem encomenda do chefe, tem a sua disponibilidade para desfrutar de alguns momentos. Como as coisas no trabalho podem ser mais simples, você se engana e diz: “Nossa, como sou bacana, olha o que eu consigo fazer, olha como isso ficou legal.” Seja qual for a medida, a do retorno financeiro, a da repercussão, a da inovação, você sente que está no controle. E isso não acontece nas nossas vidas, não é mesmo? Muitas vezes, os fatos são mais petulantes do que queremos e não colaboram (rsrs). Por isso, é fácil a gente se enganar e mergulhar tanto no trabalho. Porque na vida de filha, de mãe, de mulher, de namorada, de amiga… talvez as variáveis sejam imprevisíveis. Na vida, as encomendas são mais fluidas, não vêm num pacote organizado como o de uma meta ou do pedido de um chefe.

Como foi para você? Como é?

De alguma maneira, acho que tendi a olhar o capítulo trabalho meio separado do resto da vida. Algo como “peraí, agora eu estou trabalhando”. Embora eu tenha princípios e valores que esculpiram minha visão de mundo, imagino que eu pudesse ter integrado melhor as coisas. A integridade interior é a maior riqueza que a gente pode ter. A partir dessa observação do que ocorre dentro de nós, temos um radar importante pra agir, pra responder aos desafios da vida. Acredito que você não pode pôr todas as fichas num só lugar e nós, mulheres, temos um desafio extra porque a gente tem uma casa pra cuidar, tem muitas tarefas fora da empresa que são muito prazerosas. Eu sempre tive muito prazer em cuidar. Eu gosto de cozinhar, gosto de plantas, gosto da minha casa, de enfeitar a minha casa, por exemplo. Portanto, foi um desafio equilibrar tudo.

Você acredita que as mulheres possam imprimir uma liderança mais integradora?

Não gosto de dividir a liderança por gênero. Às vezes, a gente faz coisas mais masculinas, outras vezes mais ditas femininas. Eu já tive colegas e chefes que eram mais femininos em suas atitudes; também tive colegas mulheres mais masculinas em suas visões de mundo. Tem pessoas mais agressivas, autoritárias. Outras, gostam de delegar. São estilos de gestão que entram e saem da moda.

Como está sendo seu processo de recuperação?

Todos os relatos de pessoas que tiveram experiências de quase morte, como eu tive, falam de uma mudança profunda. Ao viver o nada, você passa a valorizar cada momento da vida. É essa a minha meta, agora: ter “radiância”, ter uma alma que se emocione e se entusiasme, que consiga enxergar a beleza dos momentos que passam despercebidos. Me sinto como uma pessoa que renasceu e que tem a chance maravilhosa de reinventar a vida. No livro, vou falar das experiências que me trouxeram até aqui: as viagens exóticas, a busca espiritual, as conquistas no trabalho. E também deste momento mágico que vivemos:  o impacto da tecnologia subvertendo toda a ordem, as grandes mudanças nas relações de trabalho, da noção que a gente construiu sobre o emprego. Bom poder pensar sobre “o que eu gosto de fazer?”, “o que me comove?”, “qual o propósito do trabalho?” num momento em que essa é uma pergunta coletiva, que boa parte do mundo também se faz. Não estou sozinha.

 

* Numa sala organizada sob as leis do feng-shui, Elda me recebia semanalmente na área mais nobre do 17 andar do prédio da Editora Abril, na Marginal Pinheiros. Foram dois anos de reunião, de 2008 a 2009, enquanto eu tive o prazer de tê-la como chefe.

jul
03
2015
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